Durante alguns segundos, ninguém conseguiu dizer nada. O nome de Camila permanecia na tela do telefone de Natália, enquanto a última frase de minha mãe parecia absurda demais para ser aceita.
“Eu fui ao funeral dela”, falei.
“Todos fomos”, respondeu Beatriz.
Eu me lembrava perfeitamente. Camila tinha vinte e seis anos. Um acidente numa estrada próxima a Campos do Jordão. O carro despencara numa área de mata e pegara fogo. Meu tio Eduardo identificara alguns pertences. O caixão permanecera fechado.
Meu estômago se contraiu.
“Você viu o corpo?”
Minha mãe não respondeu.
“Você viu?”
“Não.”
Natália segurou meu braço.
“Se Roberto disse que ela está viva, precisamos tirar os meninos daqui.”
Dessa vez não hesitei. Pedi ao hospital transferência imediata para uma ala privada e segurança adicional sem usar funcionários ligados ao Grupo Almeida. Helena telefonou para uma empresa independente. Vinte minutos depois, Gabriel e Rafael estavam num quarto protegido em outro andar.
Enquanto caminhávamos, Gabriel segurou minha mão.
“Você vai com a gente?”
“Vou.”
“Mesmo quando eu sair daqui?”
A pergunta me atingiu mais fundo do que qualquer segredo daquela noite.
Abaixei-me.
“Se sua mãe permitir, quero começar a recuperar o tempo que perdi.”
Gabriel olhou para Natália.
Ela permaneceu em silêncio, mas não disse não.
Quando os meninos se acomodaram, Beatriz finalmente contou o que sabia.
“Camila sempre foi diferente. Extremamente inteligente. Augusto pagou seus estudos na Suíça porque Eduardo não tinha condições na época. Ela estudou genética e depois gestão de patrimônio.”
“Genética?”
“Sim.”
A coincidência era impossível.
“E quem era o pai biológico dela?”
Minha mãe olhou para Helena e Natália antes de responder.
“Augusto.”
Senti como se alguém tivesse retirado o chão.
“Meu pai?”
“Camila era sua meia-irmã.”
Fechei os olhos.
Meu pai tivera uma filha com outra mulher anos antes. Eduardo assumira a paternidade para evitar um escândalo familiar.
“Eu nunca soube.”
“Quase ninguém sabia. Augusto carregou essa culpa durante décadas.”
“Então o Projeto Herdeiro considerava colocar minha própria irmã perto de mim?”
“É por isso que acho que aquela lista não significa o que vocês pensam. Talvez ‘candidata’ tivesse outro sentido.”
Marcelo enviou outra mensagem.
**Encontrei Roberto. Ele quer falar pessoalmente. Local seguro.**
Deixei Natália com os meninos e fui acompanhado por Helena e Beatriz. Encontramos Roberto num estacionamento subterrâneo de um edifício comercial. Ele parecia dez anos mais velho do que eu lembrava.
Assim que me viu, entregou-me um telefone.
“Antes de me odiar, assista.”
Era uma gravação de segurança antiga.
Meu pai aparecia numa sala com Roberto.
A data era de seis anos antes.
Augusto dizia:
“Natália precisa acreditar que Lucas não quer as crianças.”
Minha mandíbula travou.
Roberto respondia:
“Isso vai destruí-la.”
“É melhor que ela me odeie do que alguém descobrir os meninos.”
A gravação terminou.
A raiva que senti de meu pai foi quase física.
“Você podia ter me contado.”
“Eu tentei, depois que Augusto morreu.”
“Não tentou o suficiente.”
Roberto abaixou os olhos.
“Você já estava casado com Helena. E eu não sabia quem ainda trabalhava para o projeto.”
“Camila está viva?”
Ele assentiu.
Minha mãe levou a mão à boca.
“Eu a vi há três semanas.”
“Onde?”
“Rio de Janeiro.”
“Por que não contou?”
“Porque ela me procurou dizendo que queria destruir o Projeto Herdeiro.”
“E você acreditou?”
“Até hoje.”
Roberto explicou que Camila sobrevivera ao acidente onze anos antes. Segundo ela, o acidente não fora acidental. Augusto teria usado sua suposta morte para escondê-la depois que ela descobriu o verdadeiro alcance do projeto.
“Então Camila não é o Curador?”
“Ela diz que não.”
“Mas você acabou de dizer que era ela.”
“Eu disse porque recebi uma mensagem usando o código dela. Depois descobri que alguém clonou o acesso.”
Meu telefone vibrou.
Marcelo enviara os dados recuperados da pasta de Helena.
Havia um relatório intitulado FASE FINAL — SUCESSÃO ALMEIDA.
Abri.
Meu casamento com Natália aparecia como “evento desestabilizador”.
Nosso divórcio, “correção concluída”.
Meu casamento com Helena, “aproximação bem-sucedida”.
E havia uma última etapa.
**Nascimento de sucessor geneticamente selecionado.**
Olhei para Helena.
Ela estava tremendo.
“Eu nunca participei disso.”
Continuei descendo.
Então encontrei uma data prevista para o procedimento.
Dois anos antes.
“Helena... dois anos atrás você fez algum tratamento médico?”
Ela demorou a responder.
“Fiz uma cirurgia.”
“Que cirurgia?”
“Disseram que eu tinha um cisto ovariano.”
Roberto empalideceu.
“Em qual hospital?”
Helena falou o nome.
Roberto recuou.
“Era uma das clínicas ligadas ao projeto.”
O rosto dela perdeu completamente a cor.
“Você está dizendo que fizeram alguma coisa comigo?”
“Nós precisamos descobrir.”
Naquele instante, Beatriz recebeu uma ligação.
Era o hospital.
Atendeu imediatamente.
Sua expressão mudou.
“Como assim desapareceram?”
Arranquei o telefone de sua mão.
“Quem desapareceu?”
A enfermeira estava desesperada.
“Sr. Almeida, sua ex-esposa e os meninos estão bem. Mas alguém retirou do laboratório as amostras genéticas coletadas hoje.”
“Quem?”
“As câmeras mostram uma mulher usando credencial médica.”
“Tem imagem?”
Segundos depois, recebi uma fotografia.
A mulher usava máscara, mas os olhos eram visíveis.
Minha mãe começou a chorar.
“É ela.”
“Camila?”
Beatriz assentiu.
Meu telefone tocou imediatamente.
Número desconhecido.
Atendi.
“Lucas?”
Uma voz feminina.
“Camila?”
Silêncio.
“Precisamos conversar.”
“Você roubou as amostras dos meus filhos?”
“Eu as tirei antes que outra pessoa pudesse pegá-las.”
“Quem?”
“Você ainda está procurando o Curador no lugar errado.”
“Então diga quem é.”
“Não posso enquanto sua mãe estiver ao seu lado.”
Olhei para Beatriz.
“Por quê?”
Camila respirou fundo.
“Porque Beatriz sabe que Augusto não criou o Projeto Herdeiro.”
“Quem criou?”
“Ela.”
Minha mãe fechou os olhos.
Camila continuou antes que eu pudesse falar.
“Mas isso ainda não faz dela o Curador.”
“Então quem é?”
“Venha sozinho amanhã às oito da manhã ao endereço que vou enviar. Traga a carta de Augusto.”
“Por que eu confiaria em você?”
“Porque existe uma coisa que seu pai nunca teve coragem de contar.”
“O quê?”
A voz de Camila ficou mais baixa.
“Gabriel e Rafael não foram os primeiros filhos de Lucas Almeida registrados pelo Projeto Herdeiro.”
Meu coração parou.
“O que você está dizendo?”
“Existe outra criança.”
A ligação terminou antes que eu pudesse fazer qualquer outra pergunta.







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