Passei o resto da noite sentado ao lado da cama de Gabriel, incapaz de afastar da cabeça as últimas palavras de Camila. Existia outra criança. Meu primeiro impulso foi rejeitar aquilo como mais uma manipulação, mas depois de tudo o que descobrira nas últimas horas, eu já não tinha o luxo de considerar qualquer coisa impossível. Rafael dormia na poltrona ao lado, com a cabeça apoiada no braço de Natália. Observei os dois e senti medo de uma maneira completamente nova. Até aquele dia eu acreditava que dinheiro e influência podiam me proteger. Agora sabia que meu nome talvez fosse justamente aquilo que colocava meus filhos em perigo.
Pouco antes das sete, Natália acordou.
“Você não dormiu.”
“Camila marcou um encontro.”
“Você vai?”
“Vou.”
“Então eu vou também.”
“Ela exigiu que eu fosse sozinho.”
Natália se levantou.
“E desde quando você obedece a pessoas que ameaçam sua família?”
A palavra família ficou entre nós.
“Desde que descobri que quase todas as pessoas em quem confiei esconderam alguma coisa.”
Ela compreendeu.
Antes de sair, aproximei-me dos meninos. Gabriel abriu os olhos.
“Você volta?”
A mesma pergunta.
Dessa vez respondi sem hesitar.
“Volto.”
Às oito em ponto, cheguei ao endereço enviado por Camila. Era uma casa discreta no Jardim Europa, registrada em nome de uma empresa que eu desconhecia. A porta estava aberta.
Entrei.
Camila estava diante de uma janela.
Onze anos não haviam apagado seus traços. O mesmo cabelo escuro, agora curto. Os mesmos olhos de Augusto.
“Você está viva.”
Ela sorriu tristemente.
“Nem sempre tive certeza de que isso era uma vantagem.”
“Existe outra criança?”
“Existe.”
“Minha?”
“Biologicamente, sim.”
Senti o sangue desaparecer do rosto.
“Eu nunca tive outra relação durante meu casamento com Natália.”
“Você não precisou.”
Camila colocou uma pasta sobre a mesa.
**LA-04.**
O mesmo código mencionado no documento do hospital.
“Seu material biológico foi armazenado sem autorização.”
Abri a pasta.
Havia registros de coleta, armazenamento e transferência.
“Transferido para onde?”
“Uma clínica no exterior.”
“Para quê?”
Camila demorou.
“Fertilização.”
Levantei-me.
“Você está dizendo que alguém usou meu material para gerar uma criança?”
“Sim.”
A náusea veio antes da raiva.
“Quem?”
“Uma mulher selecionada pelo projeto.”
“Helena?”
“Não.”
Ela virou uma página.
Havia uma fotografia de uma mulher chamada Marina Soares.
“Ela fazia parte do programa?”
“Achava que participava de um tratamento experimental de fertilidade subsidiado.”
“Ela sabia quem era o pai?”
“Não.”
“E a criança?”
“Uma menina. Laura. Tem oito anos.”
Oito.
Mais velha que Gabriel e Rafael.
Sentei-me.
Eu tinha uma filha que nunca conhecera.
“Onde ela está?”
“Segura.”
“Quero vê-la.”
“Vai ver. Mas primeiro precisa entender por que isso aconteceu.”
Camila caminhou até uma estante e retirou uma caixa.
“O Projeto Herdeiro foi criado por Beatriz.”
Minha mãe.
“Por quê?”
“No começo, por medo.”
Camila explicou que, décadas antes, uma disputa sucessória quase destruíra a família Almeida. Beatriz começara a financiar pesquisas privadas para prever doenças hereditárias e proteger a continuidade patrimonial. Augusto participara depois.
“Então minha mãe criou tudo.”
“A estrutura inicial. Mas outra pessoa transformou aquilo numa operação criminosa.”
“O Curador.”
Camila assentiu.
“Quem?”
“Eduardo.”
Meu tio.
O homem que eu chamara de tio durante toda a vida. O homem que criara Camila como filha mesmo sabendo que Augusto era seu pai biológico.
“Ele morreu?”
“Não.”
“Então por que Roberto disse que o Curador descobriu os meninos?”
“Porque descobriu.”
“E por que você roubou as amostras?”
“Eduardo precisava delas para confirmar uma coisa.”
“Que coisa?”
Camila abriu outro documento.
Havia três perfis genéticos.
O meu.
O de Gabriel.
O de Rafael.
“Os gêmeos carregam uma característica genética que Laura não tem.”
“E?”
“Essa característica também aparece em Augusto.”
Demorei a entender.
“Claro. Ele era meu pai.”
Camila me encarou.
“É justamente isso que Eduardo começou a questionar.”
Meu corpo ficou imóvel.
“Do que você está falando?”
Ela colocou outro exame diante de mim.
**Augusto Almeida — Lucas Almeida: incompatibilidade de paternidade biológica.**
Ri de incredulidade.
“Isso é falso.”
“Eu repeti o teste quatro vezes.”
“Meu pai era Augusto Almeida.”
“Ele foi seu pai em tudo que importa. Mas biologicamente... não.”
Afastei-me da mesa.
Toda a minha identidade parecia estar sendo desmontada peça por peça.
“Então quem é meu pai biológico?”
Camila não respondeu imediatamente.
“É por isso que Eduardo manteve o projeto vivo. Ele acreditava que o controle do Grupo Almeida poderia ser contestado se essa informação aparecesse.”
“Quem?”
“Pergunte a Beatriz.”
“Não. Você me trouxe aqui. Diga.”
Camila finalmente falou.
“Roberto Vasconcelos.”
Fiquei olhando para ela.
Meu antigo assessor.
O homem que falsificara documentos.
O homem que ajudara meu pai a esconder meus filhos.
“Isso é impossível.”
“Roberto e Beatriz tiveram uma relação antes de ela se casar com Augusto.”
“Roberto não é velho o suficiente.”
“Você conhece a idade verdadeira dele?”
Percebi que não.
Peguei o telefone.
“Vou perguntar a ele.”
Camila segurou meu braço.
“Não.”
“Por quê?”
“Porque essa informação é exatamente o que Eduardo quer que você descubra.”
“Você acabou de me contar!”
“Porque agora precisamos usar isso contra ele.”
Antes que eu pudesse responder, ouvi passos no corredor.
Virei-me.
Roberto apareceu.
Ele não parecia surpreso.
“É verdade?”, perguntei.
Seus olhos se encheram de lágrimas.
“Lucas...”
“Você é meu pai?”
Ele baixou a cabeça.
“Sim.”
A raiva explodiu.
“Você esteve ao meu lado por onze anos!”
“Foi a única maneira que encontrei de estar perto de você.”
“E depois ajudou a tirar meus filhos de mim!”
“Para mantê-los vivos.”
“Chega dessa desculpa!”
Roberto não respondeu.
Então Camila colocou outro documento sobre a mesa.
“Lucas, Eduardo convocou uma reunião extraordinária do conselho para hoje às cinco.”
“Por quê?”
“Vai tentar afastá-lo da presidência usando os arquivos do Projeto Herdeiro e a alegação de que você não pertence biologicamente à família Almeida.”
Quase ri.
“Eu detenho a maioria das ações.”
“Não diretamente.”
Camila abriu o estatuto do fundo familiar.
Após a morte de Augusto, parte das ações permanecera num truste cuja cláusula de sucessão mencionava especificamente descendentes biológicos de Augusto Almeida.
“Se Eduardo provar que você não é filho biológico dele, pode tentar assumir o controle.”
Tudo finalmente começou a fazer sentido. Os exames. Os casamentos. Os herdeiros. Minha fertilidade.
“Então meus filhos são apenas peças numa disputa empresarial.”
“Para Eduardo, sim.”
Meu telefone tocou.
Natália.
Atendi imediatamente.
“Lucas, volte para o hospital.”
Sua voz tremia.
“O que aconteceu?”
“Eduardo está aqui.”
Meu corpo gelou.
“Não deixe ele chegar perto dos meninos.”
“Ele não veio pelos meninos.”
“Então por quê?”
Natália ficou em silêncio por um instante.
“Ele trouxe uma mulher e uma menina.”
Olhei para Camila.
“Qual é o nome da menina?”
Ouvi Natália perguntar ao fundo.
Então voltou ao telefone.
“Laura.”
Camila empalideceu.
Corri para a porta, mas Natália ainda não havia terminado.
“Lucas, tem mais uma coisa. Eduardo trouxe um exame de DNA.”
“De quem?”
“Seu e de Laura.”
“E?”
A voz dela ficou quase inaudível.
“Segundo o exame, você não é o pai dela.”
Parei.
Camila arrancou o telefone da minha mão.
“Isso não é possível.”
Natália respondeu:
“Então vocês precisam explicar outra coisa.”
“O quê?”
“Porque o exame diz que o pai biológico de Laura é Augusto Almeida.”
Olhei para Roberto.
Depois para Camila.
E compreendi que Eduardo não estava tentando apenas tirar minha empresa.
Ele estava prestes a revelar um segredo que poderia destruir definitivamente tudo o que restava da família Almeida.







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