A fotografia permaneceu congelada na tela do celular. O médico que, poucas horas antes, me dera a resposta capaz de destruir tudo em que eu acreditava estava ligado ao Projeto Herdeiro havia anos. Minha primeira reação foi sentir que até aquela consulta podia ter sido preparada.
“Marcelo, descubra tudo sobre ele. Sem usar ninguém do Grupo Almeida.”
“Já estou copiando os arquivos.”
“E saia daí assim que terminar.”
Helena ainda encarava o próprio nome na tela.
“Eu fui escolhida?”
Sua voz perdera toda a segurança que sempre a acompanhava.
“Parece que alguém queria colocar você perto de mim”, respondi.
“Eu não sabia disso.”
Eu queria acreditar. Talvez porque a alternativa significasse admitir que meu segundo casamento inteiro poderia ter sido uma mentira.
Natália surgiu no corredor.
“Gabriel acordou.”
Entrei imediatamente no quarto. O médico do hospital estava examinando meu filho. Gabriel parecia cansado, mas conseguiu sorrir quando me viu.
“Você voltou.”
Duas palavras. Apenas isso.
Mesmo assim, senti vergonha de todos os anos em que ele poderia ter esperado por alguém sem sequer saber meu nome.
O médico pediu para conversar conosco fora do quarto.
“Os exames confirmaram uma alteração, mas ainda não temos o diagnóstico definitivo. O material genético do pai ajudou bastante. Há um marcador que aparece tanto em Gabriel quanto no senhor.”
“É grave?”
“Pode ser controlável. Preciso de mais algumas horas.”
Natália apertou os braços contra o corpo.
“E Rafael?”
“Vamos testá-lo também por precaução.”
Quando o médico saiu, percebi que Natália estava chorando silenciosamente.
“Ele vai ficar bem”, falei.
“Você não pode prometer isso.”
“Então prometo que não vou fugir.”
Ela me encarou.
“Isso você pode prometer.”
Meu celular vibrou.
Marcelo enviara um endereço.
**Encontrei o médico. Dr. Henrique Ferraz. Atualmente dirige uma clínica privada no Rio. Há algo estranho: ele também trabalhou na clínica onde você e Natália fizeram tratamento.**
Eu já sabia o que precisava fazer.
Liguei para Henrique.
Ele atendeu no terceiro toque.
“Sr. Almeida?”
“Precisamos conversar.”
Silêncio.
“Sobre seus exames?”
“Sobre o Projeto Herdeiro.”
A ligação ficou muda por alguns segundos.
“Quem lhe deu esse nome?”
“Meu pai.”
Henrique respirou fundo.
“Não fale disso por telefone.”
“Então venha a São Paulo.”
“Não posso.”
“Por quê?”
“Porque, se você encontrou os arquivos de Augusto, outras pessoas provavelmente sabem.”
“Quem?”
“Lucas, seu pai tentou destruir o projeto. Foi por isso que ele escondeu Natália e os meninos.”
“E você participou?”
“Participei no início.”
Meu estômago se contraiu.
“Você manipulou meus exames?”
“Não.”
“Então quem manipulou?”
Henrique hesitou.
“Os primeiros resultados foram alterados antes de chegarem até mim. Quando percebi, procurei Augusto.”
“Por que não me procurou?”
“Porque seu pai me mostrou uma lista.”
“Que lista?”
“Pessoas dentro do seu círculo pessoal que recebiam dinheiro para fornecer informações.”
Olhei para Helena.
“Roberto estava nela?”
“Sim.”
“Helena?”
O silêncio de Henrique durou tempo demais.
“Não.”
Helena fechou os olhos, aliviada.
“Então por que havia um arquivo genético dela?”
“Porque Helena era uma candidata.”
“Candidata para quê?”
“A gerar um herdeiro Almeida.”
Senti meu corpo gelar.
Helena deu um passo para trás.
“Isso é absurdo.”
Henrique continuou.
“O projeto começou como uma operação de inteligência financeira. Depois alguém percebeu que informações sobre fertilidade, doenças hereditárias e relações familiares podiam valer bilhões.”
“Quem comandava?”
“Não sei o nome verdadeiro. Nós o conhecíamos como Curador.”
“Meu pai sabia quem era?”
“Acho que descobriu pouco antes de morrer.”
A frase me atingiu.
Meu pai morrera de um ataque cardíaco aos setenta e dois anos. Sempre aceitei aquela explicação.
“Você está insinuando alguma coisa sobre a morte dele?”
“Estou dizendo apenas que Augusto me ligou na noite anterior. Parecia assustado.”
Meu coração acelerou.
“O que ele disse?”
Henrique baixou a voz.
“Disse: ‘Se alguma coisa acontecer comigo, Lucas precisa saber que o Curador está dentro da família.’”
A ligação caiu.
Tentei retornar.
Telefone desligado.
Helena estava branca.
“Dentro da família?”
Natália aproximou-se.
“Lucas, quem além do seu pai tinha acesso às decisões do grupo naquela época?”
Eu poderia citar dezenas de executivos, mas “família” reduzia drasticamente a lista.
Minha mãe, Beatriz.
Meu tio Eduardo, irmão mais novo de Augusto.
Minha prima Camila, que administrava parte da fundação.
E eu.
Antes que pudesse organizar os pensamentos, Marcelo ligou novamente.
“Lucas, temos um problema.”
“O quê?”
“Alguém entrou no antigo escritório.”
“Você ainda está lá?”
“Estou saindo. Mas a pessoa sabia exatamente onde ficavam os cofres.”
“Você viu quem era?”
“Não. Só ouvi a porta.”
Um ruído forte veio da ligação.
“Marcelo?”
Silêncio.
“Marcelo!”
A chamada terminou.
Tentei retornar imediatamente.
Nada.
Helena pegou a bolsa.
“Precisamos chamar a polícia.”
“Não ainda.”
“Seu advogado pode estar em perigo!”
“E eu não sei em quem confiar.”
Foi então que Natália percebeu algo.
“Lucas... a carta.”
“Que carta?”
“A carta do seu pai. Marcelo só leu a primeira parte.”
Ela tinha razão.
Abri as fotografias que Marcelo enviara durante a digitalização. Havia quatro páginas.
Ampliei a terceira.
Meu pai escrevera:
**Não confie na versão que lhe contarão sobre o início do Projeto Herdeiro. Eu também tenho culpa. Durante anos, financiei parte dele acreditando que protegíamos o patrimônio das famílias participantes. Quando compreendi o verdadeiro objetivo, já era tarde.**
Continuei lendo.
**Natália nunca foi escolhida pelo projeto. Esse foi o problema. Você se apaixonou pela única mulher que eles não haviam aprovado.**
Olhei para Natália.
Ela também estava lendo.
Na última página havia uma frase circulada duas vezes.
**Se meus netos nascerem, mantenha-os longe da família Almeida até que Lucas descubra quem é o Curador.**
Logo abaixo, meu pai escrevera um nome.
Não era Helena.
Não era Roberto.
Era Beatriz Almeida.
Minha mãe.
Naquele exato instante, a porta do quarto de Gabriel se abriu.
Rafael saiu correndo.
“Pai!”
Foi a primeira vez que um deles me chamou assim.
Abaixei-me imediatamente.
“O que aconteceu?”
Ele apontou para dentro do quarto, assustado.
“Tem uma senhora falando com o Gabriel.”
Meu sangue gelou.
“Que senhora?”
Rafael respondeu sem imaginar o significado daquelas palavras:
“Ela disse que é nossa avó.”
Atravessei a porta.
Minha mãe estava sentada ao lado da cama de Gabriel, segurando a mão dele.
Quando me viu, não demonstrou surpresa.
Apenas olhou para o celular em minha mão e depois para Natália atrás de mim.
“Então finalmente encontrou a carta do seu pai”, disse ela.
Fiquei imóvel.
“Você é o Curador?”
Minha mãe soltou lentamente a mão de Gabriel.
“Não, Lucas.”
Ela se levantou.
“Eu sou a pessoa que passou seis anos tentando impedir que o Curador descobrisse que seus filhos estavam vivos.”







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