Fiquei olhando para o nome de Priscila no extrato por tempo demais. O salão continuava cheio de risadas, música e copos se tocando, mas eu só conseguia enxergar aquela sequência de números na tela. Havia quatro transferências para uma conta vinculada a ela, todas feitas nos últimos oito meses. A menor era de quarenta e oito mil reais. A maior ultrapassava cento e vinte mil. Somadas, chegavam perto de trezentos mil.
Meu primeiro pensamento foi absurdo: talvez existisse outra Priscila Almeida. Então ampliei a imagem enviada pelo número desconhecido. Ao lado do nome havia parte de um CPF. Eu ainda lembrava os últimos números do documento dela porque, quinze anos antes, quando éramos jovens demais para imaginar que um dia seríamos estranhos, eu preenchera a ficha de inscrição dela para uma viagem da faculdade.
Era ela.
Guardei o celular e atravessei o salão.
Priscila percebeu minha aproximação e sorriu, mas o sorriso desapareceu quando viu meu rosto.
— Podemos conversar?
Renata olhou para nós e encontrou uma desculpa para se afastar.
— Claro — respondeu Priscila. — Sobre o quê?
— Aqui não.
Fomos até um corredor lateral próximo aos banheiros. Antes de mostrar qualquer coisa, decidi fazer uma pergunta.
— Você conhece Maurício?
Ela franziu a testa.
— Seu sócio?
— Não foi isso que perguntei.
O silêncio durou dois segundos.
Dois segundos demais.
— Daniel, o que está acontecendo?
— Você conhecia Maurício antes desta noite?
Ela desviou os olhos.
Foi o suficiente.
— Conhecia.
Senti uma pressão no peito.
— Há quanto tempo?
— Alguns meses.
— Quantos?
— Daniel...
— Quantos?
— Uns nove.
Nove meses. As transferências tinham começado oito meses antes.
— E por que fingiu que não conhecia?
Priscila respirou fundo.
— Porque ele pediu.
Tirei o celular do bolso.
— Por quê?
Quando mostrei a fotografia do extrato, o rosto dela perdeu a cor.
— Onde conseguiu isso?
Não perguntou o que era. Não perguntou por que seu nome aparecia ali.
Perguntou onde eu conseguira.
— Então é verdadeiro.
— Não é o que você está pensando.
Eu quase ri.
— Essa frase continua tão ruim quanto era quinze anos atrás.
Ela fechou os olhos por um instante.
— Eu posso explicar.
— Começa pelos trezentos mil.
— Não eram para mim.
— A conta está no seu nome.
— Eu sei.
— Então para quem eram?
Priscila olhou para o corredor, como se tivesse medo de que alguém estivesse ouvindo.
— Maurício.
A resposta me deixou ainda mais confuso.
— Ele transferia dinheiro da minha empresa para você para você devolver para ele?
— Não exatamente.
— Então exatamente como?
Antes que respondesse, uma voz surgiu atrás de nós.
— Daniel.
Maurício.
Ele estava parado a poucos metros, com o maxilar rígido.
Priscila deu um passo para trás.
— Você contou? — perguntou ele.
— Ele descobriu.
Maurício olhou para o celular na minha mão.
— Quem mandou isso para você?
A mesma pergunta.
— Interessante. Nenhum dos dois perguntou se é verdadeiro.
Ele se aproximou.
— Me dá o telefone.
— Nem pense nisso.
— Você não entende o que está vendo.
— Então me ajuda.
Maurício olhou para Priscila.
— Vai embora.
Ela não se moveu.
— Eu disse que vou explicar para ele.
— Você prometeu que não faria isso.
— E você prometeu que resolveria tudo antes de hoje.
Ali estava outra peça que eu não conhecia.
— Resolver o quê?
Nenhum respondeu.
Minha raiva começou a superar a confusão.
— Vocês têm dez segundos antes de eu ligar para o advogado da empresa.
Maurício soltou o ar lentamente.
— Existe uma conta paralela.
— Eu percebi.
— Não é dinheiro desviado.
— Dinheiro saiu da empresa sem minha autorização.
— Tecnicamente, saiu de uma subsidiária.
— Uma subsidiária que pertence à empresa.
— Daniel...
— E usaram minha assinatura.
Ele ficou quieto.
— Você falsificou minha assinatura?
— Eu precisava ganhar tempo.
A resposta me atingiu com mais força do que uma negação teria atingido.
Priscila levou a mão à boca.
— Você disse que Daniel tinha autorizado.
Maurício virou-se para ela.
— Não agora.
— Você me disse que ele sabia!
— Cala a boca, Priscila.
— Não fala assim com ela — interrompi.
Ele me encarou.
Por mais estranho que fosse, naquele instante vi novamente o homem que conhecera doze anos antes: inteligente, obstinado e absolutamente convencido de que conseguiria resolver qualquer problema sozinho.
Só que agora havia medo nos olhos dele.
— Vamos para outro lugar — disse.
— Não. Primeiro quero saber por que minha ex recebe dinheiro da empresa.
Priscila respondeu antes dele.
— Porque eu tenho uma consultoria.
Olhei para ela.
— Desde quando?
— Quatro anos.
— Consultoria de quê?
— Auditoria de contratos e análise de risco.
Aquilo não combinava com a imagem que eu guardara dela, mas quinze anos eram tempo suficiente para alguém construir outra vida.
— Maurício me procurou nove meses atrás — continuou. — Disse que suspeitava de irregularidades em contratos de fornecedores. Pediu uma análise independente.
— Por que escondido de mim?
Ela olhou para Maurício.
— Porque a pessoa que ele suspeitava tinha acesso direto aos relatórios que chegavam até você.
Franzi a testa.
— Quem?
Maurício interrompeu:
— Ainda não sabemos.
— Você acabou de dizer que suspeitava de alguém.
— Suspeitar não é provar.
Priscila abriu a bolsa e retirou um pequeno pendrive preto.
— Eu tenho provas suficientes agora.
Maurício empalideceu.
— Você trouxe isso aqui?
— Eu sabia que você tentaria vender antes de contar a verdade.
— Você não entende o risco.
— Então me explica! — minha voz saiu mais alta do que eu pretendia.
Um casal que passava pelo corredor olhou para nós. Esperei que se afastassem.
Priscila colocou o pendrive na minha mão.
— Os pagamentos que você viu eram honorários e despesas da investigação. Maurício não queria que aparecessem nos relatórios normais porque alguém vinha alterando os dados do sistema.
Olhei para meu sócio.
— Por que não me contou?
Ele demorou.
— Porque comecei a investigação para proteger você.
— De quem?
— No começo, eu achava que era fraude de fornecedor. Depois descobrimos empresas de fachada, notas duplicadas e contratos aprovados usando credenciais internas.
— Quanto?
Priscila respondeu:
— Pelo menos quatro milhões e oitocentos mil.
Meu estômago afundou.
— E os seis milhões do empréstimo?
Maurício fechou os olhos.
— Eu ia cobrir o rombo.
Demorei a entender.
— Você ia pegar dinheiro emprestado escondido para devolver dinheiro que alguém roubou?
— Até descobrir quem fez isso.
— E depois vender a empresa?
— A proposta de compra resolveria a dívida antes que os compradores auditassem profundamente as contas.
A lógica era tão desesperada quanto perigosa.
— Você queria vender nossa empresa para esconder um crime?
— Eu queria impedir que centenas de funcionários acordassem sem emprego enquanto descobríamos a verdade!
— Falsificando minha assinatura?
Ele não respondeu.
Olhei para Priscila.
— O que tem no pendrive?
— Contratos, registros de acesso, cópias de transferências e mensagens internas.
— De quem?
Ela hesitou.
Maurício avançou.
— Não aqui.
Priscila ignorou.
— Daniel, alguém usa suas credenciais administrativas há quase dois anos.
— Isso é impossível. Tenho autenticação em dois fatores.
— Eu sei.
— Então precisaria do meu celular.
— Ou de alguém que tivesse acesso ao seu computador e ao dispositivo de autenticação reserva.
Meu corpo ficou frio.
O dispositivo reserva ficava trancado numa gaveta do meu escritório.
Apenas três pessoas sabiam disso.
Eu.
Maurício.
E Helena, minha assistente executiva havia sete anos.
— Você está dizendo que foi Helena?
— Não — respondeu Priscila. — Estou dizendo que alguém quer que pareça que foi ela.
Maurício passou a mão pelo rosto.
— Agora você entende por que eu não queria falar disso aqui.
O celular dele vibrou.
Ele olhou a tela e ficou imóvel.
— O que foi?
Maurício não respondeu.
Peguei o aparelho da mão dele antes que pudesse impedir.
Era uma notificação automática do sistema de segurança da empresa.
ACESSO ADMINISTRATIVO REMOTO — 23h17.
Abaixo aparecia o nome do usuário.
DANIEL AZEVEDO.
Olhei para o relógio.
Eu estava a quase quarenta quilômetros do escritório.
— Isso está acontecendo agora?
Priscila pegou o telefone e abriu os detalhes.
Seu rosto mudou.
— Daniel... alguém entrou no servidor usando suas credenciais há dois minutos.
— Para fazer o quê?
Ela deslizou a tela.
Então parou.
— Estão apagando arquivos.
Maurício já estava pegando as chaves do carro.
— Precisamos chegar ao escritório.
Meu próprio celular vibrou antes que conseguíssemos sair.
Outra mensagem do número desconhecido.
Desta vez não havia extrato.
Era uma fotografia tirada poucos minutos antes.
Mostrava meu escritório completamente escuro, exceto pela luz do monitor sobre minha mesa.
Alguém estava sentado na minha cadeira.
O rosto não aparecia.
Mas sobre a mesa havia um objeto que reconheci imediatamente: o relógio antigo de meu pai, que eu mantinha guardado dentro da gaveta trancada junto ao dispositivo de autenticação reserva.
Abaixo da fotografia havia apenas uma frase:
“Se você for até a empresa agora, vai descobrir quem roubou o dinheiro. Mas também vai descobrir por que seu pai realmente deixou aquele carro para você.”







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