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Minha Ex Riu Do Meu Carro Velho No Reencontro Da Escola — Até Meu Sócio Chegar E Revelar Quem Eu Realmente Era

Li o contrato duas vezes dentro do estacionamento, apoiando as folhas sobre o porta-malas do carro. A data era de vinte e nove anos antes. Meu pai, Antônio Azevedo, aparecia como proprietário da Azevedo Autopeças. Augusto Ferraz surgia como investidor silencioso, com direito a quarenta por cento dos lucros de uma linha de distribuição que eu nunca ouvira mencionar. Havia assinaturas, reconhecimento em cartório e até uma cláusula dizendo que determinadas obrigações permaneceriam válidas mesmo se a empresa encerrasse as atividades.

— Isso pode explicar por que mantiveram o CNPJ ativo — disse Priscila.

— “Mantiveram” quem?

Ela não respondeu.

Maurício pegou uma das folhas.

— Olha a cláusula dezessete.

Li.

Em caso de transferência, sucessão ou criação de empreendimento derivado utilizando ativos, tecnologia, carteira comercial ou propriedade intelectual desenvolvida durante a parceria, os direitos econômicos seriam preservados.

Meu coração acelerou.

— Nossa empresa não tem nada a ver com a loja do meu pai.

Maurício não parecia convencido.

— Tem certeza?

— Eu fundei a empresa. Acho que saberia.

— Daniel, de onde veio o primeiro sistema de controle de estoque?

A pergunta me irritou.

— Eu desenvolvi.

— A primeira versão?

Parei.

A primeira versão não fora exatamente minha.

Quando criança, eu passava tardes na loja do meu pai. Ele controlava estoque e pedidos num programa simples criado por um funcionário que trabalhara lá durante anos. Quando fundei a empresa com Maurício, usei algumas ideias daquele sistema como referência para construir nosso primeiro produto.

— Não era o mesmo software.

— Mas talvez Augusto queira provar que era derivado — Priscila disse.

— Depois de quase trinta anos?

Ela apontou para o contrato.

— Se essa cláusula for válida, ele pode alegar direitos sobre parte do que vocês construíram.

Olhei para o prédio acima de nós.

A oferta de compra subitamente parecia outra coisa.

Talvez Augusto não estivesse interessado apenas em adquirir nossa empresa.

Talvez estivesse tentando comprar um problema antes que alguém descobrisse que ele fazia parte dele.

Peguei o pendrive antigo encontrado na caixa.

— Precisamos ver o que tem aqui.

Subimos novamente.

No escritório, Priscila insistiu que não conectássemos o dispositivo a nenhum computador da empresa. Maurício encontrou um notebook antigo sem acesso à rede guardado numa sala de equipamentos. Colocamos o pendrive nele.

Havia sete pastas.

As seis primeiras continham contratos antigos, cópias de notas fiscais, extratos e correspondências entre meu pai e Augusto. A última tinha apenas uma letra.

“D”.

Abri.

Dentro havia três arquivos de áudio.

O primeiro fora gravado seis anos antes, onze dias antes da morte do meu pai.

A voz dele encheu a sala.

— Se você está ouvindo isso, provavelmente eu não consegui resolver sozinho.

Senti a garganta fechar.

Durante alguns segundos ninguém se moveu.

— Daniel não sabe de nada — continuou meu pai. — E eu quero que continue assim até eu ter certeza. Augusto voltou a procurar a empresa. Disse que quer corrigir uma injustiça antiga, mas não acredito nele.

Olhei para Maurício.

Ele estava tão surpreso quanto eu.

Meu pai prosseguiu:

— Descobri movimentações usando meu antigo CNPJ e documentos em nome do Daniel. Alguém está preparando alguma coisa. Não sei o quê.

O áudio terminou.

Abri o segundo.

Havia ruído de trânsito antes da voz de meu pai aparecer.

— Encontrei Augusto hoje. Ele diz que não está por trás das movimentações. Pela primeira vez, acho que talvez esteja dizendo a verdade. Se for assim, significa que existe outra pessoa usando o acordo antigo.

Priscila inclinou-se para a tela.

— Outra pessoa?

O áudio continuou.

— O problema é que essa pessoa conhece detalhes que só três pessoas conheciam.

Meu pai respirou profundamente.

— Eu, Augusto e...

O arquivo cortou.

— Não — murmurei.

Tentei abrir novamente.

O mesmo resultado.

A gravação terminava exatamente ali.

— O arquivo pode estar corrompido — disse Priscila.

— E o terceiro?

Cliquei.

Dessa vez meu pai parecia nervoso.

— Daniel, se esta gravação chegar até você, não tente resolver isso sozinho. E não entregue o carro a ninguém. O que está escondido nele é apenas uma cópia. Os originais estão em outro lugar.

Fez uma pausa.

— Existe uma coisa que eu nunca contei sobre a Azevedo Autopeças. Augusto não colocou dinheiro na empresa porque acreditava no negócio. Ele estava pagando uma dívida.

Meu peito apertou.

— Uma dívida comigo. E essa dívida começou na noite em que você nasceu.

A gravação terminou.

Fiquei olhando para a tela.

— O que meu nascimento tem a ver com isso?

Ninguém tinha resposta.

Maurício caminhou até a janela.

— Daniel, acho que precisamos falar com Augusto antes de qualquer outra coisa.

— Você queria vender a empresa para ele ontem.

— Porque eu acreditava que ele estava comprando para impedir uma auditoria. Agora já não sei.

Priscila começou a copiar os arquivos para outro dispositivo.

— Não podemos procurá-lo sem entender quem está apagando os registros. Se essa pessoa souber que encontramos isso, pode destruir o resto.

Meu telefone tocou.

Helena.

Minha assistente.

Nós três nos entreolhamos.

Atendi no viva-voz.

— Daniel?

A voz dela tremia.

— Helena, onde você está?

— Em casa. Por quê?

— Alguém entrou no escritório usando minhas credenciais.

Silêncio.

— Isso é impossível.

— Meu dispositivo reserva desapareceu.

Outro silêncio.

Dessa vez maior.

— Helena?

— Daniel... preciso te contar uma coisa.

Olhei para Priscila.

— Estou ouvindo.

— Ontem, antes de sair, encontrei sua gaveta aberta.

Meu corpo ficou rígido.

— Por que não me avisou?

— Porque achei que você tivesse esquecido de fechar. Mas tinha um envelope lá dentro. Eu nunca tinha visto.

— Que envelope?

— Estava escrito “Antônio Azevedo”.

Maurício se virou imediatamente.

— Você abriu?

— Não. Quando voltei do almoço, tinha desaparecido.

— Quem entrou na minha sala?

— Eu não sei. Mas existe uma câmera no corredor.

Priscila já estava indo até o computador.

— Os arquivos de segurança foram apagados — disse Maurício.

Helena ouviu.

— Não todos.

— Como assim?

— Há dois meses tivemos problema com o servidor principal. Eu pedi para César instalar um backup local temporário das câmeras. Acho que ninguém lembrou de desligar.

Descemos até a sala de segurança.

César encontrou o equipamento atrás de um armário. As gravações ainda estavam lá.

Localizamos o horário indicado por Helena.

Minha sala aparecia no final do corredor.

Às 13h42, Helena saiu para almoçar.

Às 13h49, alguém entrou.

Quando a pessoa apareceu na imagem, Maurício soltou um palavrão.

Eu não consegui dizer nada.

Era Augusto Ferraz.

Ele ficou dentro da minha sala durante onze minutos e saiu segurando um envelope.

— Então ele esteve aqui ontem — Priscila disse.

Maurício apontou para a tela.

— Continua.

Avançamos.

Às 14h03, Augusto entrou no elevador.

Quatro minutos depois, outra pessoa apareceu no corredor.

Ela usava boné e óculos, mas caminhava diretamente para minha sala, como alguém que conhecia perfeitamente o prédio.

Entrou.

Saiu seis minutos depois.

Na mão estava meu dispositivo de autenticação.

César pausou a imagem quando a pessoa virou o rosto para a câmera.

Priscila se aproximou.

— Você conhece?

Eu não conhecia.

Maurício, porém, ficou branco.

— Não pode ser.

— Quem é? — perguntei.

Ele demorou tanto que precisei repetir.

— Maurício, quem é esse homem?

Meu sócio sentou devagar.

— O nome dele é Ricardo Vasconcelos.

— E quem diabos é Ricardo Vasconcelos?

Maurício olhou para mim.

— Foi o primeiro funcionário da Azevedo Autopeças. O homem que criou aquele sistema de estoque que você usou como inspiração.

Senti um arrepio.

— Como você sabe disso?

Ele baixou os olhos.

— Porque foi ele quem me apresentou ao seu pai.

O silêncio caiu sobre a sala.

— Quando?

Maurício respirou fundo.

— Dois anos antes de eu conhecer você.

Foi então que entendi que o maior segredo de Maurício talvez não tivesse começado nove meses antes, nem quando apareceram os primeiros desvios.

Meu melhor amigo tinha mentido sobre a origem da nossa amizade desde o primeiro dia.

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