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Minha Ex Riu Do Meu Carro Velho No Reencontro Da Escola — Até Meu Sócio Chegar E Revelar Quem Eu Realmente Era

Por alguns segundos, ninguém falou. Eu ouvia apenas o ruído baixo dos equipamentos da sala de segurança e minha própria respiração. Maurício estava sentado diante dos monitores, os olhos fixos na imagem congelada de Ricardo Vasconcelos. Doze anos de sociedade passaram pela minha cabeça de uma vez: nossa primeira sala, as noites dormindo sobre caixas de papelão, o primeiro contrato grande, os meses em que quase quebramos. Eu sempre acreditara que nosso encontro tinha sido acaso.

— Começa do início — falei.

Maurício levantou os olhos.

— Daniel...

— Do início verdadeiro.

Ele respirou fundo.

— Eu conheci Ricardo quando trabalhava numa distribuidora. Tinha vinte e seis anos. Ele fazia consultorias de logística e falava muito sobre um sistema que havia criado anos antes. Dizia que tinha sido roubado.

— Pelo meu pai?

— No começo, foi isso que ele me contou.

Minha mandíbula endureceu.

— E você acreditou?

— Eu não conhecia Antônio. Ricardo tinha documentos, códigos antigos, contratos. Parecia convincente.

— Então por que procurou meu pai?

Maurício demorou.

— Ricardo pediu.

Priscila cruzou os braços.

— Para quê?

— Ele queria que eu descobrisse se Antônio ainda tinha os arquivos originais do sistema.

A resposta me atingiu lentamente.

— Você se aproximou do meu pai para espioná-lo?

— Foi assim que começou.

Levantei da cadeira.

— E depois se aproximou de mim.

— Não daquele jeito.

— Você me conheceu seis meses depois.

— Porque seu pai me pediu!

Aquilo me fez parar.

Maurício também se levantou.

— Quando conversei com Antônio, percebi que Ricardo tinha mentido. Seu pai não roubou sistema nenhum. Ricardo havia criado parte do software enquanto trabalhava na loja, mas recebeu por isso. Depois tentou registrar tudo sozinho. Antônio descobriu e rompeu com ele.

— E Augusto?

— Entrou para evitar que a empresa quebrasse durante a disputa.

Priscila apontou para o monitor.

— Então Ricardo tinha motivo para odiar os dois.

— Tinha. Mas desapareceu pouco depois.

Olhei novamente para a imagem.

— Não desapareceu o suficiente.

Maurício assentiu.

— Seu pai ficou preocupado quando soube que eu tinha sido enviado por ele. Em vez de me expulsar, pediu que eu ficasse perto.

— Perto de quem?

Maurício me encarou.

— De você.

Senti algo afundar dentro do peito.

— Nossa amizade foi uma missão?

— No começo, sim.

A sinceridade doeu mais do que qualquer desculpa.

— E nossa empresa?

— Foi nossa.

— Tem certeza?

— Absoluta. A ideia, o trabalho, tudo o que construímos depois foi real.

— Mas você já sabia quem eu era antes de apertar minha mão pela primeira vez.

Ele não conseguiu negar.

Afastei-me.

Priscila quebrou o silêncio.

— Ricardo roubou o dispositivo ontem, mas a invasão aconteceu hoje. Precisamos descobrir de onde.

César verificou os registros. O acesso remoto tinha passado por uma conexão mascarada, mas havia um detalhe: antes da exclusão dos arquivos, alguém pesquisara especificamente documentos relacionados à Azevedo Autopeças, Augusto Ferraz e uma pasta chamada “Projeto D-87”.

Meu ano de nascimento novamente.

— Abra essa pasta — pedi.

— Foi apagada — respondeu César.

Priscila conectou o pendrive do meu pai ao notebook isolado.

— Talvez exista referência aqui.

Pesquisamos “D-87”.

Um resultado.

Era uma planilha protegida por senha.

Tentei meu aniversário. Nada. O aniversário do meu pai. Nada. A placa antiga do carro. Nada.

Então lembrei das palavras dele na gravação: “essa dívida começou na noite em que você nasceu”.

Digitei 1987.

A planilha abriu.

Havia apenas cinco linhas.

Na primeira, uma data: o dia do meu nascimento.

Na segunda, o nome do hospital.

Na terceira: “A.F. — pagamento inicial”.

Na quarta: “R.V. — acordo recusado”.

Na quinta havia uma frase:

“Os direitos pertencem a Daniel quando ele completar 21 anos.”

— Direitos sobre o quê? — perguntei.

Maurício parecia tão perdido quanto eu.

Priscila começou a examinar os outros arquivos.

— Aqui.

Ela abriu uma cópia digitalizada de um documento incompleto. O cabeçalho dizia “CESSÃO DE DIREITOS DE PROPRIEDADE INTELECTUAL”. Parte estava ilegível, mas três nomes apareciam claramente: Antônio Azevedo, Augusto Ferraz e Ricardo Vasconcelos.

Mais abaixo, havia o meu.

Daniel Azevedo.

Beneficiário.

Eu tinha poucos meses quando o documento fora registrado.

— Isso não faz sentido.

Priscila aproximou a imagem.

— Faz se aquilo que sua empresa vende hoje tiver origem em algo desenvolvido por eles naquela época.

Nossa empresa não era mais uma simples desenvolvedora de sistemas de estoque. Ao longo dos anos, transformamos aquela base em uma plataforma logística usada por centenas de empresas. Nosso algoritmo de previsão de demanda era justamente o ativo que tornava a proposta de Augusto tão alta.

Maurício entendeu ao mesmo tempo.

— Ricardo não está roubando dinheiro por dinheiro.

— Ele está tentando criar uma trilha documental — Priscila completou. — Contratos falsos, movimentações antigas, credenciais do Daniel... Se conseguir provar que a propriedade intelectual pertence a outra empresa ou que Daniel a obteve irregularmente...

— Pode destruir nosso valor antes da venda — concluí.

— Ou reivindicar parte dele.

Meu telefone tocou.

Número desconhecido.

Atendi.

— Daniel Azevedo?

A voz masculina era calma.

— Quem fala?

— Augusto Ferraz.

Olhei para os outros.

— Estávamos justamente falando sobre você.

— Imagino. Você encontrou a caixa.

Não perguntei como sabia.

— Você entrou no meu escritório ontem.

— Entrei.

— Roubou um envelope.

— Recuperei algo que nunca deveria ter saído das minhas mãos.

— Quero respostas.

— E eu quero continuar vivo tempo suficiente para dar essas respostas.

A frase mudou o ambiente.

— Onde você está?

— Não posso dizer pelo telefone.

— Então por que ligou?

Houve alguns segundos de silêncio.

— Porque Ricardo sabe que você encontrou os documentos. E quando ele perceber que Maurício finalmente contou como conheceu você, vai entender que perdeu a vantagem.

Olhei para meu sócio.

— O que havia no envelope?

Augusto respirou.

— A única cópia autenticada do acordo de 1987. O documento que prova quem realmente criou a tecnologia e por que seu pai colocou os direitos no seu nome.

— Por quê?

— Essa é a parte que Antônio nunca teve coragem de contar.

Meu coração acelerou.

— Conte você.

— Não pelo telefone. Vá amanhã às nove ao antigo galpão da Azevedo Autopeças. Sozinho.

— Não vou sozinho a lugar nenhum.

— Então talvez nunca saiba por que seu pai passou a vida inteira protegendo você de Ricardo.

A ligação caiu.

Antes que eu pudesse reagir, César chamou nossa atenção.

— Senhor Daniel, tem mais uma coisa.

Ele havia voltado às gravações das câmeras.

— Ricardo entrou ontem, certo? Mas eu procurei quando ele esteve aqui antes.

Na tela apareceu outra data.

Oito meses atrás.

A mesma época em que começaram os pagamentos para Priscila.

Ricardo entrou no prédio às 22h11 usando um crachá válido.

— De quem era o crachá? — perguntei.

César abriu o registro.

O nome apareceu.

Maurício ficou imóvel.

Priscila levou a mão à boca.

O crachá pertencia a Helena.

— Ela disse que estava em casa — falei.

César avançou a gravação.

Às 22h14, Ricardo entrou no elevador.

Três minutos depois, outra pessoa passou pela catraca usando autorização administrativa.

Dessa vez não havia boné, óculos nem tentativa de esconder o rosto.

Era Helena.

Ela caminhou até o elevador e entrou ao lado de Ricardo.

Mas o que realmente me fez perder o ar aconteceu antes das portas fecharem.

Ricardo colocou a mão no ombro dela.

Helena virou-se para ele e disse alguma coisa que a câmera não podia registrar.

Então o abraçou.

Priscila ampliou a imagem.

— Daniel... eles não parecem duas pessoas que acabaram de se conhecer.

Maurício continuou olhando para a tela.

— Porque não acabaram.

Virei-me para ele.

— O que você sabe agora?

— Ricardo tinha uma filha.

Meu estômago se contraiu antes mesmo de ele terminar.

— Quando conheci Ricardo, ela era adolescente. Depois perdi contato com os dois.

Olhei para Helena na tela. Sete anos trabalhando ao meu lado. Sete anos conhecendo meus horários, minhas senhas, minhas viagens, meus contratos e praticamente cada decisão importante da empresa.

— Qual era o nome da filha dele?

Maurício respondeu quase num sussurro.

— Helena Vasconcelos.

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