Por alguns segundos, só consegui olhar para Augusto. O homem diante de mim não parecia o presidente de um grupo bilionário. Parecia alguém que passara quase quatro décadas esperando aquele momento.
— Você matou Eduardo?
Augusto não desviou os olhos.
— Eu estava dirigindo o carro que bateu no dele. Isso é verdade.
— Não foi o que perguntei.
— Não saí de casa naquela noite querendo matar ninguém.
Do telefone ainda aberto, ouvi Ricardo rir.
— Escuta como ele escolhe as palavras, Daniel.
Augusto aproximou-se.
— Desliga.
— Não.
— Ricardo quer que você reaja antes de conhecer tudo.
— E você teve trinta e nove anos para me contar.
Aquilo o fez parar.
— Fale sobre o acidente.
Augusto apoiou as mãos na bancada.
— Eduardo me procurou naquela noite. Tinha documentos provando que Ricardo desviava dinheiro e registrava partes do sistema em empresas próprias. Queria entregar tudo a Antônio, mas tinha medo de que o irmão descobrisse.
— Então por que entrou no seu carro?
— Porque pedi que não fosse diretamente à loja. Ricardo estava seguindo Eduardo havia dias. Combinei encontrá-lo numa estrada fora da cidade.
Ricardo interrompeu pelo telefone:
— Mentira.
— Você terá sua vez — respondi.
Silêncio.
Augusto continuou.
— Eduardo chegou primeiro. Quando me aproximei, outro carro apareceu atrás dele. Eduardo arrancou. Eu fui atrás.
— Quem estava no outro carro?
— Nunca consegui provar.
— Ricardo?
Augusto olhou para o telefone.
— Eu acreditava que sim.
— Conveniente — Ricardo disse.
— O que aconteceu depois?
Augusto respirou fundo.
— Chovia. Eduardo perdeu o controle numa curva. Eu estava perto demais. Meu carro atingiu a traseira do dele.
Fechei os olhos por um instante.
— Ele morreu na hora?
— Não.
A resposta mudou tudo.
— Quanto tempo viveu?
— Quase vinte minutos.
— Você falou com ele?
Augusto assentiu.
— Falei.
— E o que ele disse?
Augusto parecia lutar contra alguma coisa dentro de si.
— Pediu que eu protegesse você.
Meu peito apertou.
— Eu ainda nem tinha nascido.
— Exatamente.
Ele retirou a carteira e tirou de dentro um pedaço de papel plastificado, dobrado e gasto.
— Eduardo me entregou isso naquela noite.
Era uma cópia pequena de uma carta.
No alto estava escrito: “Para meu filho, Daniel.”
Não consegui tocar imediatamente.
Ricardo ouviu.
— Ele está mostrando a carta?
— Sim.
— Então pergunte por que ficou com ela.
Augusto respondeu antes de mim.
— Porque fui covarde.
Peguei a folha.
Eduardo escrevera que sabia que talvez não pudesse acompanhar meu crescimento. Não havia explicação detalhada, apenas algumas linhas dizendo que Antônio era “o melhor homem para ser seu pai” e que eu nunca deveria carregar os erros dos Vasconcelos.
No final, uma frase estava sublinhada:
“Se Ricardo descobrir sobre Daniel, ele vai tentar transformar meu filho na continuação da guerra que eu não consegui terminar.”
Olhei para o telefone.
Ricardo permaneceu em silêncio.
— Seu próprio irmão escreveu isso.
Quando respondeu, a voz estava diferente.
— Augusto pode fabricar uma cópia.
— Então mostre o original.
— Eu tenho algo melhor.
A ligação terminou.
Tentei retornar. Nada.
Augusto ficou tenso.
— Volte para a empresa. Não vá até Ricardo.
— Helena está com ele.
— Então chame a polícia.
— E diga o quê? Que o pai dela está na casa dele?
— Daniel, você ainda não entendeu. Ricardo não quer dinheiro. Ele quer reconhecimento. Quer que alguém declare oficialmente que a tecnologia era dele.
— E por que desviar quase cinco milhões?
— Para fabricar contratos retroativos, pagar intermediários, comprar empresas antigas e construir uma cadeia documental falsa. Se ele provar que sua empresa cresceu sobre propriedade intelectual roubada, pode exigir participação, indenização e até bloquear a venda.
Finalmente tudo parecia convergir para o mesmo ponto.
— E Maurício tentou cobrir o rombo para evitar que isso viesse à tona.
— Sim.
— Você sabia?
Augusto demorou.
— Descobri há três meses.
Minha raiva voltou.
— E ainda fez a oferta.
— Porque precisava tirar a empresa do alcance de Ricardo antes que ele concluísse a última etapa.
— Qual?
Augusto me encarou.
— Fazer você reconhecer a dívida.
Meu telefone vibrou.
Uma mensagem de Helena.
“Daniel, venha sozinho. Ele não vai me machucar. Preciso que você veja isso.”
Abaixo havia uma fotografia.
Ricardo estava sentado diante de uma mesa. Sobre ela, dezenas de documentos e um gravador.
Mas um objeto chamou minha atenção.
Um relatório policial.
No topo estava a data da morte de Eduardo.
Saí.
Maurício e Priscila esperavam no carro. Contei apenas o necessário durante o caminho. Quando chegamos à rua de Ricardo, pedi que ficassem a distância e ligassem para a polícia se eu não saísse em quinze minutos.
Entrei sozinho.
Helena abriu a porta.
— Ele está na sala.
— Você está bem?
— Estou.
— Você sabia sobre Eduardo?
Ela balançou a cabeça.
— Descobri hoje que ele era seu pai.
Ricardo estava sentado à mesa.
Sem boné ou óculos, parecia mais velho do que nas câmeras. Havia algo familiar em seus olhos, talvez porque agora eu soubesse que eram olhos de alguém da minha família.
— Sente-se, Daniel.
Continuei de pé.
— Você roubou meu dispositivo.
— Sim.
— Falsificou documentos?
— Alguns.
— Desviou dinheiro?
— Movimentei dinheiro que deveria ter sido meu desde o início.
— Era dinheiro dos meus funcionários, dos meus sócios e da empresa. Não seu.
Ele apertou os lábios.
— Você fala como Antônio.
Estranhamente, aquilo me deu orgulho.
— Ótimo.
Ricardo pareceu incomodado.
— Antônio roubou minha vida.
— Seu irmão não parecia concordar.
Coloquei a cópia da carta sobre a mesa.
Ele empalideceu.
— Augusto guardou isso?
— Eduardo escreveu que queria me manter longe de você.
Ricardo não tocou na folha.
— Eduardo estava com medo.
— De você.
— De todos nós!
Bateu a mão na mesa, mas imediatamente recuperou o controle.
— Quer a verdade? Veja.
Empurrou o relatório policial para mim.
O documento descrevia o acidente. O veículo de Augusto atingira o de Eduardo, como ele confessara.
Mas havia uma anotação manuscrita anexada:
“Possível terceiro veículo observado deixando o local.”
— Augusto disse que outro carro seguia Eduardo.
— Disse.
— E convenientemente ninguém encontrou.
Ricardo colocou uma fita no gravador.
— Antônio encontrou.
A gravação começou.
A voz do meu pai surgiu mais jovem.
“Eu vi o carro naquela noite.”
Depois, outra voz.
Ricardo.
“Então diga à polícia.”
“Não posso.”
“Por quê?”
Longo silêncio.
Então Antônio respondeu:
“Porque quem estava dirigindo é alguém que Eduardo estava tentando proteger.”
Ricardo pausou.
— Durante trinta e nove anos, achei que ele estivesse protegendo Augusto.
— E agora?
Ricardo abriu uma pasta.
— Agora sei que estava errado.
Retirou uma fotografia tirada por uma câmera de posto de combustível naquela noite. Mostrava três veículos.
Reconheci o carro de Augusto.
Reconheci, pelo relatório, o de Eduardo.
O terceiro tinha uma placa parcialmente visível.
Ricardo colocou ao lado uma cópia do registro do veículo.
Meu coração começou a bater mais rápido.
O carro pertencia a Marta Azevedo.
Minha mãe.
— Isso não prova que ela dirigia.
— Concordo.
Ricardo puxou outro documento.
— Por isso procurei isto.
Era uma declaração assinada por Antônio poucos dias depois do acidente, nunca anexada oficialmente ao processo.
Li devagar.
“Eu, Antônio Azevedo, confirmo que Marta esteve na estrada naquela noite. Eduardo havia pedido que ela o encontrasse porque pretendia fugir da cidade com ela antes do nascimento da criança.”
Levantei os olhos.
— Fugir?
Helena ficou imóvel.
Ricardo falou baixo:
— Eduardo não estava apenas levando provas para Antônio naquela noite. Ele estava indo buscar sua mãe.
Minha cabeça começou a girar.
— Então por que Antônio escondeu isso?
Ricardo apontou para o restante da declaração.
Continuei lendo.
Antônio escrevera que Marta chegara depois da colisão e tentara ajudar Eduardo. Que Augusto também permanecera no local. Que o terceiro carro visto por testemunhas não era o dela.
Parei.
— Então essa fotografia não mostra o terceiro carro.
— Exatamente.
Ricardo abriu a última pasta.
— Seu pai passou seis anos antes de morrer procurando o veículo verdadeiro.
Dentro havia fotografias, recibos antigos e registros de oficinas.
No topo estava uma imagem ampliada de uma câmera rodoviária. Um quarto carro aparecia ao fundo.
A placa estava quase ilegível, exceto pelos três últimos números.
Ricardo colocou ao lado um registro de propriedade.
Senti o ar desaparecer dos meus pulmões.
O veículo não pertencia a Augusto.
Nem à minha mãe.
Pertencia ao pai de Maurício.
Olhei para Helena.
— Maurício disse que conheceu você por causa do meu pai — Ricardo falou. — Mas essa ainda não é a mentira inteira.
Meu celular vibrou naquele instante.
Era Priscila.
Atendi imediatamente.
— Daniel, não saia da casa.
— Por quê?
Sua respiração estava acelerada.
— Maurício desapareceu.
Fui até a janela.
O carro onde eu o deixara estava vazio. Apenas Priscila permanecia ao lado dele, olhando desesperadamente para a rua.
— Ele recebeu uma mensagem e saiu sem me explicar. Daniel, antes de ir, deixou o telefone no banco.
— E?
— Eu vi a mensagem.
— O que dizia?
Ela hesitou.
— “Ele encontrou o registro do carro. Faça o que seu pai não conseguiu terminar em 1987.”
Olhei para Ricardo.
Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ouvimos um motor acelerar do lado de fora.
Helena correu até a janela.
Um carro parou diante da casa.
A porta se abriu.
Maurício saiu sozinho.
E pela primeira vez desde que toda aquela história começara, não reconheci absolutamente nada no rosto do homem que eu chamava de melhor amigo.







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