Segurei a fita nas mãos sem saber o que fazer com ela. Durante trinta e nove anos, o nome Antônio Azevedo significara pai em todos os sentidos possíveis. Era ele quem me ensinara a dirigir naquele carro velho, quem aparecera na escola quando eu quebrara o braço, quem me emprestara os vinte mil reais quando todos diziam que minha empresa fracassaria. Uma gravação não apagava nada disso. Ainda assim, havia uma pergunta que agora ocupava todo o espaço dentro de mim.
— Onde está Augusto?
Maurício olhou o relógio.
— Ele marcou amanhã às nove.
— Não vou esperar.
Peguei o telefone e liguei para o número que Augusto usara. Chamou duas vezes.
— Daniel.
— Quero encontrar você agora.
Silêncio.
— Você ouviu a fita.
— Quem é meu pai biológico?
— Não pelo telefone.
— Pare de decidir o que eu posso saber.
Minha voz saiu mais dura do que eu pretendia.
— Passei a noite descobrindo que meu sócio se aproximou de mim por ordem do meu pai, que minha assistente é filha do homem que está sabotando minha empresa e que existe uma gravação dizendo que Antônio não era meu pai biológico. Você vai me dizer onde está.
Augusto respirou fundo.
— Antigo galpão. Trinta minutos.
A ligação terminou.
Helena tentou ir conosco, mas pedi que ficasse. Pela primeira vez, ela não discutiu. Priscila também quis acompanhar.
— Augusto pediu para eu ir sozinho.
— E você vai confiar nele?
Olhei para Maurício.
— Não. Por isso vocês ficam do lado de fora.
Chegamos ao antigo galpão da Azevedo Autopeças pouco depois das duas da manhã. Eu não entrava ali havia mais de vinte anos. O letreiro desaparecera, as paredes estavam manchadas e as antigas portas metálicas enferrujadas.
Augusto estava esperando.
Era mais velho do que nas fotografias, obviamente, mas reconheci imediatamente o homem elegante que aparecia nas reuniões de aquisição. Naquela noite, porém, parecia cansado. Não havia motorista, assessor ou segurança.
Colocou um envelope sobre uma bancada.
— Aqui está o acordo original.
— Não vim por causa da empresa.
Ele assentiu.
— Eu sei.
— Quem é meu pai biológico?
Augusto ficou em silêncio.
— Antes disso, você precisa entender o que aconteceu.
— Não preciso de outra história incompleta.
— Precisa, porque Ricardo passou trinta e nove anos acreditando numa versão diferente.
O nome me fez gelar.
— Ricardo?
Augusto percebeu imediatamente o que eu estava pensando.
— Não. Ricardo não é seu pai.
Respirei novamente.
Ele puxou uma cadeira, mas permaneci de pé.
— Seu pai... Antônio... tinha uma irmã mais nova. Elisa.
Eu conhecia o nome. Minha tia morrera antes que eu pudesse conhecê-la.
— Elisa trabalhava na loja com ele. Era brilhante com números e programação numa época em que quase ninguém naquela pequena empresa entendia computadores. Ricardo foi contratado depois. Os dois desenvolveram juntos a primeira versão do sistema.
— E se envolveram?
— Sim.
Augusto abaixou os olhos.
— Elisa engravidou.
Meu peito apertou.
— De mim?
— Não.
A resposta me confundiu ainda mais.
— Então o que isso tem a ver comigo?
— Ela perdeu a criança.
Augusto continuou:
— Depois disso, o relacionamento acabou. Ricardo se tornou obsessivo com o sistema. Dizia que era a única coisa que ainda pertencia aos dois. Quando descobriu que Antônio pretendia registrar parte da tecnologia no nome da empresa, ameaçou processá-lo.
— E você entrou onde?
— Eu era advogado de uma distribuidora que trabalhava com eles. Ajudei Antônio a organizar o acordo.
— Por que devia alguma coisa a ele?
Augusto demorou.
— Porque cometi um erro.
Pegou o envelope e retirou uma folha amarelada.
— Meses depois, sua mãe apareceu.
Meu coração acelerou.
— Minha mãe?
— Marta estava grávida de você. Antônio sabia que não era o pai biológico, mas decidiu assumir a criança.
— Quem era?
Augusto me encarou.
— Eu não sabia na época.
— E depois?
— Descobri na noite em que você nasceu.
Ele abriu outra pasta.
Dentro havia um exame antigo de tipagem sanguínea e uma declaração assinada.
— Antônio me chamou ao hospital porque Marta tinha sofrido uma complicação. Ela estava sedada. Havia documentos médicos e uma carta.
— De quem?
Augusto colocou a carta sobre a bancada.
— Do seu pai biológico.
Meu corpo inteiro ficou tenso.
— Nome.
Augusto não respondeu imediatamente.
— Nome!
— Eduardo Vasconcelos.
O sobrenome me atingiu primeiro.
— Vasconcelos?
— Irmão mais velho de Ricardo.
Precisei apoiar a mão na bancada.
— Então Helena...
— É sua prima.
Fechei os olhos.
De repente, o abraço entre Helena e Ricardo, a obsessão dele comigo e a frase na fita começaram a assumir outro significado.
— Eduardo sabia de mim?
— Sabia. Mas morreu três semanas antes do seu nascimento.
— Como?
Augusto olhou para o chão.
— Acidente de carro.
— E Ricardo culpou meu pai.
— Sim.
— Por quê?
— Porque Eduardo tinha descoberto que Ricardo estava desviando dinheiro da Azevedo Autopeças. Pretendia entregar provas a Antônio naquela noite.
O silêncio dentro do galpão tornou-se pesado.
— Está dizendo que Ricardo acha que Antônio provocou o acidente?
— Ricardo precisava acreditar em alguém. Depois da morte do irmão, começou a dizer que Antônio tinha roubado o sistema, destruído Elisa e causado a morte de Eduardo.
— E minha mãe?
— Pediu que Antônio criasse você longe daquela guerra.
Passei a mão pelo rosto.
— Por que os direitos foram colocados no meu nome?
— Porque Eduardo era proprietário de parte do código original.
Augusto apontou para o acordo.
— Antes de morrer, ele transferiu seus direitos para você. Antônio apenas formalizou isso quando você nasceu.
Finalmente compreendi por que Ricardo tinha passado tantos anos atrás daqueles documentos.
Não era apenas dinheiro.
Parte da tecnologia que ele acreditava ser sua havia sido legalmente transferida pelo próprio irmão para mim.
— E o que você fez de errado?
Augusto ficou imóvel.
— Eu escondi a carta de Eduardo.
— Por quê?
— Porque ela continha uma acusação que poderia mandar Ricardo para a prisão.
— Então você o protegeu?
— Na época não havia provas suficientes. E Elisa estava destruída. Antônio me convenceu de que expor tudo só acabaria com o resto da família.
Minha raiva voltou.
— Vocês decidiram esconder tudo. Outra vez.
— Sim.
— E funcionou muito bem.
Augusto aceitou a ironia.
— Até Ricardo reaparecer.
Peguei o acordo.
— Por que quer comprar minha empresa?
— Para protegê-la.
— Isso é mentira.
— Não completamente.
Ele respirou fundo.
— Quando percebi que Ricardo estava manipulando contratos e reconstruindo uma falsa cadeia de propriedade intelectual, fiz a oferta. Se a empresa passasse para meu grupo antes que ele concluísse a fraude, eu teria recursos jurídicos para enfrentar o processo.
— Sem me contar nada.
— Antônio me fez prometer que nunca revelaria sua origem.
— Meu pai está morto.
— Algumas promessas continuam pesando depois que as pessoas morrem.
— E outras viram desculpas.
Augusto baixou os olhos.
Meu telefone vibrou.
Era Helena.
Atendi.
— Daniel, você precisa voltar.
— O que aconteceu?
— Encontrei meu pai.
Todos os músculos do meu corpo se contraíram.
— Onde?
— Ele veio até aqui.
— Ricardo está na casa?
— Sim.
Ouvi uma voz masculina ao fundo.
Depois Helena falou:
— Ele quer conversar com você.
— Coloca no telefone.
Houve ruído.
Então ouvi Ricardo pela primeira vez.
— Daniel.
A voz era surpreendentemente calma.
— Você passou a noite inteira ouvindo mentiras sobre mim.
Olhei para Augusto.
— Então me conte sua versão.
Ricardo riu sem humor.
— Não quero contar. Quero mostrar.
— Mostrar o quê?
— A gravação que seu pai tentou destruir antes de morrer.
Augusto empalideceu.
— Não vá — murmurou.
Ricardo ouviu.
— Augusto está com você, não está?
— Está.
Silêncio.
— Perfeito. Pergunte a ele onde estava na noite em que Eduardo morreu.
Olhei para Augusto.
Ele não respondeu.
— Onde você estava?
Augusto permaneceu imóvel.
Ricardo continuou pelo telefone:
— Pergunte por que o relatório original do acidente desapareceu. Pergunte quem era o dono do carro que atingiu meu irmão.
A mão de Augusto começou a tremer.
— Chega, Ricardo.
— Diga você, então.
Augusto fechou os olhos.
— Daniel...
— De quem era o carro?
Ele demorou vários segundos.
— Meu.
O galpão pareceu encolher ao redor de mim.
Ricardo soltou uma risada amarga do outro lado da linha.
— Agora pergunte quem estava dirigindo.
Augusto abriu os olhos.
Havia culpa neles.
Uma culpa antiga demais para ser fingida.
— Eu estava.
Meu sangue gelou.
Ricardo falou uma última vez:
— Seu pai biológico não morreu num acidente qualquer, Daniel. E o homem que acabou de admitir que dirigia o outro carro está oferecendo centenas de milhões pela sua empresa exatamente no momento em que as provas daquela noite reapareceram.







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