Marcelo foi o primeiro a se mover. Deu dois passos rápidos em direção à porta, mas Sérgio segurou seu braço antes que ele entrasse.
— Nem pense nisso.
— Pai, me solta.
— Quem está lá dentro?
Marcelo tentou se desvencilhar, e aquela reação respondeu antes de qualquer palavra. Neide levou a mão ao peito, olhando para o corredor escuro atrás dela como se a própria casa tivesse se tornado desconhecida. Eu permaneci parada por alguns segundos. Minha cabeça ainda tentava absorver a dívida, os documentos, as fotografias escondidas. Agora havia alguém dentro da minha casa e meu marido sabia exatamente quem era.
— Marcelo — falei. — Quem está lá?
— Amanda, não entra agora.
Foi a pior coisa que ele poderia ter dito.
Passei por Neide e empurrei a porta. Marcelo chamou meu nome, mas continuei. A sala parecia normal à primeira vista. Minha bolsa de academia continuava sobre a poltrona, os porta-retratos estavam no mesmo lugar, até a xícara que eu deixara pela manhã ainda estava na pia. Mas sobre a mesa havia duas coisas que não pertenciam ali: uma pasta preta e uma chave de carro.
— Tem alguém aqui? — gritei.
Nenhuma resposta.
Então ouvi passos no corredor.
Uma mulher apareceu.
Devia ter pouco mais de quarenta anos, cabelo preso, roupa social e uma pasta fina debaixo do braço. Não parecia assustada. Parecia constrangida.
— Senhora Amanda?
Meu coração disparou.
— Quem é você?
Ela olhou para Marcelo, que acabara de entrar atrás de mim.
— Marcelo, você disse que ela não estaria presente.
Neide soltou um som baixo.
Eu me virei para meu marido.
— Quem é ela?
— Meu nome é Patrícia — disse a mulher. — Sou corretora.
Olhei novamente para a pasta em suas mãos.
Tudo começou a se encaixar.
— Você veio avaliar a casa.
Patrícia hesitou.
— Eu vim acompanhar uma vistoria particular.
— Para venda?
— Amanda, chega — Marcelo interrompeu.
Virei-me tão rápido que ele recuou.
— Você trocou minha fechadura, mentiu para sua mãe, tentou convencer seu pai a mentir e colocou uma corretora dentro da minha casa. Não me diga que chega.
Patrícia percebeu que havia entrado numa situação muito diferente daquela que lhe fora apresentada.
— Talvez eu deva ir embora.
— Antes disso, quero saber por que você está aqui.
Ela olhou para Marcelo novamente.
— Eu não sabia que existia qualquer conflito entre vocês. Ele me informou que era proprietário do imóvel e que a esposa concordava com a negociação.
— Negociação com quem?
Patrícia demorou a responder.
— Com um comprador.
O silêncio voltou.
— Já existe comprador? — perguntei.
— Existe uma proposta.
Marcelo fechou os olhos.
Sérgio entrou na sala naquele momento.
— Quanto?
Patrícia respirou fundo.
— Setecentos e vinte mil.
Olhei para a folha que ainda segurava.
A avaliação dizia setecentos e oitenta.
— Sessenta mil abaixo da avaliação?
Ela imediatamente explicou:
— A condição era fechamento rápido.
— Quão rápido?
— Amanhã.
Neide se apoiou na parede.
— Meu Deus, Marcelo.
Eu já nem sentia raiva. Era algo mais frio.
— Você pretendia vender minha casa amanhã.
— Eu pretendia conseguir dinheiro suficiente para resolver tudo antes que piorasse.
— Sem minha assinatura?
Ele ficou quieto.
Patrícia franziu a testa.
— Como assim?
Abri a pasta transparente e mostrei a matrícula.
— O imóvel está exclusivamente no meu nome.
O rosto dela mudou.
— Marcelo me apresentou outra documentação.
Sérgio olhou imediatamente para o filho.
— Que documentação?
Patrícia abriu a pasta preta sobre a mesa e retirou algumas folhas.
Quando colocou a primeira diante de mim, senti um arrepio.
Era uma procuração.
Meu nome estava no topo.
Amanda Ribeiro de Almeida.
Meu CPF.
Meu endereço.
E no final da página havia uma assinatura.
A minha assinatura.
Ou pelo menos uma tentativa quase perfeita de reproduzi-la.
Neide começou a chorar.
— Marcelo, o que você fez?
Ele passou as mãos pelos cabelos.
— Eu não falsifiquei nada.
— Essa assinatura não é minha.
Patrícia empalideceu.
— Eu recebi esse documento digitalizado.
— De quem?
— Do Marcelo.
Todos olharam para ele.
— Eu recebi de outra pessoa! — ele disse. — Eu não fiz isso.
— Então quem fez?
— Eu não posso falar.
A resposta provocou em mim uma sensação pior do que a descoberta da falsificação.
— Não pode ou não quer?
Marcelo ficou em silêncio.
Peguei meu celular e comecei a fotografar todos os documentos.
Ele avançou.
— Amanda, não faz isso.
— Por quê? Está com medo de quê?
— Você não entende.
— Então me faz entender.
Ele baixou a voz.
— Se essa venda não acontecer, não é só dinheiro que eu vou perder.
Sérgio aproximou-se.
— Quem está cobrando você?
Marcelo olhou para o pai.
— Não é o que vocês estão pensando.
— Então o que é?
Ele não respondeu.
Patrícia começou a recolher suas coisas.
— Eu vou suspender imediatamente qualquer procedimento relacionado ao imóvel. Também preciso comunicar minha imobiliária sobre essa procuração.
Marcelo ficou desesperado.
— Patrícia, espera.
— Não. Você me disse que sua esposa tinha autorizado tudo.
— Me dá até amanhã.
— Depois do que acabei de ouvir? Não.
Ela pegou a chave do carro e saiu.
Marcelo ficou olhando para a porta como se tivesse acabado de assistir à última oportunidade escapar.
Eu me virei para Neide.
— Quero a chave da fechadura nova.
Ela procurou no bolso e colocou o molho na minha mão sem discutir.
— Amanda... eu não sabia.
Eu acreditava nela. Isso não apagava o que tinha feito, mas naquele momento havia algo muito maior diante de nós.
— Depois a gente conversa.
Marcelo caminhou até a janela.
— Vocês estragaram tudo.
Sérgio perdeu a paciência.
— Você quase vendeu a casa da sua esposa usando documento falso e nós estragamos tudo?
— Eu estava tentando consertar!
— Consertar o quê?
Marcelo virou-se.
— Uma coisa que começou muito antes dessa dívida.
A frase me fez parar.
— O que significa isso?
Ele percebeu que tinha falado demais.
Sérgio também percebeu.
— Marcelo...
Meu marido olhou para o pai.
E vi alguma coisa passar entre os dois.
Reconhecimento.
— Você sabe — falei para Sérgio.
Meu sogro não respondeu imediatamente.
— Sei apenas uma parte.
— Que parte?
Antes que pudesse responder, o celular de Marcelo vibrou sobre a mesa.
Marcelo olhou para a tela e correu para pegá-lo.
Eu fui mais rápida.
Havia uma mensagem de um número sem nome.
“Você tinha até 19h para deixar a casa vazia.”
Olhei para o relógio da sala.
18h47.
Outra mensagem apareceu diante de nós.
“Não entregue os documentos à Amanda. Principalmente o que está dentro do escritório.”
Meu corpo inteiro gelou.
Marcelo arrancou o telefone da minha mão.
Eu já estava olhando para o corredor.
Nossa casa tinha três quartos. Um deles havia sido transformado em escritório e permanecia quase sempre trancado porque Marcelo dizia guardar documentos antigos da empresa.
Durante seis anos, nunca tive motivo para desconfiar daquela porta.
Naquele momento, porém, Sérgio segurou meu braço antes que eu avançasse.
— Amanda, espera.
Olhei para ele.
Meu sogro estava pálido.
— Se existe alguma coisa naquele escritório — disse ele, quase num sussurro — talvez seja melhor você saber primeiro por que seu nome aparece numa dívida que começou três anos antes de você conhecer o Marcelo.







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