Por alguns segundos, esqueci completamente a porta do escritório. Fiquei olhando para Sérgio, tentando entender se ele tinha realmente dito aquilo.
— Três anos antes de eu conhecer o Marcelo?
Meu sogro soltou meu braço devagar. Marcelo permanecia junto à mesa, segurando o celular com tanta força que os dedos estavam brancos.
— Pai, não.
— Ela já está envolvida até o pescoço — respondeu Sérgio. — Você perdeu o direito de decidir o que ela pode saber.
Neide enxugou o rosto.
— Eu também quero saber.
Sérgio olhou para a esposa, e alguma coisa na expressão dele me deixou ainda mais inquieta.
— Em 2013, Marcelo abriu uma empresa com um amigo. Uma pequena distribuidora. Durou menos de dois anos.
Eu sabia da empresa. Marcelo sempre dizia que havia sido um fracasso comum: clientes que não pagaram, impostos atrasados, sócio irresponsável. Nunca entrara em detalhes.
— O nome dele era Ricardo — continuou Sérgio. — Ricardo Farias.
Marcelo bateu a mão na mesa.
— Chega!
— Por quê? — perguntei. — Porque finalmente chegamos à parte que você escondeu?
Ele me encarou.
— Porque meu pai não sabe o que aconteceu depois.
Sérgio ignorou.
— Quando a empresa fechou, ficaram dívidas. Eu ajudei Marcelo a pagar algumas. Achei que tudo tivesse terminado.
— E não terminou?
— Há cerca de três meses, apareceu uma cobrança ligada àquela empresa.
Meu coração apertou.
— E onde eu entro nisso?
Sérgio respirou fundo.
— Foi isso que descobri hoje.
Ele tirou do bolso uma folha dobrada.
— Marcelo apareceu na oficina pedindo dinheiro. Disse que precisava quitar uma dívida urgente. Quando recusei, deixou cair alguns documentos. Eu vi seu nome.
Peguei a folha.
Era uma cópia de um contrato antigo.
No cabeçalho aparecia o nome da distribuidora. Mais abaixo, havia uma seção identificando um avalista.
Amanda Ribeiro.
Meu CPF estava correto.
Mas a data era 14 de agosto de 2014.
Eu conhecera Marcelo somente em novembro de 2017.
— Isso é impossível.
Minha voz mal saiu.
Neide aproximou-se.
— Amanda...
— Eu nem conhecia vocês nessa época.
Marcelo abaixou a cabeça.
— Eu sei.
— Então por que meu nome está aqui?
— Porque esse documento não existia em 2014.
A resposta veio de Sérgio.
Olhei para ele.
— O quê?
— Alguém recriou o contrato recentemente e colocou uma data antiga.
Senti um frio atravessar meu corpo.
— Para quê?
— Para transformar você em responsável por uma dívida que nunca foi sua.
Olhei para Marcelo.
— Foi você?
— Não.
— A assinatura da procuração também não foi você?
— Não!
— Mas você usou os dois documentos!
Ele ficou em silêncio.
Aquilo bastava.
Fui até o corredor.
Marcelo correu atrás.
— Amanda, não abre aquele escritório.
— Sai da frente.
— Você não sabe o que tem lá.
— Exatamente.
Ele bloqueou a porta.
Sérgio apareceu atrás de nós.
— Marcelo.
— Pai, não se mete.
— Sai da frente dela.
— Vocês acham que estou tentando roubar a Amanda? — Marcelo perguntou, a voz falhando. — Eu estava tentando impedir que uma coisa pior acontecesse.
— Vendendo minha casa?
— Se eu pagasse, eles destruíam os documentos.
Parei.
— Eles?
Marcelo percebeu novamente que havia revelado mais do que pretendia.
— Quem são “eles”?
Ele passou a mão pelo rosto.
— Ricardo voltou há quatro meses.
Sérgio ficou rígido.
— Você disse que não falava com ele havia anos.
— Eu menti.
Neide soltou um suspiro dolorido.
Marcelo encostou-se à parede.
— Ele apareceu dizendo que tinha documentos da antiga empresa. Contratos, movimentações, empréstimos. Algumas coisas realmente têm minha assinatura. Outras não. Disse que, se eu não pagasse, colocaria tudo na Justiça.
— E meu nome?
— Surgiu depois.
— Como?
— Eu não sei.
Ri sem humor.
— Você espera que eu acredite nisso?
— Quando vi seu nome no contrato, entrei em pânico. Ricardo disse que podia fazer aquilo desaparecer se eu pagasse cento e oitenta mil.
— Então você resolveu pagar usando minha casa.
— Eu achei que conseguiria devolver.
— Como alguém devolve uma casa vendida, Marcelo?
Ele não teve resposta.
Apontei para a porta.
— Abre.
— Amanda...
— Agora.
Marcelo tirou uma chave do bolso.
Quando abriu, senti imediatamente um cheiro de papel velho e café. O escritório estava muito mais desorganizado do que eu imaginava. Caixas ocupavam o chão. Havia pastas empilhadas sobre a mesa e um notebook aberto.
Mas uma coisa chamou minha atenção.
Na parede havia várias folhas presas com fita.
Extratos.
Cópias de contratos.
Fotografias.
E uma linha do tempo escrita à mão.
Aproximei-me.
Meu nome aparecia diversas vezes.
Anos em que eu sequer sabia que Marcelo existia.
— Meu Deus.
Neide parou na porta.
Sérgio entrou atrás de mim.
Marcelo permaneceu no corredor.
Comecei a abrir as caixas. Havia documentos da antiga empresa, correspondências bancárias e cópias de identidades.
Então encontrei uma pasta vermelha.
Dentro havia fotografias minhas.
Não eram fotos de família.
Eram fotografias tiradas à distância.
Eu saindo do trabalho.
Entrando no supermercado.
Estacionando o carro.
Uma delas mostrava minha mãe diante da casa dela.
Virei-me para Marcelo.
— Há quanto tempo você tem isso?
— Duas semanas.
— E não me contou?
— Eu queria descobrir quem estava fazendo.
— Ricardo?
— Achei que fosse.
— E agora?
Marcelo apontou para o notebook.
— Agora eu não tenho certeza.
Na tela havia um e-mail aberto. O remetente usava um endereço desconhecido. A mensagem tinha apenas uma frase:
“Ricardo não criou os documentos. Pergunte ao seu pai quem tinha acesso aos arquivos originais em 2014.”
Todos olharam para Sérgio.
Meu sogro ficou imóvel.
Neide franziu a testa.
— Sérgio?
Ele não respondeu.
Eu me aproximei.
— Quem tinha acesso?
Sérgio passou a mão pela boca, visivelmente abalado.
— Eu, Marcelo, Ricardo e a contadora da empresa.
— Quem era a contadora?
Ele demorou tanto para responder que Neide percebeu antes de mim.
— Sérgio... por que você está com essa cara?
Meu sogro fechou os olhos por um instante.
— Porque ela não era apenas a contadora.
Marcelo olhou para ele, confuso.
— O que você está dizendo?
Sérgio abriu os olhos.
— O nome dela era Helena Ribeiro.
Meu coração falhou uma batida.
Ribeiro era meu sobrenome de solteira.
— E daí?
Sérgio me encarou.
— Porque, Amanda, eu conheci Helena muitos anos antes daquela empresa existir.
Ele fez uma pausa.
— E ela era irmã do seu pai.







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