Eu não esperei minha mãe terminar de dizer que era loucura. Peguei a carta do meu pai, o extrato e enfiei tudo na bolsa. Quando voltei à janela, o carro preto já começava a se mover.
— Helena! — minha mãe gritou.
Desci as escadas quase correndo. Neide veio atrás de mim. Quando chegamos à rua, o carro já dobrava a esquina.
— Você não vai sozinha a esse depósito — disse Neide.
Mostrei a mensagem.
— Foi exatamente isso que pediram.
— E desde quando você faz o que alguém que falsifica documentos manda?
A pergunta me fez parar.
Horas antes, eu teria esperado ouvir aquilo de qualquer pessoa, menos da mulher que trocara a fechadura da minha casa. Liguei para Sérgio.
— O endereço do Projeto Araucária. Você lembra onde fica?
Silêncio.
— Amanda, não vá.
— Marcelo está lá.
— Não sabemos disso.
— A foto mostra ele com a pasta.
— Uma fotografia não prova quando nem onde foi tirada.
Ele tinha razão. Ampliei a imagem. Marcelo estava sentado diante de uma parede de tijolos. Atrás dele havia uma janela pequena. Nada identificava o lugar.
Minha mãe chegou até nós.
— Eu sei onde fica o depósito.
Quinze minutos depois, estávamos no carro dela. Ignorei a exigência de ir sozinha. Também enviei o endereço para Sérgio e pedi que chamasse a polícia se não recebesse notícias minhas em dez minutos.
O antigo depósito ficava numa rua industrial quase deserta. Quando chegamos, eram 19h34. O portão estava entreaberto.
O carro preto estava lá dentro.
— Fiquem no carro — falei.
Neide abriu a porta ao mesmo tempo que eu.
— Nem tente.
Entramos juntas.
O galpão cheirava a umidade e madeira velha. Algumas prateleiras enferrujadas permaneciam encostadas nas paredes. No fundo havia uma luz acesa.
— Marcelo?
Minha voz ecoou.
— Amanda?
Era ele.
Corri até o pequeno escritório no fundo. Marcelo estava sozinho, sentado numa cadeira. Não estava amarrado nem parecia ferido. A pasta vermelha estava sobre uma mesa.
Minha raiva voltou imediatamente.
— Você veio por vontade própria.
Ele se levantou.
— Eu precisava trazer a pasta.
— Para quem?
Uma voz respondeu atrás de nós.
— Para mim.
Virei-me.
A mulher do carro entrou pela porta lateral.
Helena.
Ela devia estar perto dos sessenta, mas reconheci facilmente os traços das fotografias antigas.
Minha mãe parou na entrada.
— Você teve coragem de voltar.
Helena olhou para ela.
— Marta.
Nenhuma das duas se aproximou.
— Você mandou aquelas mensagens? — perguntei.
— Algumas.
— Algumas?
— A mensagem sobre o escritório fui eu. A fotografia do Marcelo também.
— E as ameaças?
Helena olhou para Marcelo.
— Não foram minhas.
Ele assentiu.
— Foi por isso que eu vim. Ela me ligou depois que você saiu de casa.
— E levou a pasta sem dizer nada.
— Eu achei que, se meu pai soubesse...
Helena interrompeu:
— Sérgio não pode controlar o que acontece aqui.
— Por quê? — perguntei. — Porque ele roubou os trezentos e vinte mil?
Ela soltou uma risada curta e amarga.
— Ainda estão contando essa história?
Minha mãe avançou.
— Paulo morreu acreditando que você tinha roubado dele.
O rosto de Helena mudou.
— Não. Paulo morreu sabendo exatamente quem tinha roubado.
Tirei a carta da bolsa.
— Ele escreveu que você estava com medo.
Helena reconheceu o envelope.
Por alguns segundos, perdeu completamente a postura.
— Você tem a carta.
— Tenho.
— Então também tem o extrato?
— Tenho.
Ela fechou os olhos.
— Finalmente.
— Finalmente o quê?
Helena puxou uma caixa plástica debaixo da mesa. Dentro havia dezenas de pastas.
— Durante vinte anos, eu guardei cópias de tudo que consegui encontrar. Seu pai e eu brigamos porque ele achou que eu tinha falsificado uma procuração. Quando descobriu que não fui eu, já era tarde.
— Quem foi?
Ela abriu uma pasta.
— O dinheiro não desapareceu de uma vez. Foi dividido entre empresas que existiam apenas no papel.
Colocou três contratos diante de mim.
Em todos aparecia o mesmo intermediário.
Ricardo Farias.
— Ricardo tinha quantos anos em 1998? — perguntei.
— Vinte e três.
Marcelo empalideceu.
— Então ele conhecia meu pai antes de abrir a empresa comigo.
— Conhecia sua família inteira.
Helena colocou outro documento sobre a mesa.
Era uma ficha cadastral antiga.
No campo “responsável pela indicação” havia um nome.
Sérgio Almeida.
Marcelo leu duas vezes.
— Meu pai apresentou Ricardo a vocês?
— Sim.
— Por quê?
— Porque Ricardo trabalhava para o homem que colocou os trezentos e vinte mil no projeto.
— Quem era esse homem?
Helena ficou em silêncio.
— Você disse que guardou tudo — insisti.
— Quase tudo.
Ela retirou um livro-caixa antigo.
— Seu pai descobriu que o investidor nunca existiu como pessoa física. O dinheiro vinha de várias empresas. O Projeto Araucária era usado para movimentar recursos e depois criar dívidas contra os próprios sócios.
— E agora estão fazendo a mesma coisa comigo.
— Exatamente.
Olhei para Marcelo.
— Por que minha casa?
Helena apontou para o extrato que eu trouxera.
— Porque parte do dinheiro usado na compra dela veio da única quantia que Paulo conseguiu retirar do esquema antes de sair.
Minha mãe ficou pálida.
— Os cento e quarenta mil.
Helena assentiu.
— Quem está por trás disso acredita que aquela quantia cresceu, foi reinvestida ou está escondida no patrimônio da Amanda. A casa virou o alvo mais fácil.
— Então os documentos falsos não servem apenas para cobrar cento e oitenta mil.
— Não. Servem para criar uma justificativa jurídica para alcançar seu patrimônio.
Meu estômago virou.
— E Ricardo?
— É intermediário. Sempre foi.
— Para quem?
Helena olhou para a porta.
— Para alguém que vocês ainda estão tratando como vítima.
Antes que eu pudesse perguntar, ouvimos um carro entrando no galpão.
Faróis atravessaram as janelas.
Marcelo foi até a porta.
— É meu pai.
Sérgio entrou segundos depois.
— Amanda!
Ele parou quando viu Helena.
Os dois ficaram frente a frente pela primeira vez em décadas.
— Você — Sérgio murmurou.
Helena não demonstrou surpresa.
— Demorou.
— O que você está fazendo aqui?
— Terminando o que Paulo começou.
Sérgio avançou.
— Não acredita nela, Amanda. Essa mulher destruiu nossa sociedade.
Helena pegou o livro-caixa.
— Então explica a página quarenta e sete.
Sérgio congelou.
Abri na página indicada.
Havia uma transferência de R$ 180 mil feita em 2006 para uma empresa chamada SA Participações.
Abaixo, uma autorização manuscrita.
S. Almeida.
Olhei para meu sogro.
— Você recebeu esse dinheiro?
— Não.
Helena virou outra página.
— Não foi para ele.
Ela apontou para o cadastro da empresa.
O responsável legal era alguém chamado Roberto Almeida.
— Quem é Roberto? — perguntei.
Ninguém respondeu.
Marcelo olhou para o pai.
— Pai?
Sérgio sentou-se devagar.
— Meu irmão.
— Você nunca falou que tinha um irmão.
— Porque ele morreu.
Helena balançou a cabeça.
— Foi isso que ele disse a todos.
Meu celular vibrou.
Número desconhecido.
Atendi no viva-voz.
Uma voz masculina falou calmamente:
— Amanda, você está fazendo perguntas sobre dinheiro que nunca pertenceu à sua família.
Helena perdeu a cor.
— Desliga.
Mas a voz continuou:
— E antes de acreditar em Helena, pergunte por que ela desapareceu justamente na semana em que seu pai morreu.
Olhei para ela.
Helena não respondeu.
Então o homem completou:
— E diga ao Sérgio que o irmão morto dele manda lembranças.
A ligação caiu.
Sérgio continuou sentado, olhando para o telefone.
Dessa vez, não havia dúvida em seu rosto.
Havia reconhecimento.
— Era ele — murmurou.
— Roberto? — perguntei.
Sérgio assentiu.
Helena fechou lentamente o livro-caixa.
— Então temos um problema muito maior.
— Qual?
Ela olhou para mim.
— Porque, se Roberto voltou, os cento e oitenta mil nunca foram o objetivo.
Helena apontou para a carta do meu pai.
— Ele está procurando o documento que Paulo escondeu antes de morrer.
Minha mãe levou a mão à boca.
Eu me virei para ela.
— Que documento?
Ela recuou um passo.
E naquele instante percebi que minha mãe sabia exatamente do que Helena estava falando.







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