O nome de Helena ficou suspenso no escritório como se tivesse aberto uma porta muito mais antiga do que aquela que Marcelo tentara manter fechada. Eu conhecia aquele nome, claro. Helena Ribeiro era a irmã mais nova do meu pai. Minha tia. Mas, na minha infância, ela existira apenas em duas fotografias guardadas numa caixa da minha mãe e em respostas curtas sempre que eu perguntava por que nunca a víamos.
— Minha tia Helena? — perguntei.
Sérgio assentiu.
— A mesma.
Olhei para Marcelo. Pela expressão dele, aquela informação também era nova.
— Você sabia disso?
— Não. Juro que não.
— E você? — perguntei a Sérgio. — Sabia que ela era minha tia desde quando?
Ele desviou os olhos.
— Desde que Marcelo trouxe você para jantar conosco pela primeira vez.
A lembrança daquela noite voltou inteira. Eu tinha vinte e seis anos. Marcelo estava nervoso, Neide preparara comida suficiente para dez pessoas e Sérgio ficara estranhamente calado quando ouviu meu sobrenome completo. Na época, achei que fosse apenas o jeito reservado dele.
— Você me reconheceu pelo sobrenome.
— Pelo sobrenome e pelo nome do seu pai.
— E ficou calado durante oito anos?
Neide se aproximou do marido.
— Você conhecia a família da Amanda e nunca me contou?
Sérgio respirou fundo.
— Porque eu achei que aquilo tinha acabado.
— Todo mundo nesta família acha que esconder alguma coisa faz ela acabar? — perguntei.
Ele recebeu a frase sem reagir.
— Helena trabalhou comigo antes de trabalhar para a empresa de Marcelo e Ricardo. Eu tinha uma pequena transportadora. Ela fazia minha contabilidade.
— E por que meu pai nunca falou de você?
— Porque ele e Helena já estavam brigados naquela época.
Aquilo eu sabia parcialmente. Meu pai morrera quando eu tinha dezenove anos, mas jamais explicara o rompimento com a irmã. Minha mãe dizia apenas que envolvia dinheiro e que era melhor deixar o passado quieto.
— Que tipo de briga?
Sérgio olhou para as fotografias espalhadas sobre a mesa.
— Uma herança.
Meu estômago se contraiu.
— De quem?
— Dos seus avós.
A palavra me fez lembrar imediatamente do terreno que minha mãe vendera para ajudar na entrada daquela casa.
— O terreno?
Sérgio levantou os olhos.
— Então você sabe.
— Sei que minha mãe vendeu um terreno que era dos meus avós.
— Não era apenas um terreno.
Aproximei-me.
— O que isso significa?
— Existiam duas propriedades. Um terreno pequeno e uma área maior na região metropolitana. Depois da morte dos seus avós, houve uma disputa. Seu pai acreditava que Helena tinha usado uma procuração para tentar transferir a parte dele.
Senti a garganta secar.
Procuração.
Documento falso.
Assinatura.
As mesmas palavras estavam reaparecendo vinte anos depois.
— Ela falsificou a assinatura dele?
— Seu pai dizia que sim. Helena dizia que não.
— E você acreditava em quem?
Sérgio demorou.
— Na época, nela.
Neide fechou os olhos.
— Sérgio...
Havia algo naquele tom que me fez olhar de um para o outro.
— Vocês tiveram um relacionamento?
Sérgio não respondeu.
Neide respondeu por ele.
— Tiveram.
Marcelo arregalou os olhos.
— Pai?
— Foi antes de eu conhecer sua mãe.
— Isso não é verdade — disse Neide.
Sérgio ficou rígido.
O silêncio que veio depois revelou que havia outra mentira ali.
Neide encarou o marido.
— Quando eu estava grávida do Marcelo, você ainda encontrava Helena.
Marcelo deu um passo para trás.
— Mãe, do que você está falando?
— Eu descobri anos depois. Escolhi continuar o casamento.
— Não transforme isso em outra coisa — Sérgio disse.
— Outra coisa? A mulher aparece ligada à empresa do nosso filho, documentos falsos aparecem e agora você quer decidir o que é importante?
Eu precisava interromper.
— Onde Helena está?
Sérgio olhou para mim.
— Eu não sei.
— Está viva?
— Até onde sei, sim.
Peguei meu celular e liguei para minha mãe.
Ela atendeu no terceiro toque.
— Oi, filha.
— Mãe, preciso perguntar uma coisa e quero que você me responda sem esconder nada.
Minha voz fez todos ficarem quietos.
— O que aconteceu?
— Onde está a tia Helena?
Do outro lado, silêncio.
— Por que você está perguntando isso?
— Porque encontrei documentos com meu nome, datados de antes de eu conhecer Marcelo, e Sérgio acabou de me contar que Helena trabalhava para ele.
Ouvi minha mãe inspirar bruscamente.
— Sérgio está aí?
— Está.
— Amanda, saia dessa casa.
Olhei ao redor.
— O quê?
— Pegue suas coisas e saia agora.
— Mãe, você está me assustando.
— Eu devia ter contado isso anos atrás.
— Contado o quê?
A voz dela baixou.
— O dinheiro que usei para ajudar você a comprar essa casa não veio da venda daquele terreno.
Senti os dedos apertarem o telefone.
— Você sempre disse que veio.
— Eu menti.
Marcelo levantou a cabeça. Sérgio parecia ter parado de respirar.
— Então de onde veio?
Minha mãe começou a chorar.
— De uma conta que seu pai deixou em seu nome.
— Que conta?
— Uma conta que ninguém deveria saber que existia.
— Quanto tinha?
— Na época, pouco mais de cento e quarenta mil.
Olhei para Marcelo. Ele parecia tão confuso quanto eu.
— E por que isso importa agora?
Minha mãe hesitou.
— Porque aquele dinheiro estava ligado à disputa entre seu pai e Helena. Depois que seu pai morreu, ela apareceu dizendo que metade pertencia a ela. Eu nunca contei onde estava.
Um ruído veio do corredor.
Todos se viraram.
A porta da frente continuava aberta.
Sobre o piso, havia um envelope branco que não estava ali antes.
Corri até a entrada, mas a rua parecia vazia.
Peguei o envelope.
Meu nome estava escrito à mão.
AMANDA.
Dentro havia apenas uma fotografia antiga e uma folha dobrada.
Na fotografia, Sérgio parecia ter pouco mais de trinta anos. Ao lado dele estava uma mulher que reconheci pelas fotos antigas da minha mãe.
Helena.
Mas havia uma terceira pessoa na imagem.
Meu pai.
Os três sorriam diante de uma placa com o nome de uma empresa que eu nunca tinha visto.
Virei a folha.
Era a cópia de um contrato societário de 1998.
Os três nomes apareciam juntos.
Sérgio Almeida.
Helena Ribeiro.
Paulo Ribeiro — meu pai.
Minha mãe ainda estava ao telefone quando li a frase escrita à mão no verso da fotografia:
“Pergunte a Sérgio o que aconteceu com os R$ 320 mil antes de Paulo morrer.”
Levantei os olhos.
Sérgio estava encarando a fotografia.
Mas não parecia surpreso por vê-la.
Parecia apavorado porque alguém ainda a possuía.







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