Marcelo ampliou a fotografia no meu celular até os pixels começarem a se desfazer. A caixa metálica estava realmente entre os escombros da antiga oficina, mas havia algo errado.
— Essa foto não foi tirada hoje — ele disse.
Sérgio se aproximou.
— Como sabe?
Marcelo apontou para o canto da imagem.
— Ali. A prensa hidráulica.
Sérgio ficou imóvel.
— Eu vendi essa máquina há quase dois anos.
Helena pegou o telefone da minha mão.
— Então Roberto já tinha encontrado a caixa antes da demolição.
Meu coração acelerou. Se a fotografia era antiga, a mensagem não servia para comemorar uma descoberta. Servia para nos fazer acreditar que ele acabara de conseguir alguma coisa.
— Ele está nos conduzindo — murmurei.
— Desde o começo — Helena respondeu.
Olhei para Marcelo.
— A dívida, a venda da casa, Ricardo...
— Tudo para nos fazer procurar — completou ele.
Marta sentou-se lentamente.
— Porque Roberto tinha a caixa, mas não sabia abrir o que estava dentro.
Sérgio confirmou com a cabeça.
— Paulo colocou um cadeado de combinação nela. Quatro números.
Todos olharam para a sequência escrita na carta.
11-4-19-7.
Senti o sangue gelar.
— Nós acabamos de entregar a combinação.
Helena já estava pegando o celular.
— Precisamos localizar Roberto.
Marcelo balançou a cabeça.
— Eu sei quem pode fazer isso.
— Ricardo? — perguntei.
— Ele é o único contato que eu tinha.
— Você ainda confia nele?
— Não. Mas talvez ele esteja tão preso nisso quanto eu.
Marcelo usou meu telefone para ligar. Ricardo atendeu depois de alguns segundos.
— Marcelo?
— Onde está Roberto?
Silêncio.
— Você enlouqueceu?
— Ele encontrou a caixa.
A respiração do outro lado mudou.
— Que caixa?
— Para de fingir. Ele conseguiu a combinação também.
Ricardo xingou baixo.
— Então vocês fizeram exatamente o que ele queria.
Helena tomou o telefone.
— Ricardo, aqui é Helena.
O silêncio durou tanto que pensei que ele tivesse desligado.
— Você está viva.
— Infelizmente para vocês.
— Eu nunca quis envolver Amanda.
— Mas envolveu.
— Eu fazia o que Roberto mandava.
— Inclusive falsificar os documentos?
— Não fui eu.
Marcelo olhou para mim.
— Então quem foi? — perguntei alto.
Ricardo ouviu.
— A procuração veio pronta. Roberto mandou apenas usar.
— E o contrato de 2014?
— Também.
— Onde ele está agora?
— Não sei.
Helena endureceu a voz.
— Ricardo.
— Eu realmente não sei! Mas ele tem um escritório na Rua Comendador Araújo. Quase ninguém conhece.
Sérgio anotou o endereço.
— Tem mais alguma coisa? — Helena perguntou.
Ricardo hesitou.
— Se ele abriu aquela caixa, não vai ficar em Curitiba.
A ligação caiu.
Dessa vez, ninguém sugeriu irmos sozinhos. Sérgio telefonou para um advogado que conhecia e explicou apenas o suficiente para que ele recomendasse registrar imediatamente tudo o que tínhamos. Patrícia também enviou cópias digitais da proposta de compra e da procuração falsa. Eu encaminhei as mensagens, as fotografias e os documentos para meu e-mail e para minha mãe.
Depois fomos até o endereço de Roberto.
O prédio era comercial, antigo, com poucas salas ocupadas naquele horário. A porta do escritório estava aberta.
Não havia ninguém.
Sobre uma mesa, encontramos papéis queimados dentro de uma pequena lixeira metálica. Helena mexeu cuidadosamente nas bordas que não tinham sido destruídas.
— Ele limpou tudo.
Marcelo abriu uma gaveta.
— Não tudo.
Dentro havia uma pasta com meu nome.
Senti um arrepio.
Havia cópias do meu RG, CPF, certidão de casamento, matrícula da casa e extratos que eu nunca entregara a Marcelo.
— Como ele conseguiu isso?
Marcelo pegou um dos extratos.
— Isso veio do banco.
— Então alguém forneceu meus dados.
Helena encontrou outra pasta.
— Aqui.
Na capa estava escrito “PAULO RIBEIRO”.
Dentro havia fotografias do meu pai, cópias da antiga sociedade e correspondências.
Mas o último documento era recente.
Uma pesquisa de inventário feita apenas quatro meses antes.
— Roberto estava procurando alguma coisa que seu pai deixou — disse Sérgio.
Abri outra gaveta.
Ali estava o guia azul.
O mesmo da fotografia.
Folheei até a página indicada pelos números da carta. Algumas palavras estavam circuladas a lápis. GARAGEM era apenas uma delas.
Havia outras três.
“SEGUNDA.”
“CÓPIA.”
“BANCO.”
Juntas, formavam uma mensagem:
SEGUNDA CÓPIA BANCO.
Minha mãe se levantou tão depressa que bateu na cadeira.
— O cofre.
— Que cofre?
— Seu pai tinha uma caixa de segurança bancária.
Helena olhou para ela.
— Você disse que tinha sido encerrada.
— Foi o que o banco me informou depois da morte dele.
Peguei o guia.
— Talvez existisse outra.
Encontramos dentro da pasta de Paulo um recibo antigo de aluguel de cofre. O banco ainda funcionava no centro de Curitiba.
Na manhã seguinte, fui até lá acompanhada de minha mãe e do advogado de Sérgio. Depois de quase duas horas verificando documentos antigos, uma funcionária voltou com uma expressão surpresa.
— Senhora Amanda, encontramos um registro vinculado ao espólio do seu pai.
Meu coração disparou.
— Ainda existe alguma coisa?
— Existe uma caixa que nunca foi encerrada porque há uma divergência cadastral.
— Que divergência?
— Consta Paulo Ribeiro como titular e Amanda Ribeiro como beneficiária.
Eu tinha apenas dezessete anos quando aquele registro fora feito.
Após conferências e assinaturas, fomos conduzidos a uma sala reservada.
A caixa era pequena.
Dentro havia um envelope lacrado, uma fita de vídeo antiga e um pen drive que claramente fora colocado ali anos depois.
— Quem teve acesso a isso depois da morte dele? — perguntei.
A funcionária verificou o registro.
— Apenas uma pessoa.
— Quem?
Ela virou a tela para nós.
Helena Ribeiro.
Minha mãe fechou os olhos.
Eu não disse nada.
Voltamos para casa levando tudo. Helena estava esperando.
Coloquei o registro do banco diante dela.
— Você entrou naquele cofre depois que meu pai morreu.
Ela não negou.
— Entrei.
— E colocou o pen drive?
— Sim.
— Por que nunca contou?
— Porque Paulo me pediu.
Minha raiva explodiu.
— Todo mundo diz que meu pai pediu alguma coisa! Meu pai está morto há dezesseis anos e todos vocês usam a palavra dele para justificar silêncio!
Helena recebeu aquilo sem se defender.
Depois apontou para o pen drive.
— Então veja por você mesma.
Marcelo trouxe o notebook.
O dispositivo continha apenas dois arquivos.
Um vídeo.
E um PDF chamado “DECLARAÇÃO FINAL”.
Abri primeiro o vídeo.
Meu pai apareceu na tela.
Mais jovem do que na última lembrança que eu tinha dele. Sentado diante de uma parede branca, olhava diretamente para a câmera.
Minha respiração parou.
— Se Amanda estiver assistindo a isso — começou ele — significa que Roberto voltou e eu não consegui impedir.
Minha mãe começou a chorar.
Paulo explicou que o Projeto Araucária fora usado para criar empresas, dívidas e transferências fraudulentas. Disse que Helena descobrira parte do esquema e o ajudara a reunir provas.
Então falou de Sérgio.
— Sérgio cometeu erros. Escondeu coisas. Mas não foi ele quem levou o dinheiro.
Meu sogro abaixou a cabeça.
— Roberto usou meu nome, o de Helena e depois o de Sérgio. Ricardo começou como funcionário dele e continuou fazendo o trabalho sujo.
O vídeo avançou.
— A caixa metálica contém documentos importantes, mas não contém a prova principal. Eu sabia que Roberto poderia encontrá-la.
Olhei para Helena.
Ela assentiu.
Meu pai continuou:
— A prova verdadeira está na declaração anexada a este vídeo. Ela identifica as empresas, as contas e quem recebeu os valores.
Abri o PDF.
Havia dezenas de páginas.
Transferências.
Assinaturas.
Nomes.
Na última página, encontrei uma informação que me fez esquecer de respirar.
O beneficiário final dos R$ 320 mil não era Roberto.
Também não era Sérgio.
Era uma mulher.
Neide Almeida.
Levantei os olhos lentamente.
Minha sogra estava parada perto da porta.
Pálida.
— Neide?
Marcelo olhou para a mãe como se não a reconhecesse.
— O que é isso?
Ela começou a balançar a cabeça.
— Eu posso explicar.
Sérgio deu um passo para trás.
— Seu nome está nas contas.
— Eu não sabia de onde vinha o dinheiro.
Helena fechou os olhos.
— Sabia o suficiente.
Marcelo aproximou-se da mãe.
— Você conhecia Roberto?
Neide começou a chorar.
— Antes do seu pai.
O silêncio tornou-se sufocante.
— Quanto antes? — Sérgio perguntou.
Neide olhou para ele.
Depois para Marcelo.
E percebi que a verdadeira pergunta não era mais sobre dinheiro.
— Roberto não era apenas alguém que eu conhecia — ela disse.
Marcelo ficou imóvel.
Neide tentou continuar, mas a voz falhou.
— Quando eu engravidei de você... eu ainda estava me encontrando com ele.
Ninguém se moveu.
Marcelo empalideceu.
— Mãe...
Neide fechou os olhos.
— Durante trinta e cinco anos, Sérgio acreditou que você era filho dele.
Foi então que o celular de Marcelo tocou.
Número desconhecido.
Ele atendeu sem dizer nada.
A voz de Roberto saiu clara o bastante para todos ouvirem.
— Agora que sua mãe finalmente contou, talvez você queira descobrir quem é seu pai de verdade.







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