Minha mãe não tentou negar. Ficou parada perto da porta do pequeno escritório, com os olhos presos à carta que eu segurava. Aquilo me assustou mais do que qualquer explicação.
— Mãe, que documento é esse?
Marta olhou primeiro para Helena, depois para Sérgio.
— Eu prometi ao seu pai que nunca falaria sobre isso enquanto você pudesse ficar fora dessa história.
— Acho que essa possibilidade acabou quando falsificaram minha assinatura e tentaram vender minha casa.
Ela fechou os olhos.
— Paulo deixou um documento chamado Termo de Reconhecimento de Titularidade.
Helena se aproximou imediatamente.
— Você ficou com ele?
— Não.
— Marta, não brinca comigo.
— Eu disse que não fiquei.
Sérgio levantou-se.
— O que havia nesse termo?
Minha mãe demorou a responder.
— Paulo descobriu que o terreno usado no Projeto Araucária nunca deveria ter sido transferido integralmente para a sociedade. Parte continuava pertencendo à família Ribeiro. Quando as empresas começaram a movimentar dinheiro sobre aquela área, ele percebeu que estavam usando um patrimônio que juridicamente não controlavam.
Helena completou:
— Se esse documento existe, várias transferências posteriores podem ser questionadas.
Marcelo franziu a testa.
— Estamos falando de um galpão abandonado.
— Não — respondeu Helena. — Estamos falando da área inteira onde este galpão foi construído.
Ela abriu outra pasta e retirou um mapa antigo. A propriedade original era muito maior do que eu imaginava.
— Quanto vale isso hoje? — perguntei.
Ninguém respondeu imediatamente.
Foi Sérgio quem falou:
— Muito.
— Quanto?
— Talvez milhões.
A palavra fez tudo mudar de tamanho.
A dívida de Marcelo, a tentativa desesperada de vender minha casa, os documentos falsos, as fotografias minhas e da minha mãe... aquilo nunca fora apenas sobre cento e oitenta mil reais.
— Roberto acredita que esse documento está comigo?
Marta assentiu.
— Ou acredita que você sabe onde está.
— Mas eu nem sabia que existia.
— Isso não importa para ele.
Helena fechou o mapa.
— Paulo percebeu que Roberto estava usando Ricardo para acompanhar movimentações e criar contratos. Por isso tentou retirar você de qualquer vínculo documental. Só que alguém encontrou seu CPF anos depois.
Olhei para Marcelo.
— E colocou meu nome numa dívida antiga.
— Para pressionar você — disse Helena. — Se aceitasse pagar, reconheceria indiretamente uma obrigação ligada ao Projeto Araucária. Se vendesse a casa usando a procuração, eles conseguiriam movimentar dinheiro e criar uma trilha documental dizendo que você estava quitando parte da dívida.
Marcelo levou as mãos à cabeça.
— Então eu estava fazendo exatamente o que eles queriam.
— Sim.
A culpa no rosto dele não me trouxe satisfação.
— Você podia ter me contado.
— Eu achei que estava protegendo você.
— Não. Você estava protegendo seus segredos.
Ele baixou os olhos.
Marta se aproximou de mim.
— Amanda, precisamos sair daqui.
— Primeiro você vai me dizer onde está o documento.
— Eu realmente não sei.
— Meu pai não contou?
— Ele deixou uma pista.
Todos ficaram atentos.
Minha mãe pegou a carta e virou a última página. No canto inferior havia uma sequência escrita a lápis: 11-4-19-7.
— Eu achei que fossem números aleatórios — disse ela. — Paulo fazia isso quando queria esconder alguma coisa. Transformava palavras em números.
Helena observou.
— Décima primeira, quarta, décima nona, sétima letras?
— K, D, S, G — disse Marcelo. — Não significa nada.
Eu me lembrei de algo.
Meu pai tinha uma mania quando eu era criança. Fazia pequenos jogos usando números como referência a páginas e linhas de livros.
— Não são letras.
Todos olharam para mim.
— São posições.
Peguei a carta.
— Ele usava livros. Primeiro número era página, depois parágrafo, depois linha, depois palavra.
Marta empalideceu.
— O livro azul.
— Que livro?
— Paulo tinha um livro de capa azul que nunca deixava ninguém jogar fora. Um guia antigo de estradas do Paraná.
— Onde está?
Minha mãe demorou a responder.
— Na sua casa.
Senti um arrepio.
— Na minha?
— Quando você se mudou, levei uma caixa com coisas do seu pai. O guia estava nela.
Pensei nas caixas guardadas durante anos no armário superior do escritório.
O mesmo escritório onde Marcelo havia escondido todos aqueles documentos.
— Eu nunca abri aquela caixa.
Marcelo ergueu a cabeça.
— Eu abri.
Olhei para ele.
— Quando?
— Há duas semanas.
— Por quê?
— Ricardo perguntou especificamente se você tinha objetos do seu pai.
Minha raiva voltou.
— E você procurou escondido?
— Eu estava tentando descobrir o que ele queria.
— Encontrou o guia?
— Encontrei. Mas não havia nada dentro.
Helena se aproximou.
— Onde está agora?
Marcelo ficou em silêncio.
— Marcelo?
— Ricardo levou.
Sérgio bateu a mão na mesa.
— Você entregou uma coisa do pai dela para Ricardo?
— Ele disse que, se eu entregasse, reduziria a dívida!
Eu queria gritar, mas alguma coisa me fez olhar novamente para os números.
11-4-19-7.
— Se Ricardo já tem o livro, por que Roberto ainda está procurando o documento?
Helena entendeu imediatamente.
— Porque o livro não era o esconderijo.
— Era apenas a chave.
Minha mãe assentiu lentamente.
— Exatamente como Paulo fazia.
Meu telefone vibrou.
Uma mensagem de número desconhecido.
Era uma fotografia do guia azul sobre uma mesa.
Abaixo:
“Obrigado pela chave.”
Outra imagem chegou segundos depois.
Mostrava uma página aberta. Uma palavra estava circulada.
“GARAGEM.”
Marta segurou meu braço.
— Amanda...
Eu já tinha entendido.
Meu pai tivera uma garagem particular nos fundos da casa onde cresci. Depois que ele morreu, minha mãe vendeu o imóvel.
— Quem mora lá agora?
Ela ficou pálida.
— Ninguém. A casa está vazia há meses. Está anunciada para venda.
Helena pegou as chaves.
— Roberto vai para lá.
— Então nós também.
Sérgio bloqueou a passagem.
— Não. Se ele está mandando as fotos, quer que vocês sigam.
— E se o documento estiver lá?
— Então chamamos a polícia.
— Com que prova? Uma história de vinte anos, contratos antigos e uma mensagem anônima?
Ninguém respondeu.
Meu celular tocou novamente.
Dessa vez, era Patrícia, a corretora.
Atendi.
— Amanda, desculpe ligar, mas aconteceu uma coisa estranha.
— O quê?
— O comprador da sua casa entrou em contato diretamente comigo.
Meu coração acelerou.
— Qual comprador?
— O homem da proposta de setecentos e vinte mil. Ele desistiu da compra.
— Então qual é o problema?
— Antes de desistir, pediu que eu destruísse todas as cópias da procuração.
Olhei para Helena.
— Você tem o nome dele?
— O nome usado na proposta é Roberto Almeida.
Sérgio fechou os olhos.
Tudo se encaixou.
Roberto nunca quis comprar minha casa.
Queria que ela fosse vendida.
— Patrícia, guarde tudo. Não entregue documento nenhum a ninguém.
Desliguei.
Marta já estava caminhando para a saída.
— Vamos buscar a polícia.
Foi quando Helena segurou seu braço.
— Espera.
Ela olhava para o livro-caixa.
— Se Paulo usou o guia como chave, “garagem” não pode ser a resposta completa. Ele nunca esconderia um documento importante num lugar tão óbvio.
Passei os olhos pela carta novamente. Havia uma frase perto do final que eu ignorara:
“Algumas coisas só permanecem seguras quando ninguém percebe que foram levadas.”
Minha mãe ficou imóvel.
— Eu sei onde está.
— Onde?
Ela me encarou.
— Seu pai reformou a garagem pouco antes de morrer. Tirou uma caixa metálica do chão e me pediu para guardá-la por uma noite.
— E depois?
— Na manhã seguinte, a caixa tinha desaparecido.
Helena perguntou:
— Quem estava com ele naquela manhã?
Marta olhou lentamente para Sérgio.
Meu sogro perdeu a cor.
— Não — disse ele.
Minha mãe não desviou os olhos.
— Você.
Sérgio balançou a cabeça.
— Eu fui falar com Paulo. Só isso.
— Você saiu carregando uma caixa.
Marcelo encarou o pai.
— Que caixa?
Sérgio recuou.
— Não era minha.
— Então onde você colocou? — perguntei.
Ele respirou fundo, como se finalmente tivesse chegado ao segredo que passara vinte anos tentando evitar.
— Paulo me pediu para escondê-la.
— Onde?
Sérgio olhou para Marcelo.
E então respondeu:
— Dentro da fundação da oficina que hoje pertence ao meu filho.
Marcelo ficou imóvel.
— Pai... a oficina foi demolida esta manhã.
O silêncio foi absoluto.
— O quê? — Sérgio perguntou.
— Eu vendi o terreno há três semanas para pagar parte da dívida. A construtora começou a demolição hoje.
Meu celular vibrou uma última vez.
Era uma fotografia enviada por Roberto.
No chão, entre pedaços de concreto quebrado, havia uma pequena caixa metálica coberta de poeira.
A mensagem abaixo tinha apenas cinco palavras:
“Finalmente encontrei o que era meu.”







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