A ligação do hospital terminou antes que eu conseguisse fazer uma segunda pergunta.
Por alguns segundos, ninguém dentro daquele depósito abandonado se moveu.
Gabriel continuava amarrado à cadeira, os pulsos marcados pela corda. Chen mantinha o celular diante do rosto. Ribeiro me observava como se esperasse uma ordem.
Eu só conseguia pensar em duas coisas.
Minha filha havia desaparecido.
E alguém tinha escrito para mim usando a caligrafia de uma mulher morta havia dezenove anos.
— Voltem para o hospital — ordenei.
Ribeiro apontou para Gabriel.
— Barros fica com ele.
— Não. Levem o garoto para um lugar seguro. Se conseguiram chegar até Lívia dentro de um hospital, conseguem chegar até uma testemunha que já sequestraram uma vez.
Nogueira cortou as cordas de Gabriel enquanto Chen enviava uma mensagem criptografada.
No caminho de volta, ela trabalhava no tablet sem parar.
— A autorização usada no hospital pertence a um nível de acesso que praticamente não existe mais — disse.
— De quem?
Chen hesitou.
— Da Força-Tarefa Espectro.
Olhei para ela.
— Isso é impossível.
— Concordo.
Ela virou a tela.
O código de autorização havia sido emitido dezenove anos antes.
Três dias depois da última missão oficial da Espectro.
E estava registrado no meu próprio arquivo.
Daniel Vilar.
A sensação foi pior do que encontrar a moeda sobre o travesseiro.
Alguém não apenas conhecia minha antiga identidade.
Alguém tinha acesso a credenciais que deveriam ter sido destruídas quando desapareci dos registros.
Ribeiro fechou o maxilar.
— Temos um vazamento dentro do Ministério.
— Não tire conclusões ainda.
— Coronel, sequestraram sua filha usando o seu código.
— Exatamente. E isso pode ser o que querem que pensemos.
Chegamos ao Santa Helena pouco depois.
A ala inteira estava isolada.
Dois agentes da Polícia Civil estavam no corredor, mas nenhum deles parecia saber exatamente o que havia acontecido.
A enfermeira responsável pelo turno nos levou até uma sala de monitoramento.
— Um homem apareceu com documentos do Ministério da Defesa — explicou ela. — Disse que sua filha precisava ser transferida por risco de segurança nacional.
— Descrição.
— Cinquenta e poucos anos. Cabelo grisalho. Alto. Falava baixo. Muito educado.
— Estava sozinho?
— Entrou sozinho.
Chen acessou as gravações internas.
O corredor aparecia perfeitamente.
Então, exatamente quatro minutos antes da chegada do homem, todas as câmeras daquele andar congelavam na mesma imagem.
— Outra interferência remota — disse ela.
A gravação voltava onze minutos depois.
Onze minutos.
O mesmo intervalo usado na universidade.
Não era coincidência.
Era assinatura.
Caminhei até o quarto vazio de Lívia.
A moeda ainda estava sobre a cama, agora dentro de um saco de evidências transparente.
O bilhete estava ao lado.
Pedi luvas.
A enfermeira entregou uma caixa.
Segurei o papel sob a luz.
A caligrafia era idêntica.
As curvas das letras.
A maneira como o “D” inclinava levemente para a esquerda.
O pequeno espaço que minha esposa deixava antes de uma vírgula.
Ninguém conhecia aqueles detalhes.
Ninguém, exceto eu.
E talvez alguém que tivesse acesso às cartas que ela me enviara durante minhas missões.
Li a mensagem novamente.
“Daniel, você prometeu que nunca voltaria a ser aquele homem.”
Meu peito apertou.
Ribeiro leu por cima do meu ombro.
— Isso estava escrito no bilhete?
Assenti.
Ele ficou pálido.
— Coronel...
— O quê?
— Eu já ouvi essa frase.
Virei-me lentamente.
Ribeiro passou a mão pelo rosto.
— Na última noite da Espectro.
A sala pareceu diminuir.
— Explique.
— Depois da operação final. Quando o senhor anunciou que estava deixando a unidade. O senhor recebeu uma ligação da sua esposa.
Eu lembrava.
Eu estava em uma base provisória, ainda coberto de poeira, quando ela me disse que estava grávida.
Naquela noite, decidi abandonar tudo.
Mas eu nunca havia contado a Ribeiro exatamente o que ela dissera.
— Como você sabe dessa frase?
Ele não respondeu imediatamente.
E aquele silêncio foi suficiente para fazer minha mão se fechar em punho.
— Ribeiro.
— Porque a ligação foi gravada.
Meu sangue esfriou.
— Gravada por quem?
— Inteligência militar.
Fiquei olhando para ele.
— Todas as comunicações da equipe eram monitoradas naquela época — explicou. — Mesmo as pessoais, quando passavam pelos canais protegidos.
— E onde estão essas gravações?
— Oficialmente? Destruídas quando a unidade foi encerrada.
— Oficialmente.
Ele abaixou os olhos.
Foi quando percebi que ainda havia coisas sobre o fim da Espectro que até eu não conhecia.
Chen interrompeu.
— Coronel.
Ela havia encontrado algo.
Na tela aparecia o registro eletrônico do elevador de serviço.
— O homem que levou Lívia não saiu pela entrada principal.
Ela ampliou um mapa.
— Desceu até o estacionamento subterrâneo. Um veículo entrou usando uma placa oficial do Ministério da Defesa e saiu sete minutos depois.
— Rastreie.
— Já fiz.
Ela digitou mais algumas linhas.
Uma fotografia de radar apareceu.
O veículo seguira para o norte, depois desaparecera em uma região industrial.
Nogueira se aproximou.
— Tem alguma instalação militar ali?
— Atualmente, não — respondeu Chen.
Ribeiro ergueu lentamente os olhos.
— Atualmente.
Todos olharam para ele.
— Antes da criação oficial da Espectro, existia um centro de inteligência naquele setor. Chamávamos de Base Alfa.
Eu me lembrava.
Foi onde conheci Ribeiro.
Onde Barros recebeu seu primeiro treinamento.
Onde minha unidade começou.
— A base foi demolida — falei.
Ribeiro balançou a cabeça.
— Foi o que nos disseram.
O celular de Chen vibrou.
Uma mensagem havia chegado por um canal criptografado tão antigo que eu não via aquele padrão desde minha última missão.
Ela abriu.
Havia apenas uma fotografia.
Lívia estava sentada em uma cadeira.
Viva.
A mandíbula ainda imobilizada.
Os olhos abertos.
Atrás dela, pintado numa parede de concreto, estava o antigo símbolo da Força-Tarefa Espectro.
A caveira prateada.
Abaixo da imagem, uma frase:
“VENHA SOZINHO, CORONEL FANTASMA.”
Então apareceu uma segunda linha.
“OU SUA FILHA VAI DESCOBRIR O QUE REALMENTE ACONTECEU COM A MÃE DELA.”
Minha respiração parou.
Durante dezenove anos, eu acreditara conhecer a verdade sobre a morte da minha esposa.
Naquele instante, percebi que talvez Lívia não fosse a única pessoa que havia vivido dentro de uma mentira.
Continua — clique na Parte 4 para continuar lendo.







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