O endereço escrito por Lívia ficava a vinte e seis quilômetros da universidade.
Não era uma casa.
Não era uma empresa.
Era uma antiga agência dos Correios fechada havia mais de uma década.
Quando estacionamos diante do prédio, Ribeiro observou as janelas cobertas por tábuas.
— Sua filha veio até aqui?
— É o que vamos descobrir.
Nogueira verificou os fundos antes de entrarmos.
Nenhum alarme.
Nenhuma câmera visível.
Mesmo assim, alguma coisa naquele lugar me incomodava.
Lívia tinha dezenove anos.
Até poucas horas antes, eu acreditava que sua maior preocupação era terminar a universidade.
Agora descobria que ela havia investigado uma conspiração ligada à morte da própria mãe sem me contar nada.
A porta lateral estava destrancada.
Dentro, pilhas de caixas vazias ocupavam o salão.
Chen encontrou marcas recentes de sapatos na poeira.
Seguimos até uma pequena sala de correspondência.
Havia centenas de antigos compartimentos metálicos na parede.
No verso do bilhete de Lívia, quase invisível, estava escrito:
317.
Abri o compartimento.
Vazio.
Ribeiro soltou o ar.
— Chegaram primeiro.
— Não.
Passei os dedos pela parte interna.
A profundidade estava errada.
Empurrei o fundo metálico.
Ele cedeu.
Atrás havia um pequeno pendrive e um telefone desligado.
Chen conectou o pendrive ao equipamento isolado.
Uma única pasta apareceu.
LÍVIA.
Dentro havia fotografias, gravações de voz e documentos que minha filha vinha reunindo havia quase quatro meses.
Olhei para a primeira imagem.
Era Eduardo Montenegro saindo de um edifício ligado ao Ministério da Defesa.
A segunda mostrava Otávio Ferraz encontrando um ex-diretor da universidade.
Na terceira, a senadora Helena Tavares conversava com Augusto Salles.
A fotografia havia sido feita apenas seis semanas antes.
Ribeiro se aproximou da tela.
— Então Salles conhece todos eles.
— Nós já sabíamos que havia conexão — respondeu Chen.
— Não assim.
Eu continuei abrindo arquivos.
Lívia havia descoberto muito mais do que imaginávamos.
Tudo começara com um trabalho universitário sobre transparência em contratos públicos.
Ela escolhera analisar financiamentos privados recebidos pela universidade.
Um dos maiores doadores era o Grupo Montenegro.
Seguindo os repasses, encontrara empresas de fachada.
Depois contratos militares.
Depois o nome da própria mãe.
Minha respiração travou.
Em uma planilha antiga, havia uma consultoria registrada no nome dela duas semanas antes de Lívia nascer.
A empresa nunca realizara atividade comercial.
Mas recebera um pagamento.
Origem: uma subsidiária do Grupo Montenegro.
Destino final: desconhecido.
Barros franziu a testa.
— Parece suborno.
— Ou tentativa de fazer parecer suborno — respondi.
Eu conhecia minha esposa.
Ela jamais venderia informação.
Alguém podia ter colocado dinheiro em seu nome para destruí-la caso fosse necessário.
Chen abriu outra gravação.
A voz de Lívia saiu pelos alto-falantes.
— Se você estiver ouvindo isto, pai, provavelmente já descobriu que eu escondi coisas de você.
Fechei os olhos.
Ela parecia nervosa.
Mas determinada.
— Eu comecei pesquisando a universidade. Depois encontrei o nome da mamãe. Pensei que fosse coincidência. Não era.
Um ruído de papel.
— Ela estava investigando o Projeto Janus antes de morrer.
Lívia respirou fundo.
— E alguém ainda está usando esse sistema.
A gravação continuou.
— Eu tentei falar com Tiago Montenegro porque encontrei documentos ligados ao pai dele. Ele fingiu não saber de nada. Dois dias depois, Lucas Ferraz me procurou e disse para eu parar de fazer perguntas.
Meu sangue começou a ferver.
— Depois Bruno apareceu. Eles queriam saber o que minha mãe tinha deixado comigo. Eu disse que não sabia do que estavam falando.
Outra pausa.
— Mas eu sabia.
Olhei para o medalhão em minha mão.
— Encontrei uma microchave escondida dentro do medalhão há três meses. Não consegui abrir os arquivos porque exigiam uma segunda autenticação.
Chen me encarou.
— Segunda autenticação.
— Eu — respondi.
Era por isso que precisavam de mim.
Não bastava possuir a chave.
Precisavam do antigo comandante da Espectro.
Lívia prosseguiu.
— Tirei a microchave do medalhão e escondi em outro lugar. Se eles me pegassem, eu queria que encontrassem apenas a corrente.
Ribeiro respirou fundo.
— Garota esperta.
Por um segundo, senti orgulho.
Logo depois veio a culpa.
Minha filha havia aprendido a sobreviver sozinha porque eu passara dezenove anos acreditando que mantê-la ignorante era o mesmo que mantê-la segura.
A gravação ainda não havia terminado.
— Pai, encontrei também um relatório sobre a noite em que mamãe morreu.
Meu corpo ficou rígido.
— Ela não morreu às três e dezoito.
Silêncio.
— Às quatro e seis, alguém autorizou uma transferência médica usando um protocolo militar.
Olhei para Chen.
Ela já procurava o arquivo.
Encontrou.
Hospital Santa Helena.
Paciente transferida às 04h06.
Destino omitido.
Autorização:
PROJETO JANUS.
Minha garganta secou.
— Se isso for verdadeiro...
Ribeiro não terminou.
Eu terminei por ele.
— Minha esposa saiu viva daquele hospital.
Ninguém falou.
Durante dezenove anos, eu havia visitado um túmulo acreditando que o corpo dentro dele era dela.
Agora nem isso parecia certo.
Chen verificou os documentos.
— Há uma assinatura digital na transferência.
— De quem?
Ela hesitou.
Então virou o tablet para mim.
GENERAL AUGUSTO SALLES.
O silêncio se tornou pesado.
Salles havia dito que minha esposa confiara na pessoa errada.
Talvez estivesse falando de si mesmo.
Peguei o telefone encontrado no compartimento.
— Consegue ligar?
Nogueira conectou uma bateria externa.
A tela acendeu.
Havia um vídeo gravado por Lívia na noite do ataque.
Ela estava em algum corredor da universidade, filmando escondida.
Três vozes podiam ser ouvidas.
Lucas.
Bruno.
Tiago.
— Ela não trouxe a chave — dizia Bruno.
— Então fazemos o que nos mandaram — respondeu Lucas.
Tiago parecia nervoso.
— Meu pai disse que era só assustar.
Outra voz surgiu.
Mais velha.
Mas fora do enquadramento.
— O pai dela precisa voltar a existir. Façam o suficiente para garantir isso.
Meu coração parou.
Eu conhecia aquela voz.
Ribeiro também.
Era Salles.
Então veio uma segunda gravação, feita poucos minutos depois.
Dessa vez Tiago estava sozinho ao telefone.
— Nós fizemos o que o general pediu — disse ele. — Agora cumpra sua parte.
A resposta veio distorcida.
Mas clara o bastante.
— Vocês eram apenas a isca.
A gravação terminou.
Salles não tinha apenas sequestrado Lívia depois.
Ele havia planejado o ataque desde o início.
Os três universitários eram culpados pelo que fizeram.
Mas alguém havia colocado minha filha diante deles sabendo exatamente o resultado que queria.
Trazer Daniel Vilar de volta.
Chen abriu o último arquivo.
Era uma coordenada.
E uma mensagem de Lívia:
“É aqui que escondi a chave do Janus.”
Antes que eu pudesse memorizar o ponto, o telefone começou a tocar.
Número desconhecido.
Atendi.
Salles falou.
— Agora você entende.
— Você mandou aqueles três atacarem minha filha.
— Eu mandei que assustassem Lívia. Eles ultrapassaram a ordem.
Minha voz ficou baixa.
— Isso não melhora nada.
— Nunca disse que melhorava.
— Onde ela está?
— Perto da resposta que você procurou por dezenove anos.
— Se tocar nela...
— Daniel, ainda está pensando que esta história começou com sua filha.
Ele fez uma pausa.
— Começou com sua esposa.
Então ouvi outra voz ao fundo.
Uma mulher.
Fraca.
Distante.
Mas dizendo meu nome.
— Daniel...
Meu corpo inteiro congelou.
Eu conhecia aquela voz.
Mesmo depois de dezenove anos.
Mesmo depois de acreditar que jamais a ouviria novamente.
Salles sussurrou:
— Venha buscar as duas.
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