Entretenimento

Quebraram a mandíbula da minha filha e acharam que três sobrenomes poderosos comprariam meu silêncio

Por dezenove anos, eu havia imaginado o que diria à minha esposa se tivesse a chance de vê-la mais uma vez.

Naquele momento, descobri que não havia palavras.

A ligação terminou.

Fiquei segurando o telefone enquanto o mundo inteiro parecia ter se reduzido àquele único som.

Daniel.

A voz dela.

Mais velha.

Fraca.

Mas era ela.

Ribeiro quebrou o silêncio.


— Coronel?

Entreguei o telefone a Chen.

— Localize a chamada.

Ela já estava trabalhando.

— Salles usou múltiplos redirecionamentos.

— Você consegue atravessar?

— Se ele quisesse realmente desaparecer, não teríamos ouvido nada. Ele deixou um caminho.

Claro que deixou.

Tudo naquela história havia sido construído para me conduzir.

O ataque.


O hospital.

A moeda.

A Base Alfa.

Até os arquivos.

Augusto Salles não estava fugindo de mim.

Estava me convocando.

Chen encontrou o primeiro ponto de convergência.

Era quase exatamente a coordenada que Lívia deixara no último arquivo.

Uma instalação subterrânea desativada sob um antigo centro de comunicações militares.

Ribeiro encarou o mapa.


— Eu conheço esse lugar.

— Eu também.

Tinha sido construído durante a década de noventa e oficialmente encerrado antes mesmo da criação da Espectro.

Oficialmente.

Olhei para minha equipe.

— Salles espera que eu vá atrás de Lívia. Isso significa que o verdadeiro objetivo continua sendo a chave do Janus.

— Então não levamos a chave — disse Barros.

— Ainda não temos a chave.

O esconderijo indicado por Lívia ficava no caminho.

Era uma pequena capela abandonada na área antiga do campus.


Dentro, atrás de uma placa memorial dedicada a antigos financiadores da universidade, encontrei um compartimento do tamanho de uma caixa de fósforos.

A microchave estava lá.

Pequena.

Quase insignificante.

Dezenove anos de mortes, chantagens e contratos podiam estar guardados em algo menor do que minha unha.

Chen colocou a peça em um estojo protegido.

— Se o Projeto Janus exigir sua autenticação biométrica, ninguém consegue abrir sem o senhor.

— Então vamos dar a Salles exatamente o que ele quer que veja.

Ribeiro entendeu.

— E guardar o que ele realmente quer em outro lugar.


Dividimos os dados.

Chen criou uma cópia incompleta.

Barros enviou partes das provas já recuperadas para três destinos independentes: Ministério Público Federal, uma autoridade militar fora da cadeia ligada a Salles e um servidor externo programado para liberar os arquivos caso nenhum de nós cancelasse o envio até o amanhecer.

Pela primeira vez desde que Lívia fora atacada, eu senti que não estava apenas reagindo.

Estávamos fechando as saídas.

Chegamos à instalação pouco depois da meia-noite.

Fui sozinho pela entrada principal.

Ribeiro, Nogueira, Barros e Chen seguiram pelos antigos acessos técnicos.

Salles saberia.

Mas também sabia que eu saberia que ele saberia.


Era assim que homens como nós conversavam.

Sem dizer nada.

Duas portas de aço se abriram quando aproximei a mão do leitor.

Minha antiga biometria ainda estava registrada.

O corredor levava a uma sala circular.

Salles me esperava no centro.

Envelhecera.

O cabelo estava quase completamente branco.

Mas os olhos eram os mesmos.

Controlados.


Atentos.

— Daniel.

— Onde estão elas?

Ele apontou para uma parede de vidro.

Lívia estava do outro lado.

Pálida.

Assustada.

Viva.

Corri até o vidro.

Ela se levantou.


Nossos olhos se encontraram.

Só então percebi a segunda pessoa sentada no fundo da sala.

Uma mulher magra, de cabelos grisalhos presos atrás da cabeça.

Ela ergueu lentamente o rosto.

Meu coração esqueceu como bater.

Era minha esposa.

Mais velha.

Marcada por alguma vida que eu não conhecia.

Mas era ela.

— Helena...


Sua mão foi até a boca.

Lágrimas encheram os olhos.

Eu me aproximei do vidro.

— Meu Deus.

Salles permaneceu atrás de mim.

— Ela nunca morreu naquela noite.

Virei-me.

— O que você fez com ela?

— Eu a retirei do hospital.

— E deixou que eu enterrasse um caixão acreditando que ela estava dentro!


Minha voz ecoou pela sala.

Salles não recuou.

— Porque, se Montenegro e os outros soubessem que ela havia sobrevivido, matariam você, Lívia e todos que ela tentou proteger.

— Então você a manteve prisioneira por dezenove anos?

Helena bateu no vidro.

— Daniel, não!

Salles apertou um botão.

O som da sala dela foi liberado.

A voz de Helena saiu pelos alto-falantes.

— Ele me salvou naquela noite.

Fiquei imóvel.

Ela chorava.

— Eduardo Montenegro descobriu que eu tinha copiado os arquivos do Janus. O médico estava trabalhando para eles. Salles conseguiu me tirar antes que terminassem o que começaram.

— Então por que você não voltou para nós?

Ela fechou os olhos.

— Porque ameaçaram você. E nossa filha.

Meu peito doeu.

— Dezenove anos, Helena.

— Eu sei.

— Você estava viva.

— Eu tentei voltar.

Salles falou:

— E foi aí que percebemos que a rede já havia infiltrado setores demais do governo.

— Não fale por ela.

Helena aproximou-se do vidro.

— Daniel, eu escolhi desaparecer.

A frase foi pior do que qualquer golpe.

— Escolheu?

— Porque o Janus tinha uma regra. Se a chave e o comandante responsável fossem reunidos, o sistema liberaria todo o arquivo. Eles precisavam de você. Precisavam de mim. E, depois que Lívia crescesse, poderiam usar nossa filha.

As peças começaram a se encaixar.

— Por isso Salles manteve você escondida.

— Por isso eu deixei você acreditar que estava morta.

Lívia chorava silenciosamente ao lado dela.

Eu queria abraçá-las.

Queria gritar.

Queria voltar dezenove anos no tempo e destruir todos os homens que haviam transformado nossa família numa estratégia de sobrevivência.

Mas ainda faltava uma coisa.

— Se Salles estava protegendo vocês, por que ordenou o ataque contra Lívia?

Helena olhou para ele.

O rosto dela endureceu.

— O quê?

Salles permaneceu em silêncio.

Ela virou-se para mim.

— Daniel, ele me disse que Lívia havia encontrado os arquivos sozinha e que os rapazes a atacaram para recuperar a chave.

Olhei diretamente para Salles.

— Você nunca contou a ela.

Ele respirou devagar.

— Era necessário trazer você de volta.

Helena recuou como se tivesse levado um tapa.

— Você usou nossa filha?

— Eu precisava de Daniel operacional novamente.

— Eles quebraram a mandíbula dela em seis lugares!

Pela primeira vez, o controle de Salles vacilou.

— Eu ordenei que a assustassem. Não aquilo.

— Você escolheu três homens que já tinham histórico de violência — respondi. — Sabia exatamente o risco.

Salles ficou em silêncio.

Era resposta suficiente.

Então as luzes piscaram.

Chen surgiu no meu comunicador oculto.

— Coronel, temos companhia.

— Quantos?

— Muitos.

Salles olhou para uma tela lateral.

Seu rosto mudou.

— Não são meus homens.

Portas de segurança começaram a se fechar.

No monitor apareceu um comboio entrando na instalação.

Veículos sem identificação.

Homens armados.

E, saindo do primeiro carro, Eduardo Montenegro.

Ao lado dele vinha a senadora Helena Tavares.

Atrás deles, Otávio Ferraz.

As três famílias tinham vindo pessoalmente.

Salles me encarou.

— Eles localizaram a chave.

— Não.

Retirei do bolso o estojo falso.

— Localizaram o que queríamos que localizassem.

Pela primeira vez, Augusto Salles sorriu.

Então uma explosão sacudiu a instalação.

O vidro diante de Lívia e Helena vibrou.

Ribeiro apareceu no comunicador.

— Coronel, romperam o perímetro.

Olhei para minha esposa.

Depois para minha filha.

Depois para o homem que destruíra parte da minha família tentando salvar outra.

A guerra que eu abandonara dezenove anos antes finalmente havia chegado até nós.

E desta vez, ninguém sairia protegido pelo sobrenome.

Continua — clique na Parte 9 para continuar lendo.

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