O vídeo durava apenas quarenta e três segundos.
Mas aqueles quarenta e três segundos destruíram dezenove anos da minha vida.
Ampliei a imagem.
O homem caminhando ao lado da maca era Eduardo Montenegro.
Mais jovem, cabelo escuro, terno sem gravata.
Mas era ele.
Eu havia estudado fotografias recentes naquela manhã.
Mesmo formato do rosto.
Mesmo jeito de inclinar a cabeça.
Mesmo olhar frio.
— Por que Montenegro estava no hospital quando minha esposa morreu? — perguntei.
Ninguém respondeu.
Chen abriu os metadados.
— O arquivo foi copiado do sistema interno do hospital três horas depois do parto.
— Por quem?
Ela examinou outra linha.
Seu rosto mudou.
— Pela sua esposa.
Olhei para ela.
— Impossível. Ela já estava morta.
— Não segundo este registro.
Meu peito apertou.
Chen abriu outro arquivo associado.
Horário do óbito informado oficialmente: 03h18.
Horário da cópia: 05h42.
Duas horas e vinte e quatro minutos depois.
Ribeiro falou quase num sussurro.
— Então alguém usou as credenciais dela.
— Ou ela ainda estava viva — respondi.
Essa possibilidade era pior.
Muito pior.
Barros encontrou um relatório médico digitalizado.
O documento oficial dizia hemorragia obstétrica grave.
Mas havia um segundo formulário escondido entre os arquivos.
Nunca assinado.
Nunca anexado ao prontuário.
Nele constava uma alteração brusca na pressão arterial pouco antes da cesariana e a administração de um medicamento que não aparecia na versão final.
— Isso poderia causar a morte? — perguntou Nogueira.
— Não sabemos — respondi. — E não vamos adivinhar.
Eu queria fatos.
Não vingança construída sobre suposições.
Chen continuou procurando.
Encontrou uma pasta criptografada.
Título:
VILAR — ENTREGAR SOMENTE SE DANIEL RETORNAR.
Meu nome.
Minha respiração ficou lenta.
— Abra.
— Tem senha.
— Tente a data de nascimento de Lívia.
Nada.
Nossa data de casamento.
Nada.
A data da última missão da Espectro.
Nada.
Ribeiro olhou para mim.
— O que sua esposa usaria que ninguém mais saberia?
Pensei durante alguns segundos.
Então lembrei.
Uma frase que ela escrevia no fim de quase todas as cartas enviadas durante minhas missões.
Volte inteiro.
Digitei.
VOLTEINTEIRO.
A pasta abriu.
Dentro havia apenas três arquivos.
Uma fotografia.
Um documento.
E um áudio.
Abri a fotografia primeiro.
Era minha esposa, grávida, em nossa antiga casa.
Na mão, segurava minha moeda da Espectro.
Mas alguma coisa estava diferente.
Ela havia desmontado a moeda.
Duas metades.
Dentro existia um compartimento minúsculo.
Peguei a moeda que havia sido deixada no travesseiro de Lívia.
Nogueira a examinou.
— Essa não abre.
— Porque não é a minha.
Ribeiro entendeu primeiro.
— É uma cópia.
Exatamente.
A verdadeira moeda havia desaparecido dezenove anos antes.
E agora finalmente sabíamos por quê.
Minha esposa esconderia alguma coisa dentro dela.
Talvez parte do Projeto Janus.
Talvez a prova que todos estavam procurando.
Abri o documento seguinte.
Era uma lista de nomes.
Eduardo Montenegro.
Otávio Ferraz.
Senadora Helena Tavares.
Augusto Salles.
E outros onze.
Ao lado de cada nome havia empresas, contratos e datas.
Alguns registros remontavam a mais de vinte anos.
Não eram três famílias separadas.
Era uma rede.
Fornecedores.
Políticos.
Intermediários.
Oficiais.
Pessoas que haviam transformado operações secretas em uma máquina privada de dinheiro e influência.
Então vi uma anotação feita pela minha esposa.
“Se Daniel descobrir isso cedo demais, eles usarão Lívia.”
Fechei os olhos.
Ela já sabia.
Antes mesmo de nossa filha nascer, sabia que um dia poderiam chegar até ela.
— Toque o áudio — falei.
A voz da minha esposa preencheu o veículo.
— Daniel, se você encontrou isto, significa que falhei em manter vocês dois longe dessa história.
Minha garganta fechou.
— O Projeto Janus não é apenas um sistema de identidades falsas. Ele registra quem autorizou cada operação clandestina criada para proteger interesses privados. É uma trilha completa. Ordens, pagamentos, nomes, datas.
Ela respirou fundo.
— Eu escondi a chave de acesso onde ninguém procuraria. Não está com você.
Pausa.
— Está com nossa filha.
Todos olharam para mim.
Minha mente correu por dezenove anos de lembranças.
Brinquedos.
Roupas.
Fotografias.
Objetos da mãe que entreguei a Lívia quando ela cresceu.
Então entendi.
No aniversário de dezoito anos, eu havia dado a ela uma caixa que pertencera à mãe.
Dentro havia cartas, uma fotografia do casamento e um pequeno medalhão de prata.
Lívia usava aquele medalhão quase todos os dias.
Inclusive na universidade.
— O colar — falei.
Chen já estava procurando as fotografias do hospital.
Na primeira imagem feita quando Lívia chegou, o medalhão estava no pescoço dela.
Na fotografia enviada por Salles depois do sequestro...
não estava.
— Eles pegaram — disse Ribeiro.
— Talvez.
Ampliei a foto.
Havia uma pequena linha vermelha na pele de Lívia, onde a corrente havia sido arrancada.
Mas se Salles já tivesse conseguido o que queria, não precisaria de mim.
Meu telefone descartável vibrou.
Mensagem de Barros.
GABRIEL LEMBROU DE MAIS UMA COISA.
Ligamos por canal protegido.
A voz do rapaz tremia.
— Coronel, antes de atacarem sua filha, ouvi Tiago dizer uma coisa.
— O quê?
— Ele disse: “Se ela não entregar, procurem no dormitório.”
Chen e eu nos encaramos.
— Eles não encontraram a chave — falei.
Lívia devia ter percebido que alguém estava atrás do medalhão.
E fizera alguma coisa com ele antes do ataque.
— Onde fica o dormitório dela? — perguntou Nogueira.
Eu já estava ligando o motor.
Quarenta minutos depois, chegamos à residência universitária.
A porta do quarto de Lívia havia sido arrombada.
Gavetas espalhadas.
Colchão cortado.
Livros rasgados.
Alguém procurara cada centímetro.
Mas, sobre a mesa, havia algo que não combinava com o caos.
Uma fotografia antiga minha com Lívia ainda bebê.
Virada para baixo.
Levantei.
No verso, ela havia escrito à mão:
“Pai, se alguma coisa acontecer comigo, procure onde você me ensinou que o medo não entra.”
Fiquei olhando para a frase.
Então lembrei.
Quando Lívia tinha oito anos e tinha medo de tempestades, construí para ela um pequeno esconderijo dentro do armário.
Atrás de uma tábua falsa.
Eu me ajoelhei.
Retirei duas caixas.
Passei os dedos pelo painel.
Clique.
A madeira se soltou.
Dentro havia um envelope.
E nele, o medalhão de prata.
Chen sorriu pela primeira vez naquele dia.
Mas o sorriso desapareceu quando abri o medalhão.
Não havia nenhum chip.
Nenhuma chave.
Apenas um pequeno pedaço de papel dobrado.
Nele estava escrito um endereço.
E uma frase:
“Pai, eu descobri quem matou a mamãe.”
Continua — clique na Parte 7 para continuar lendo.







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