A voz saiu pelos alto-falantes com a mesma calma que eu lembrava.
— Você demorou mais do que eu esperava.
Por um instante, não vi a Base Alfa.
Vi uma sala de instrução dezenove anos antes.
Homens e mulheres jovens demais para entender no que estavam se transformando.
E, diante de todos nós, o general Augusto Salles.
O homem que havia selecionado pessoalmente cada integrante da Espectro.
O homem que dizia que nosso maior dever era impedir que o poder se tornasse intocável.
O homem cujo caixão eu vira coberto pela bandeira brasileira.
Ribeiro foi o primeiro a quebrar o silêncio.
— Isso é uma gravação.
— Não — respondi.
Eu conhecia Salles.
Conhecia suas pausas.
A maneira como prolongava a última sílaba quando estava provocando alguém.
Aquilo estava acontecendo em tempo real.
— General — falei.
Uma risada baixa percorreu os alto-falantes.
— Ainda disciplinado. Até depois de tudo.
Chen continuava copiando os arquivos enquanto Nogueira verificava os corredores.
— Onde está minha filha?
— Segura.
— Quero ouvir a voz dela.
Silêncio.
Depois, um pequeno ruído.
Uma respiração.
Então ouvi Lívia.
— Pai...
A voz saiu fraca por causa da mandíbula imobilizada.
Meu corpo inteiro reagiu.
— Lívia.
— Estou bem.
Houve movimento ao fundo.
A transmissão foi cortada.
Fechei os olhos por um segundo.
Viva.
Ela estava viva.
Isso era tudo que importava naquele momento.
Salles voltou.
— Agora podemos conversar.
— Você falsificou sua morte.
— Não exatamente. O Estado falsificou minha morte. Eu apenas aceitei o funeral.
Ribeiro parecia prestes a explodir.
— Por quê?
— Porque a Espectro precisava desaparecer.
— Então por que manter a Base Alfa ativa? — perguntei.
— Porque unidades desaparecem. Sistemas não.
Olhei para as caixas ao nosso redor.
Contratos.
Pagamentos.
Empresas.
Sobrenomes.
— Ferraz, Tavares e Montenegro trabalham para você?
Salles riu novamente.
— Você ainda pensa em linhas muito simples.
— Responda.
— Os pais deles fazem parte de algo muito maior do que três famílias tentando proteger filhos violentos.
Ele fez uma pausa.
— Durante vinte anos, contratos militares foram usados para mover dinheiro, tecnologia e informação por redes privadas. Sua esposa descobriu isso antes de você.
A raiva voltou.
— O que aconteceu com ela?
Dessa vez, Salles demorou a responder.
— Ela confiou na pessoa errada.
— Quem?
— Você ainda não está pronto para essa resposta.
Ribeiro bateu a mão contra uma mesa.
— Chega desses jogos.
O alto-falante respondeu imediatamente.
— Major Ribeiro. Você continua impaciente.
Ribeiro congelou.
— E você continua vivo quando deveria estar morto.
— Muitos de nós continuam.
Aquilo mudou alguma coisa no rosto de Ribeiro.
Pequena.
Mas percebi.
— O que ele quis dizer? — perguntei.
Ribeiro não respondeu.
Salles respondeu por ele.
— Pergunte ao seu major quem entregou as coordenadas da última missão da Espectro.
Virei lentamente para Ribeiro.
Ele ficou imóvel.
— Coronel...
— Não agora.
Eu não podia permitir que Salles quebrasse a equipe usando fragmentos de verdade.
Era uma técnica básica.
Dividir.
Criar suspeita.
Fazer cada homem olhar para o outro.
— Você quer alguma coisa de mim — falei para os alto-falantes. — Caso contrário, Lívia já estaria morta.
O silêncio seguinte pareceu aprovação.
— Exatamente.
— Então diga.
— Quero que você encontre algo que desapareceu dezenove anos atrás.
— O quê?
— Um arquivo.
Chen parou de digitar por meio segundo.
— Que arquivo?
— Sua esposa o chamou de Projeto Janus.
O nome não significava nada para mim.
Mas significava alguma coisa para Chen.
Eu vi.
— Você conhece isso — falei.
Ela hesitou.
— Só como rumor.
— Fale.
— Anos atrás, alguns analistas mencionavam um protocolo secreto de duplicação de identidades operacionais. Servia para criar registros falsos, transferir autorizações e esconder agentes dentro de sistemas oficiais.
Salles completou:
— Não apenas agentes.
— O que mais?
— Operações inteiras.
Meu estômago apertou.
Se alguém possuía aquilo, poderia fazer exatamente o que havíamos visto.
Usar minhas credenciais.
Acessar hospitais.
Apagar câmeras.
Fazer parecer que uma ordem vinha do Ministério da Defesa quando, na verdade, não vinha de lugar algum.
— Minha esposa tinha esse arquivo?
— Encontrou parte dele.
— Onde está?
— Se eu soubesse, não precisaria de você.
— E os três universitários?
A voz de Salles endureceu.
— Eles estavam procurando a mesma coisa.
Tudo parou.
— Em Lívia?
— Não.
Pensei no bilhete.
ELES QUERIAM VOCÊ.
— Em mim.
— Finalmente.
Barros abriu outra pasta.
— Coronel.
Ele retirou um documento.
Era antigo.
Muito antigo.
No cabeçalho estava meu nome operacional.
Coronel Daniel Vilar.
Mais abaixo, uma lista de bens recuperados depois da dissolução da Espectro.
Armas.
Uniformes.
Documentos.
Equipamentos.
E um item marcado como NÃO LOCALIZADO.
Arquivo pessoal — D. Vilar.
Senti um arrepio.
— Eu nunca tive um arquivo pessoal da unidade.
— Talvez não soubesse que tinha — disse Chen.
Salles falou:
— Sua esposa escondeu alguma coisa entre seus pertences antes de morrer.
— Então por que não vieram atrás de mim durante dezenove anos?
— Porque acreditavam que o arquivo tinha sido destruído.
— Até agora.
— Até Lívia entrar na universidade.
Minha respiração diminuiu.
— O que ela encontrou?
— Essa é a pergunta certa.
De repente, as luzes de emergência ficaram vermelhas.
Chen olhou para o tablet.
— Terminei a cópia.
No mesmo instante, o sistema inteiro começou a emitir alarmes.
Salles percebeu.
— Sempre gostei da tenente Chen.
— Então sabe que acabou de perder seus arquivos.
— Não.
A voz dele continuava calma.
— Vocês acabaram de pegar exatamente o que eu queria que pegassem.
Nogueira olhou para o corredor.
— Movimento.
Passos.
Muitos.
Homens armados começaram a aparecer nos monitores internos.
— Saída oeste — ordenei.
Barros pegou as pastas essenciais.
Chen arrancou o dispositivo dos servidores.
Ribeiro permaneceu me observando.
— E Lívia?
— Ele não está aqui com ela.
— Como sabe?
Olhei para o alto-falante.
— Porque se estivesse, não precisaria nos expulsar.
A voz de Salles voltou uma última vez.
— Muito bem, Daniel.
Quase parecia orgulho.
— Talvez o Coronel Fantasma não tenha morrido completamente.
Corremos pelo corredor lateral enquanto Nogueira abria uma passagem de manutenção esquecida nos projetos antigos.
Atrás de nós, portas de segurança começaram a fechar.
Saímos por uma galeria subterrânea que terminava centenas de metros dentro da mata.
Somente quando alcançamos os veículos, Chen abriu a cópia dos arquivos.
— Temos pouco tempo. Alguns documentos estão corrompidos.
Ela navegou pelas pastas.
Contratos.
Transferências.
Relatórios.
Então encontrou um vídeo.
Data: dezenove anos antes.
Origem: Hospital Santa Helena.
Meu coração parou.
O mesmo hospital onde Lívia estava havia poucas horas.
Chen abriu.
A imagem mostrou um corredor de maternidade.
Minha esposa aparecia sendo levada numa maca.
Atrás dela caminhava o médico que assinara sua morte.
E ao lado dele estava um homem mais jovem.
A imagem não era perfeita.
Mas eu reconheci o rosto.
Ribeiro também.
Ninguém disse nada.
Porque o homem que entrara na sala de parto naquela noite não era Augusto Salles.
Era o atual pai de Tiago Montenegro.
Continua — clique na Parte 6 para continuar lendo.







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