Marcelo não disse nada durante alguns segundos.
O silêncio dele foi pior do que qualquer resposta.
Meu celular ainda estava no viva-voz, e a respiração de Rafael chegava do outro lado da linha como se ele estivesse saboreando cada segundo da minha confusão.
— Marcelo — falei, sentindo minha voz falhar. — O que ele quis dizer?
Rafael riu novamente.
— Pergunte a ele, Elisa. Pergunte por que um bilionário que nunca viu você antes reconheceu seu sobrenome tão rápido.
Virei-me para Marcelo.
Ele continuava pálido.
— Desligue — ordenou ao chefe da segurança.
— Não! — puxei o telefone para perto de mim. — Rafael, o que você sabe sobre meu pai?
A risada desapareceu.
— Mais do que sua mãe contou para você.
— Rafael.
— Você passou anos acreditando que seu pai morreu sendo apenas mais um engenheiro azarado. Talvez devesse descobrir para quem ele realmente trabalhava.
A chamada caiu.
Fiquei encarando a tela.
Meu pai, Eduardo Martins, morrera quando eu tinha dez anos. Um acidente de carro numa estrada molhada, voltando de uma viagem de trabalho.
Era isso que eu sempre soubera.
Minha mãe evitava falar sobre aquela época porque dizia que ainda doía demais.
Agora Marcelo estava diante de mim como um homem que carregava uma parte da história que minha própria família nunca havia me contado.
— Você conhecia meu pai?
— Não pessoalmente.
— Mas sabia quem ele era.
Marcelo respirou fundo.
— Sim.
Dei um passo para trás.
— Então você mentiu para mim durante o voo inteiro.
— Eu não sabia quem você era quando sentou ao meu lado.
— Mas descobriu.
Ele não respondeu imediatamente.
Aquilo bastou.
— Quando?
— Pouco antes do pouso.
— Antes ou depois de pedir para eu fingir que estava dormindo no seu ombro?
— Depois.
— Então aquela história de que eu era a primeira pessoa em anos a tratá-lo normalmente...
— Era verdade.
— Eu não sei mais o que é verdade.
Ana começou a se agitar em meus braços, assustada com minha voz. Fechei os olhos por um instante e tentei me controlar.
Marcelo baixou o tom.
— Elisa, não estamos seguros aqui.
— Eu não vou a lugar nenhum com você até saber o que está acontecendo.
O chefe da segurança olhou ao redor.
— Senhor, temos movimento no saguão principal.
Marcelo virou rapidamente.
— Que tipo de movimento?
— Dois homens fotografando a equipe. Um deles apareceu nas câmeras perto do desembarque internacional vinte minutos antes de o avião pousar.
Meu coração apertou.
— São jornalistas?
— Não sabemos — respondeu ele.
Marcelo olhou para mim.
— Podemos discutir tudo isso dentro do carro.
— Seu carro?
— Blindado.
— Isso deveria me tranquilizar?
— Neste momento, sim.
Eu queria ir embora.
Queria pegar Ana, chamar um táxi e desaparecer.
Mas alguém tinha colocado um rastreador na bolsa da minha filha.
Minha fotografia tinha sido publicada antes de eu sequer desembarcar.
E Rafael sabia alguma coisa sobre meu pai que fazia um homem como Marcelo Albuquerque perder a cor do rosto.
Eu não tinha mais certeza de que existia um lugar para onde eu pudesse simplesmente ir.
Seguimos pela saída reservada.
No estacionamento subterrâneo, dois SUVs pretos aguardavam com os motores ligados.
Assim que entramos no primeiro carro, o chefe da segurança entregou o rastreador a outro agente dentro de uma pequena embalagem metálica.
— Vamos analisar isso.
— Quero saber quem colocou aquele dispositivo na bolsa da Ana — falei.
— Nós vamos descobrir — respondeu Marcelo.
— Não diga “nós”.
Ele me encarou.
— Certo.
O carro começou a andar.
Ana finalmente aceitou a mamadeira. Observei minha filha beber em silêncio enquanto tentava juntar tudo o que havia acontecido nas últimas duas horas.
Marcelo mantinha os olhos na janela.
— Comece pelo meu pai — falei.
Ele ficou imóvel.
— Eduardo Martins trabalhou como engenheiro de sistemas para uma empresa chamada Vértice Digital.
Eu franzi a testa.
— Nunca ouvi esse nome.
— Porque ela deixou de existir pouco depois da morte dele.
— O que isso tem a ver com você?
— A Albuquerque Tecnologia ainda não existia como existe hoje. Meu pai tinha uma empresa muito menor. A Vértice era uma fornecedora nossa.
Senti um arrepio.
— Seu pai conhecia o meu?
— Sim.
— E você acha isso normal? Conhecer minha história e não me contar nada?
— Eu descobri sua identidade quando minha equipe pesquisou seu nome depois que a fotografia apareceu.
— Então por que ficou tão assustado?
Marcelo finalmente me olhou.
— Porque o nome Eduardo Martins aparece em um arquivo que deveria ter sido destruído há dezenove anos.
Minha mão parou sobre a manta de Ana.
— Que arquivo?
Marcelo apertou os lábios.
— Um relatório interno sobre uma invasão de sistemas que quase levou a empresa do meu pai à falência.
— Meu pai era suspeito?
— Não.
— Então o quê?
— Ele foi quem descobriu.
Por alguns segundos, só ouvi o ruído dos pneus contra o asfalto.
— Descobriu o quê?
Marcelo hesitou.
— Que alguém estava desviando informações de clientes e vendendo dados corporativos.
Meu peito apertou.
— E depois ele morreu.
Marcelo não respondeu.
— Você está dizendo que meu pai foi morto?
— Estou dizendo que oficialmente foi um acidente.
— Isso não foi o que eu perguntei.
Antes que ele pudesse responder, o telefone do chefe da segurança vibrou.
O homem olhou para a tela e mudou de expressão.
— Senhor.
Marcelo se inclinou para a frente.
— O que foi?
— Recebemos o resultado preliminar do rastreador.
Meu estômago afundou.
— Conseguiram identificar?
— O modelo é comum. Mas encontramos uma coisa mais importante.
Ele virou o tablet.
Na tela havia um registro de ativação com horário, localização e um número parcialmente mascarado.
— O dispositivo foi ativado às seis e quarenta e dois desta manhã.
Reconheci imediatamente o endereço.
Era o prédio onde minha mãe morava.
Senti meu corpo inteiro gelar.
— Isso não é possível.
Marcelo ficou rígido.
— Você esteve lá hoje?
— Deixei Ana com minha mãe por quarenta minutos enquanto resolvia uma coisa antes de irmos ao aeroporto.
Ninguém falou.
Olhei para a bolsa da minha filha no chão do carro.
Depois pensei nas únicas três pessoas que sabiam exatamente qual voo eu pegaria.
Minha irmã.
Minha mãe.
E Rafael.
Então meu celular vibrou novamente.
Desta vez não era uma ligação.
Era uma mensagem enviada por um número desconhecido.
Abri.
Havia apenas uma fotografia.
Minha mãe parada na janela de seu apartamento naquela manhã.
Atrás dela, refletido no vidro, estava Rafael.
E abaixo da imagem havia uma frase:
**Seu pai tentou contar a verdade. Não cometa o mesmo erro.**
Ergui os olhos lentamente para Marcelo.
— Você vai me contar tudo agora.
Ele observou a fotografia e respondeu com uma calma que me assustou ainda mais.
— Não aqui.
— Marcelo...
— Porque se essa foto for real, Elisa, Rafael não está tentando descobrir o que aconteceu com seu pai.
Ele fez uma pausa.
— Ele está procurando alguma coisa que Eduardo deixou para você.
**Continua — clique na Parte 4 para continuar lendo.**







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