Entretenimento

Um desconhecido me pediu para fingir que eu dormia em seu ombro no avião — depois descobri que ele era um bilionário e já sabia quem eu era

Saímos de São Paulo pouco depois.

Marcelo queria me deixar no apartamento seguro com Ana.

Eu me recusei.

— Minha mãe está indo para aquela casa por minha causa.

— Exatamente por isso você não deveria ir.

— Rafael precisa de mim para encontrar o arquivo. Se eu não aparecer, ele pode fazer qualquer coisa com ela.

Marcelo me encarou por alguns segundos.

— Você está pensando como ele quer que pense.

— E você está pensando como alguém que nunca precisou escolher entre segurança e família.

A frase o atingiu.


Ele desviou os olhos.

— Você está errada sobre isso.

Quase perguntei o que queria dizer, mas o chefe da segurança entrou na sala.

— Temos imagens de uma câmera rodoviária. Um veículo registrado em nome de uma empresa de fachada ligada a Rafael passou pela Rodovia Floriano Rodrigues Pinheiro há quarenta e oito minutos.

Meu coração acelerou.

— Minha mãe estava no carro?

— Não conseguimos ver.

Marcelo tomou a decisão naquele instante.

— Vamos.

Ana ficou com uma enfermeira da equipe de Marcelo e duas seguranças dentro de outro veículo.


Separar-me dela foi a coisa mais difícil que fiz naquela noite.

Beijei sua testa três vezes.

— Mamãe volta logo.

Ela segurou meu dedo.

Por um segundo, quase desisti.

Então pensei no rastreador escondido em sua bolsa.

Rafael já tinha ultrapassado qualquer limite.

Entrei no SUV com Marcelo.

Durante quase todo o caminho, permaneci em silêncio.

A serra parecia diferente à noite.


As curvas fechadas, a neblina e as luzes esparsas faziam cada quilômetro parecer mais longo.

Marcelo estava ao meu lado olhando relatórios no tablet.

— Encontraram alguma coisa sobre o Arquivo A-17? — perguntei.

— Só referências indiretas.

— Que tipo?

Ele virou a tela.

— Seu pai copiou informações para um dispositivo físico na semana em que morreu.

— Um computador?

— Não sabemos.

— E por que alguém estaria procurando isso depois de dezenove anos?


Marcelo ficou em silêncio.

— Porque o conteúdo ainda pode destruir alguém.

— Quem?

— Essa é justamente a pergunta.

Respirei fundo.

— Rafael trabalhava sozinho?

— Não acredito.

— Por quê?

— Porque ele não teria acesso aos registros antigos da minha empresa sem ajuda.

— Então existe alguém dentro da Albuquerque Tecnologia envolvido.


— Ou alguém que já esteve lá.

Aquilo trouxe outra pergunta.

— E a foto minha publicada no aeroporto?

— Também acho que veio dessa pessoa.

Olhei pela janela.

— Então Rafael pode nem ser o verdadeiro problema.

— Pode ser só uma parte dele.

Chegamos a Campos do Jordão depois de anoitecer completamente.

A casa do meu avô ficava afastada do centro, no fim de uma estrada estreita cercada de árvores altas.

Quando os faróis iluminaram o portão enferrujado, meu peito apertou.


Eu me lembrava daquele lugar.

O cheiro de madeira.

Meu pai fazendo chocolate quente.

A voz dele chamando meu nome do andar de cima.

Marcelo tocou meu braço.

— Elisa.

Eu o encarei.

— Se Rafael estiver lá, você não entra primeiro.

— Ele está com minha mãe.

— E por isso mesmo.


O chefe da segurança falou pelo rádio.

— Equipe um pela lateral. Equipe dois pelos fundos. Nenhuma movimentação visível.

O portão estava aberto.

Isso me assustou mais do que se estivesse trancado.

Entramos.

O assoalho da varanda rangeu sob nossos pés.

A porta da frente também estava aberta.

— Mãe? — chamei.

Marcelo fez um gesto.

— Baixo.


A casa cheirava a poeira e madeira úmida.

Havia marcas recentes no chão.

Pegadas.

Móveis deslocados.

Alguém já havia procurado alguma coisa ali.

Subimos a escada.

Cada degrau despertava uma lembrança.

Quando chegamos ao corredor do segundo andar, parei.

A porta do antigo quarto estava aberta.

— É ali.


Dois seguranças entraram primeiro.

Vazio.

Fui até a janela.

A mesma que aparecia no desenho do meu pai.

Meu coração martelava.

Olhei para o piso.

A lembrança voltou.

Eu criança, ajoelhada no chão.

Meu pai sorrindo.

— Segredos só continuam seguros enquanto as pessoas procuram no lugar errado.


Ajoelhei-me.

Passei a mão pelas tábuas até encontrar uma com um pequeno risco em formato de estrela.

— Aqui.

Marcelo se abaixou ao meu lado.

— Tem certeza?

— Sim.

A chave estava sobre a mesa no apartamento da minha mãe, mas a equipe a havia recolhido antes de sairmos.

Peguei-a.

Havia uma pequena fechadura quase invisível na lateral da tábua.

Inseri a chave.

Girou perfeitamente.

A madeira se levantou.

Debaixo dela havia uma caixa metálica estreita.

Meu coração disparou.

Marcelo ficou imóvel.

— Encontramos.

Retirei a caixa.

Antes que pudesse abri-la, ouvimos um ruído no andar de baixo.

Um grito.

Minha mãe.

Levantei-me imediatamente.

— Mãe!

Marcelo segurou meu braço.

— Não.

Outro grito.

Depois a voz de Rafael ecoou pela casa.

— Elisa!

Senti o sangue gelar.

— Eu sei que você está aí!

Os seguranças levantaram as armas.

Marcelo fez sinal para ninguém se mover.

Rafael riu.

— Você realmente achou que chegaria antes de mim?

A voz vinha do térreo.

— Solte minha mãe! — gritei.

— Traga a caixa.

Marcelo balançou a cabeça.

— Não.

— Ele vai machucá-la.

— É exatamente o que ele quer que você pense.

Rafael falou novamente.

— Dez segundos, Elisa.

Ouvi minha mãe chorando.

Não consegui mais esperar.

Peguei a caixa e fui em direção à escada.

Marcelo me seguiu.

— Elisa.

— Se ele encostar nela...

— Então fazemos isso juntos.

Descemos.

Rafael estava na sala.

Minha mãe estava ao lado dele.

Não amarrada.

Não ferida.

Apenas pálida.

Mas havia outra coisa errada.

Ela não parecia surpresa ao me ver.

— Mãe?

Ela baixou os olhos.

Meu estômago afundou.

Rafael sorriu.

— Finalmente.

— Afaste-se dela.

— Você ainda não entendeu.

Olhei para minha mãe.

— O que está acontecendo?

Ela começou a chorar.

— Elisa, eu sinto muito.

Não consegui respirar.

— Sente muito pelo quê?

Rafael estendeu a mão.

— A caixa.

Marcelo ficou à minha frente.

— Primeiro ela vai embora.

Rafael riu.

— Albuquerque, você continua achando que controla isso.

Minha mãe ergueu o rosto.

— Marcelo...

A maneira como disse o nome dele fez todos ficarem imóveis.

Ela o conhecia.

Marcelo também percebeu.

— Nós já nos encontramos? — perguntou.

Minha mãe fechou os olhos.

— Não.

Depois olhou para mim.

— Mas eu conheci seu pai.

Marcelo ficou rígido.

— Meu pai?

Ela assentiu.

Senti meu mundo se deslocar outra vez.

— Mãe, do que você está falando?

Ela começou a tremer.

— Na noite em que seu pai morreu, Eduardo não estava voltando de uma viagem de trabalho.

A sala ficou completamente silenciosa.

— Então de onde ele estava voltando?

Minha mãe olhou para Marcelo.

— Da casa de Augusto Albuquerque.

O pai de Marcelo.

Marcelo empalideceu.

— Isso é impossível.

— Não é.

Ela respirou fundo.

— Porque naquela noite, os dois decidiram que o Arquivo A-17 precisava desaparecer.

Olhei para a caixa em minhas mãos.

— Por quê?

Minha mãe me encarou.

— Porque o arquivo não contém apenas provas contra quem estava roubando a empresa.

Fez uma pausa.

— Ele também contém provas contra a família Albuquerque.

Continua — clique na Parte 7 para continuar lendo.

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