O carro ficou em silêncio.
A frase de Marcelo parecia ter ocupado todo o espaço entre nós.
— Alguma coisa que meu pai deixou para mim?
— É uma possibilidade.
— Não. — Balancei a cabeça. — Você não vai fazer isso de novo. Não vai me dar metade de uma resposta e esperar que eu simplesmente confie em você.
Marcelo passou a mão pelo rosto.
Pela primeira vez desde que saímos do avião, ele parecia cansado de verdade.
— Seu pai descobriu uma operação muito maior do que um simples vazamento de dados.
— Que operação?
— Alguém estava usando empresas terceirizadas para copiar informações estratégicas de clientes, movimentações financeiras e projetos ainda não anunciados. Eduardo percebeu que os acessos vinham de dentro.
— De dentro da empresa do seu pai?
— Sim.
— E ele descobriu quem fazia isso?
Marcelo demorou a responder.
— Achamos que sim.
— “Achamos”?
— Porque três dias antes de morrer, ele marcou uma reunião com meu pai e disse que tinha provas suficientes para identificar a pessoa responsável.
Senti um vazio se abrir dentro de mim.
— Essa reunião aconteceu?
— Não.
Olhei para Ana.
Ela dormia novamente, alheia a tudo.
— Meu pai morreu antes.
— Na noite anterior.
Fechei os olhos.
Durante dezenove anos, eu tinha lembrado daquele acidente como uma tragédia aleatória.
Meu pai saindo cedo.
Minha mãe chorando na cozinha.
Dois policiais à porta.
Um funeral que eu mal conseguia compreender.
Agora cada lembrança parecia contaminada por uma pergunta nova.
— E vocês simplesmente deixaram isso desaparecer?
Marcelo endureceu.
— Eu tinha vinte e dois anos. Meu pai assumiu que Eduardo havia levado as provas com ele. Depois do acidente, os servidores da Vértice foram apagados, a empresa fechou, várias pessoas desapareceram do mercado e ninguém conseguiu ligar os pontos.
— Conveniente.
Ele sustentou meu olhar.
— Sim.
Aquilo me fez sentir ainda pior.
O carro entrou em uma garagem subterrânea cercada por portões de aço.
— Onde estamos?
— Em um imóvel seguro da empresa.
— Eu não pedi para vir para cá.
— Sei disso.
— Então abra a porta.
Marcelo não se mexeu.
— Elisa, a sua casa anterior está circulando na internet. Alguém rastreou a bolsa da Ana. Rafael esteve no apartamento da sua mãe esta manhã. Neste momento, voltar para qualquer endereço conhecido seria entregar você de bandeja.
Eu odiava o fato de ele estar certo.
O chefe da segurança saiu primeiro.
Marcelo desceu em seguida, mas permaneceu perto da porta, esperando minha decisão.
Depois de alguns segundos, saí com Ana nos braços.
O apartamento ficava no último andar.
Não havia luxo exagerado.
Apenas paredes claras, móveis discretos, janelas enormes e uma equipe de segurança trabalhando em silêncio.
Marcelo me levou até uma sala menor.
Sobre a mesa havia um notebook.
— Quero mostrar uma coisa.
Cruzei os braços.
— Tudo.
— Tudo o que eu puder confirmar.
— Não gostei dessa resposta.
Ele abriu um arquivo antigo digitalizado.
Na tela apareceu o nome do meu pai.
**EDUARDO MARTINS — ENGENHEIRO DE SISTEMAS — VÉRTICE DIGITAL.**
Abaixo havia uma fotografia.
Meu pai parecia muito mais jovem do que na minha memória.
Sorri sem querer.
Foi tão rápido que doeu.
Marcelo passou para a página seguinte.
Havia uma sequência de registros técnicos, horários e nomes de projetos que eu não entendia.
Então vi uma anotação escrita à mão.
**Se alguma coisa acontecer comigo, procure o Arquivo A-17.**
Meu coração disparou.
— Isso foi escrito por ele?
— A perícia da época confirmou a letra.
— O que é o Arquivo A-17?
— Ninguém sabe.
— Em dezenove anos ninguém descobriu?
— Não.
— E você acha que Rafael está procurando isso?
— Acho que ele descobriu que seu pai estava ligado à investigação.
— Como?
— Essa é a parte que ainda não entendemos.
Pensei no meu casamento.
Nos anos ao lado de Rafael.
Nas vezes em que ele perguntava sobre meu pai.
Nas vezes em que insistia para que eu visitasse minha mãe.
Nas caixas antigas que ele dizia querer organizar porque “ocupavam espaço”.
Uma lembrança surgiu.
— Meu Deus.
Marcelo percebeu imediatamente.
— O quê?
— Quando Ana nasceu, Rafael insistiu para irmos até a casa da minha mãe buscar algumas coisas antigas minhas.
— Que coisas?
— Fotos. Documentos escolares. Algumas caixas do meu pai.
— Ele mexeu nelas?
— Disse que estava procurando meu passaporte.
O rosto de Marcelo mudou.
— Encontrou?
— O passaporte estava na minha bolsa.
Ninguém falou.
Senti náusea.
— Ele sabia.
— Talvez soubesse que existia alguma coisa.
— E se casou comigo por isso?
A pergunta saiu antes que eu pudesse impedir.
Marcelo ficou em silêncio.
Aquilo me irritou.
— Diga.
— Não temos prova disso.
— Mas você pensou.
— Sim.
Afastei-me da mesa.
Meu casamento inteiro pareceu se deslocar dentro da minha cabeça.
As viagens.
As brigas.
As perguntas.
O divórcio.
Rafael dizendo que eu era paranoica.
Rafael desaparecendo por horas.
Rafael insistindo que eu vendesse objetos antigos.
Ana começou a se mexer.
Peguei a mamadeira e fui até uma poltrona.
Marcelo ficou a distância.
— Elisa, preciso perguntar uma coisa.
— Mais uma?
— Depois que seu pai morreu, sua mãe entregou algo diretamente para você? Um objeto, uma chave, uma carta?
— Eu tinha dez anos.
— Mesmo assim.
Pensei.
Uma caixa de música.
Um relógio quebrado.
Um livro com dedicatória.
Nada parecia importante.
Então me lembrei.
— Havia uma chave.
Marcelo ficou imóvel.
— Que chave?
— Meu pai tinha um chaveiro antigo de metal. Depois do funeral, minha mãe tirou uma chave dele e colocou dentro de uma pequena caixa com minhas coisas.
— Você ainda tem?
— Não sei.
— Onde estava a caixa?
Olhei para ele.
— Na casa da minha mãe.
Antes que Marcelo respondesse, o chefe da segurança entrou apressado.
— Senhor.
Ele segurava o tablet.
— A equipe que foi até o apartamento da mãe da Elisa acabou de chegar.
Levantei-me.
— Minha mãe está bem?
O homem hesitou.
Meu sangue gelou.
— Ela não está lá.
— O quê?
— O apartamento está vazio.
— Vazio como?
— Sem sinais de arrombamento.
Ele virou o tablet.
Na tela havia uma fotografia da sala da minha mãe.
Gavetas abertas.
Caixas reviradas.
Documentos espalhados.
Meu coração disparou.
Então vi algo sobre a mesa.
Uma fotografia minha quando criança.
Em cima dela havia uma chave de metal antiga.
Reconheci imediatamente.
— É aquela — sussurrei.
Marcelo aproximou-se da tela.
Ao lado da chave havia um bilhete.
O chefe da segurança ampliou a imagem.
A mensagem dizia:
**Elisa sabe onde fica a fechadura.**
Olhei para Marcelo.
— Mas eu não sei.
Ele continuou encarando a tela.
— Talvez seu pai estivesse contando com o fato de você não saber naquela época.
— O que isso significa?
Marcelo ergueu os olhos para mim.
— Significa que, se Rafael levou sua mãe, ele acredita que ela sabe onde Eduardo escondeu o Arquivo A-17.
Meu telefone vibrou.
Desta vez, a mensagem veio do número de Rafael.
Abri.
Era uma fotografia da minha mãe sentada em uma cadeira.
Viva.
Assustada.
Abaixo dela havia apenas uma frase:
**Traga a chave e venha sozinha.**
**Continua — clique na Parte 5 para continuar lendo.**







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