Fiquei encarando a fotografia da minha mãe até minha visão ficar embaçada.
— Ele levou minha mãe.
Minha voz saiu baixa, quase irreconhecível.
Marcelo se aproximou, mas não tentou tocar em mim.
— Elisa, não responda ainda.
— Ele está com ela.
— Eu sei.
— Então por que você está me dizendo para não responder?
— Porque essa mensagem não é sobre a chave.
Olhei para ele.
— Está literalmente dizendo para eu levar a chave.
— É sobre fazer você sair daqui sem proteção.
A raiva veio antes do medo.
— Minha mãe está sentada numa cadeira, assustada, e você quer transformar isso numa análise de segurança?
Marcelo sustentou meu olhar.
— Quero impedir que você seja a próxima pessoa sentada naquela cadeira.
Ana se assustou com minha voz e começou a chorar.
Apertei-a contra o peito imediatamente.
Aquele som me trouxe de volta.
Eu não era apenas filha naquele momento.
Era mãe.
E alguém tinha colocado um rastreador na bolsa da minha filha.
Marcelo apontou para o telefone.
— Rafael quer a chave, mas ele também quer você.
— Por quê?
— Porque talvez você seja a única pessoa capaz de reconhecer onde ela deve ser usada.
Balancei a cabeça.
— Já disse que não faço ideia.
— Conscientemente, talvez não.
Fiquei em silêncio.
O chefe da segurança aproximou-se.
— Podemos extrair dados da imagem. Reflexos, iluminação, metadados, qualquer coisa que ajude a localizar o ambiente.
— Façam isso — ordenou Marcelo.
Peguei o telefone antes que ele pudesse pedir.
Digitei apenas uma frase.
**Quero falar com minha mãe.**
Marcelo olhou para mim.
— Elisa...
— Preciso saber se ela está viva.
A resposta veio quase imediatamente.
**Dois minutos.**
O celular tocou.
Rafael.
Atendi e coloquei no viva-voz.
— Mãe?
Por um segundo, ouvi apenas uma respiração trêmula.
Então a voz dela surgiu.
— Elisa?
Meu corpo inteiro desabou por dentro.
— Mãe, você está machucada?
— Eu estou bem.
— Onde você está?
— Não sei.
Ouvi um movimento brusco.
Depois a voz de Rafael.
— Acabou.
— Não desligue! — gritei. — Rafael, se você tocar nela...
— Você sempre foi dramática demais.
Senti ódio daquela familiaridade.
Da forma como ele ainda falava comigo como se eu fosse a mulher que podia ser diminuída dentro da própria casa.
— O que você quer?
— A chave.
— Para quê?
Ele ficou em silêncio por um instante.
— Seu pai escondeu algo que não pertencia a ele.
Marcelo me encarou.
— O Arquivo A-17? — perguntei.
Do outro lado, Rafael parou de respirar por meio segundo.
Foi o suficiente.
Marcelo percebeu também.
— Então você sabe — disse Rafael.
— Sei que você passou anos mentindo para mim.
— Cuidado, Elisa.
— Você se casou comigo por causa disso?
O silêncio seguinte foi diferente.
Pesado.
— Rafael?
Ele soltou o ar lentamente.
— No começo, não.
Aquilo me atingiu mais forte do que eu esperava.
— No começo?
— Eu conheci você por acaso.
Fechei os olhos.
— E depois?
— Depois descobri quem era seu pai.
Meu estômago se contraiu.
Marcelo desviou o olhar por um instante.
— Quanto tempo depois?
— Isso importa?
— Para mim, importa.
— Dois anos depois de começarmos a namorar.
Senti como se alguém tivesse reescrito toda a minha vida na minha frente.
— E você ficou comigo porque queria encontrar o arquivo.
— Eu fiquei porque achei que você sabia onde estava.
Minha mão começou a tremer.
— E quando percebeu que eu não sabia?
Rafael riu sem humor.
— Já estávamos casados.
Não respondi.
Pensei em todas as vezes em que ele me chamou de distraída.
Em todas as caixas que desapareciam durante mudanças.
Nos papéis antigos que ele insistia em revisar.
No divórcio repentino.
Na facilidade com que ele simplesmente foi embora.
— Foi por isso que você me deixou?
— Eu deixei porque estava cansado de esperar.
Aquilo doeu, mas não da maneira que ele provavelmente esperava.
Porque, pela primeira vez, eu entendia que o fim do meu casamento talvez não tivesse acontecido porque eu não era suficiente.
Talvez tivesse acontecido porque eu nunca possuíra aquilo que Rafael realmente queria.
Marcelo fez um gesto discreto para o chefe da segurança continuar rastreando a chamada.
— Onde está minha mãe?
— Traga a chave.
— Eu nem estou com ela.
— Então mande seu novo amigo buscar.
Meu sangue gelou.
— Você sabe que estou com Marcelo.
— Todo mundo sabe agora.
Marcelo pegou uma folha e escreveu rapidamente:
**Pergunte quem mandou a foto.**
Respirei fundo.
— Foi você quem publicou minha fotografia?
Rafael não respondeu imediatamente.
— Não.
Marcelo franziu a testa.
— Quem foi?
— Você está fazendo as perguntas erradas.
A chamada caiu.
Fiquei olhando para o telefone.
— Ele disse que não publicou.
— Pode estar mentindo — falei.
— Pode — respondeu Marcelo. — Mas se não estiver, temos outra pessoa envolvida.
O chefe da segurança levantou os olhos do computador.
— Senhor, conseguimos alguma coisa.
Marcelo foi até ele.
— O quê?
— A foto da mãe dela foi tirada com um aparelho sem conexão de localização. Mas há um reflexo metálico atrás da cadeira.
Ele ampliou a imagem.
Uma placa.
Quase ilegível.
Depois de alguns ajustes, surgiram algumas letras.
**ARMAZÉM 12.**
— Conseguimos cruzar?
— Estamos tentando.
Outro agente entrou na sala.
— E encontramos isto no apartamento da mãe da Elisa.
Ele colocou uma pequena caixa de madeira sobre a mesa.
Reconheci imediatamente.
— Era do meu pai.
A tampa estava riscada, mas intacta.
Abri.
Dentro havia fotografias antigas, um relógio quebrado e um envelope amarelado.
Meu nome estava escrito à mão.
**Para Elisa, quando for adulta.**
Parei de respirar.
— Minha mãe nunca me deu isso.
Marcelo ficou ao meu lado.
— Abra.
Rasguei o envelope com cuidado.
Havia apenas uma folha.
A letra era do meu pai.
Eu reconheceria em qualquer lugar.
Li em voz alta.
— “Elisa, se algum dia alguém perguntar pela chave, não confie em quem disser conhecer a fechadura.”
Parei.
Marcelo ficou imóvel.
Continuei.
— “A chave não abre um cofre. Ela abre uma lembrança.”
Minha garganta apertou.
Na parte inferior da página havia um desenho simples.
Uma casa.
Uma árvore enorme ao lado.
E uma janela no segundo andar.
Levei a mão à boca.
Eu conhecia aquela casa.
Não porque tivesse morado lá.
Mas porque meu pai costumava me levar até ela quando eu era criança.
— Eu sei onde é.
Marcelo se virou rapidamente.
— Onde?
— Uma casa antiga em Campos do Jordão. Pertencia ao meu avô. Depois que ele morreu, ninguém mais usou.
O chefe da segurança já estava digitando.
— Temos endereço?
— Minha mãe deve saber.
A expressão de Marcelo mudou.
— Então Rafael pode saber também.
Olhei novamente para o desenho.
Havia algo que eu não tinha percebido antes.
Meu pai havia desenhado uma pequena estrela exatamente sob a janela.
Uma lembrança voltou tão forte que quase me fez perder o equilíbrio.
Eu tinha oito anos.
Meu pai levantando uma tábua solta no quarto do andar de cima.
Dizendo que aquele era nosso “lugar secreto”.
— Meu Deus.
Marcelo percebeu.
— Você lembrou de alguma coisa.
— O quarto.
— Que quarto?
— Meu pai escondia coisas debaixo do piso.
Ninguém falou.
Então o chefe da segurança recebeu uma ligação.
Atendeu.
Escutou por alguns segundos.
Seu rosto mudou.
— Encontramos o Armazém 12.
Levantei-me imediatamente.
— Onde?
Ele olhou para Marcelo antes de responder.
— Na estrada para Campos do Jordão.
Meu sangue gelou.
Marcelo fechou os olhos por um segundo.
— Rafael não quer que Elisa leve a chave até ele.
Olhei para o desenho da casa.
— Ele quer que eu mostre onde usar.
Marcelo assentiu.
— E isso significa que ele já está levando sua mãe para lá.
Segurei Ana com mais força.
— Então nós vamos chegar primeiro.
**Continua — clique na Parte 6 para continuar lendo.**







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