Marina não tocou no envelope imediatamente.
Ficou olhando para o próprio nome escrito na frente, como se aquelas duas palavras pudessem explodir se ela chegasse perto demais.
Rebeca tremia diante deles, encharcada, os cabelos grudados no rosto.
“Minha irmã escreveu isso”, disse ela. “Helena me fez prometer que eu nunca abriria.”
Marina finalmente pegou o envelope.
“Quando?”
“Há quase seis anos.”
Adriano franziu a testa.
Lívia parecia ter no máximo cinco ou seis anos.
“Antes de Lívia nascer?”, perguntou ele.
Rebeca assentiu.
“Helena já tinha medo naquela época.”
Marina passou o polegar pela borda lacrada.
“Medo de quem?”
Rebeca olhou para Lívia antes de responder.
“Não aqui.”
Marina percebeu o mesmo que Adriano.
A menina estava abraçada ao coelho de pelúcia, observando cada adulto com atenção demais para alguém de sua idade.
Marina se ajoelhou diante dela.
“Lívia, você pode ficar um pouquinho com a dona Teresa?”
Uma funcionária da unidade de acolhimento se aproximou.
Lívia hesitou.
“Minha tia vai embora de novo?”
Rebeca fechou os olhos.
A pergunta atingiu a sala com mais força do que qualquer acusação.
Ela se ajoelhou depressa.
“Eu não queria deixar você, meu amor.”
“Mas deixou.”
Rebeca levou a mão à boca.
Lívia não chorou.
Aquilo foi pior.
Ela apenas entregou a mão para Teresa e saiu pelo corredor.
Adriano observou a menina desaparecer e sentiu aquela mesma pressão estranha no peito que sentira no saguão do hotel.
Quando a porta da sala reservada se fechou, Marina rompeu o lacre.
Dentro havia três folhas dobradas e uma pequena chave presa com fita adesiva.
Marina abriu a primeira página.
A caligrafia era apertada, irregular.
Ela começou a ler em silêncio.
Poucos segundos depois, parou.
“Leia em voz alta”, pediu Adriano.
Marina lançou-lhe um olhar frio.
“Foi escrito para mim.”
“Tudo isso começou dentro da minha família.”
“Exatamente por isso você não decide nada.”
Rebeca interrompeu antes que a discussão crescesse.
“Helena queria que vocês dois soubessem.”
Marina virou-se para ela.
“Você disse que o envelope era para mim.”
“Porque ela sabia que você jamais confiaria em um Valente.”
O silêncio que se seguiu foi pesado.
Marina voltou à carta.
Então leu.
“Marina, se você está recebendo isso, significa que eu falhei em manter Lívia longe deles.”
Adriano ficou imóvel.
Marina continuou.
“Seu pai não roubou o dinheiro da Fundação Valente.”
As mãos dela começaram a tremer.
Ela parou novamente.
Durante onze anos, Marina ouvira versões daquela história.
Auditorias.
Documentos.
Contas bancárias.
Testemunhos.
Tudo apontando para seu pai.
Ele perdera o emprego, a reputação e quase tudo o que possuía.
Morrera três anos depois ainda insistindo que era inocente.
Marina respirou fundo e seguiu.
“Eu trabalhava no arquivo financeiro. Descobri transferências feitas usando as credenciais dele depois do expediente. Tentei avisá-lo. Quando percebi que estavam me observando, copiei alguns registros.”
Adriano sentiu o estômago endurecer.
“Quem eram ‘eles’?”
Marina continuou lendo.
“Não confie em ninguém apenas porque carrega o sobrenome Valente.”
Ela levantou os olhos.
Adriano não desviou.
“Havia mais?”, perguntou ele.
Marina olhou para a segunda página.
“Helena escreveu que escondeu as cópias em um lugar ligado ao projeto social onde conheceu meu pai.”
Rebeca apontou para a chave.
“Foi a única coisa que ela me entregou junto com a carta.”
Marina soltou a pequena chave da fita.
Não havia etiqueta.
Apenas o número 317 gravado no metal.
Adriano aproximou-se.
“Isso parece chave de guarda-volumes.”
“Ou de caixa privada”, respondeu Marina.
Rebeca balançou a cabeça.
“Helena nunca me contou.”
Marina voltou à carta.
As últimas linhas eram diferentes.
Mais trêmulas.
“Se alguma coisa acontecer comigo, não procure a polícia primeiro. Há pessoas que saberão que você começou a fazer perguntas.”
Marina parou.
Adriano encarou Rebeca.
“Você disse que Helena foi morta.”
Rebeca baixou a cabeça.
“Ela morreu há quatro meses.”
Marina empalideceu.
“Como?”
“Disseram que foi um acidente de carro.”
“Disseram?”
Rebeca apertou as mãos.
“Ela estava dirigindo numa estrada que nunca usava. O carro saiu da pista de madrugada. A polícia encerrou tudo rápido.”
Adriano cruzou os braços.
“E por que você ficou com Lívia?”
“Porque Helena deixou documentos me dando autorização temporária. Ela me disse que, se acontecesse alguma coisa, eu deveria mudar de cidade e nunca seguir a mesma rotina.”
Marina olhou para ela com dureza.
“Então por que abandonou uma criança na porta de um hotel?”
Rebeca começou a chorar.
“Porque três dias atrás um homem entrou no meu apartamento enquanto Lívia estava na escola.”
Adriano ficou atento.
“Roubaram alguma coisa?”
“Não.”
Ela ergueu os olhos.
“Foi isso que me assustou.”
Rebeca puxou o celular do bolso e abriu uma fotografia.
Na imagem, um quarto simples estava intacto.
Nada quebrado.
Nada revirado.
Sobre a cama havia apenas um objeto.
Um pingente de prata.
Igual ao da fotografia do pai de Adriano.
Marina deu um passo para trás.
Rebeca continuou.
“Naquela noite, recebi uma mensagem de um número desconhecido.”
Ela abriu outra imagem.
Adriano leu as palavras na tela.
VOCÊ NÃO CONSEGUE ESCONDÊ-LA PARA SEMPRE.
Marina ficou pálida.
“Foi quando você levou Lívia ao hotel?”
“Helena tinha me dado uma última instrução.”
Rebeca olhou diretamente para Adriano.
“Se algum dia eles encontrassem Lívia, eu deveria levá-la ao Hotel Valente.”
Adriano franziu o cenho.
“Por quê?”
Rebeca soltou o ar lentamente.
“Ela nunca explicou.”
Então Marina percebeu que ainda havia uma terceira folha no envelope.
Era menor.
Dobrado dentro dela havia um recorte antigo de jornal.
A fotografia mostrava o pai de Marina saindo de um prédio da Fundação Valente no dia em que o escândalo se tornara público.
Atrás dele, quase fora do enquadramento, estava Helena.
Mas Marina não estava olhando para Helena.
Estava olhando para o homem ao lado dela.
Adriano também o reconheceu.
Seu rosto perdeu toda a cor.
“Isso é impossível.”
Marina virou lentamente o recorte para ele.
O homem na fotografia era o pai de Adriano.
E ele estava segurando a mão de Helena.
No verso do recorte, havia apenas uma frase escrita por ela:
“Pergunte a Adriano por que o pai dele me protegeu antes de me entregar.”
Adriano encarou aquelas palavras.
“Eu não sei.”
Marina dobrou a carta com cuidado.
“Então está na hora de descobrir.”
Ela colocou a chave número 317 sobre a mesa entre os dois.
“E começamos por isso.”
**Continua — clique na Parte 4 para continuar lendo.**







No comments yet