Entretenimento

“Você conhece alguém que queira uma menininha?” — a pergunta de Lívia parou o bilionário Adriano Valente, mas o nome de sua mãe escondia uma ligação impossível de ignorar

A chave número 317 levou menos de uma hora para encontrar seu primeiro destino.

Marina reconheceu o formato antes mesmo de Adriano terminar de falar com o chefe da segurança.

“Estação Central”, disse ela. “Os antigos guarda-volumes do terminal rodoviário.”

Adriano desligou o telefone.

“Meu pessoal confirmou. O modelo da chave foi usado lá por quase vinte anos.”

Rebeca se levantou imediatamente.

“Então vamos.”

“Você fica com Lívia”, respondeu Marina.

Rebeca abriu a boca para protestar.

“Ela já foi deixada sozinha uma vez por sua causa hoje”, Marina acrescentou. “Não vai acontecer de novo.”


A culpa no rosto de Rebeca encerrou a discussão.

Adriano e Marina saíram juntos pouco depois, acompanhados apenas por um segurança de confiança. Nenhum carro oficial da família Valente. Nenhum motorista habitual. Adriano usou um veículo comum retirado da garagem de serviço do hotel.

Marina percebeu.

“Você está com medo de que alguém da sua própria equipe esteja envolvido?”

“Estou aprendendo a não confiar em ninguém só porque trabalha para mim.”

“Onze anos atrasado.”

Adriano aceitou o golpe sem responder.

A Estação Central havia sido reformada várias vezes, mas uma ala antiga ainda mantinha fileiras de pequenos compartimentos metálicos para armazenamento.

O número 317 ficava quase no fim do corredor.

Marina inseriu a chave.


Ela não girou.

Tentou novamente.

Nada.

Adriano se aproximou.

“Talvez esteja enferrujada.”

“Ou seja a chave errada.”

Então Marina viu algo gravado acima da fechadura.

Uma pequena placa de metal dizia:

PROJETO HORIZONTE — 317.

Ela parou de respirar por um instante.


“O Projeto Horizonte era o programa social que meu pai coordenava.”

Adriano olhou para ela.

“O mesmo mencionado na carta de Helena?”

“Sim.”

Marina deslizou a mão pela lateral do compartimento.

Encontrou uma segunda trava quase invisível.

Não exigia outra chave.

Exigia que a primeira fosse pressionada para dentro antes de girar.

Um clique seco ecoou pelo corredor.

A porta se abriu.


Dentro havia apenas uma caixa de papelão envolvida por plástico.

Marina retirou-a com cuidado.

Adriano não tocou em nada.

Dentro estavam quatro pastas, uma fita de vídeo antiga e um pequeno gravador digital sem bateria.

Na primeira pasta havia cópias de transferências bancárias.

Marina reconheceu imediatamente o nome do pai.

As movimentações que haviam sido usadas para acusá-lo estavam ali.

Mas também havia algo que nunca aparecera na investigação pública.

Horários de acesso.

Datas.


Códigos internos.

Adriano pegou uma das páginas.

“Essas transferências foram autorizadas às duas e dezessete da manhã.”

Marina folheou outra.

“Meu pai estava em Belo Horizonte nessa noite. Eu me lembro. Foi o aniversário da minha mãe.”

Adriano continuou analisando.

“E aqui.”

Ele apontou para uma sequência numérica.

“As credenciais dele foram acessadas de um terminal dentro da sede da Fundação Valente.”

Marina levantou os olhos.


“Então alguém usou o nome dele.”

“Parece que sim.”

Ela fechou a pasta devagar.

Durante onze anos, aquela possibilidade vivera apenas nas palavras de um homem desacreditado.

Agora havia papel.

Datas.

Registros.

Provas.

Marina engoliu em seco.

“Meu pai morreu dizendo que alguém tinha armado tudo.”


Adriano não tentou consolá-la.

Sabia que não tinha esse direito.

A segunda pasta continha documentos internos assinados pelo pai de Adriano.

Marina endureceu ao ver o nome.

“Augusto Valente.”

Adriano pegou a primeira folha.

Era uma ordem para suspender Helena Martins de suas funções.

Outra proibia seu acesso aos arquivos financeiros.

Uma terceira determinava que nenhum funcionário fornecesse informações a ela.

Marina riu sem humor.


“Aí está. Ele a protegeu antes de entregá-la.”

Adriano não respondeu de imediato.

Virou a página.

Então franziu a testa.

“Espere.”

No rodapé havia uma sequência de iniciais escritas à mão.

A.V. — P.C. 14.

Marina não entendeu.

Adriano ficou imóvel.

“Meu pai usava códigos quando não queria registrar nomes.”


“E você sabe o que isso significa?”

“P.C. era proteção corporativa.”

Marina o encarou.

“Proteção?”

Adriano continuou lendo.

Na folha seguinte havia uma autorização de viagem emitida no mesmo dia da suspensão de Helena.

Destino: Porto Alegre.

Nome falso.

Passagem comprada em dinheiro.

Acompanhamento de segurança por setenta e duas horas.


Marina levou alguns segundos para compreender.

“Seu pai não a expulsou.”

“Ele fez parecer que expulsou.”

“Então por que Helena escreveu que ele a entregou?”

Adriano não soube responder.

A terceira pasta trouxe algo ainda pior.

Fotografias.

Homens entrando na Fundação durante a madrugada.

Veículos sem identificação.

Reuniões privadas.

E, no meio delas, uma imagem mostrava Augusto Valente discutindo com um homem de terno escuro.

O rosto do segundo homem estava parcialmente virado.

Mas Adriano o reconheceu.

Seu maxilar travou.

Marina percebeu.

“Quem é?”

Adriano demorou demais para responder.

“Caetano Valente.”

“Seu tio?”

Ele assentiu.

Caetano era o irmão mais novo de Augusto e, naquela época, diretor financeiro da Fundação.

Marina puxou outra fotografia.

Caetano aparecia entrando na sala de arquivos na noite de uma das transferências fraudulentas.

“Ele tinha acesso?”

“Total.”

“E ainda faz parte da família?”

Adriano olhou para ela.

“Hoje ele controla o conselho administrativo de três empresas Valente.”

Marina ficou em silêncio.

A descoberta transformava tudo.

Mas ainda não era suficiente.

Uma fotografia não provava que Caetano havia desviado dinheiro.

Muito menos que estivesse ligado à morte de Helena.

Adriano pegou o gravador digital.

“Precisamos ouvir isso.”

Levaram a caixa para uma sala privada de manutenção dentro da própria estação. O segurança conseguiu um carregador compatível em uma loja próxima.

Quando o aparelho ligou, havia apenas um arquivo.

Duração: sete minutos e vinte e nove segundos.

Marina apertou play.

Primeiro vieram ruídos.

Uma porta.

Passos.

Depois a voz de Helena.

Baixa.

Assustada.

“Se você está ouvindo isso, é porque Augusto não conseguiu cumprir a promessa.”

Adriano fechou os olhos por um segundo.

Helena continuou.

“Ele descobriu tarde demais quem estava usando as contas do Projeto Horizonte.”

Marina se inclinou para a frente.

“Augusto tentou tirar meu pai da investigação?”, sussurrou.

A gravação respondeu quase imediatamente.

“Augusto queria limpar o nome de Roberto Almeida sem alertar a pessoa responsável.”

Marina cobriu a boca.

Era a primeira vez em onze anos que alguém além de sua própria família dizia que seu pai era inocente.

Então a voz de Helena mudou.

“Mas houve um problema.”

Um ruído abafado surgiu na gravação.

Como se ela estivesse olhando por cima do ombro.

“Alguém percebeu que Augusto estava me ajudando.”

Adriano apertou o gravador.

Helena respirou fundo.

“Na noite em que ele prometeu me tirar do país, ele mudou de ideia.”

Marina ficou rígida.

“Por quê?”

A resposta veio segundos depois.

“Porque descobriu quem era o verdadeiro beneficiário do dinheiro.”

Adriano e Marina se entreolharam.

Helena pronunciou então uma frase quase inaudível.

“Não era Caetano.”

Adriano congelou.

Marina voltou o áudio alguns segundos.

Ouviram novamente.

Não era Caetano.

O arquivo continuou.

“Caetano movimentava as contas. Mas fazia isso para outra pessoa.”

Um ruído de porta interrompeu Helena.

Depois sua voz surgiu apressada.

“Se qualquer coisa acontecer comigo, procure o relatório azul. Augusto escondeu o nome lá.”

A gravação terminou.

Marina abriu a caixa outra vez.

Havia pasta branca.

Cinza.

Preta.

Vermelha.

Nenhuma azul.

Adriano começou a retirar tudo.

Nada.

Então o telefone de Marina tocou.

Era Rebeca.

Ela atendeu imediatamente.

A voz do outro lado estava em pânico.

“Marina, volte agora.”

“Rebeca, o que aconteceu?”

“Lívia sumiu.”

Adriano já estava de pé.

Marina ficou sem voz.

Rebeca começou a chorar.

“Ela não saiu sozinha. As câmeras mostram um homem levando ela pela mão.”

Marina apertou o telefone.

“Você viu o rosto dele?”

Silêncio.

Então Rebeca respondeu:

“Vi.”

Adriano encarou Marina.

“Quem?”

Marina empalideceu.

“Caetano Valente.”

**Continua — clique na Parte 5 para continuar lendo.**

No comments yet