Gustavo demorou alguns segundos para perceber que estava prendendo a respiração.
— Sofia... quem disse isso para você?
A menina puxou o cobertor até o peito.
— O tio Daniel.
— Quando?
— Muitas vezes.
Gustavo se sentou devagar na beirada da cama. Do outro lado do quarto, os dois investigadores trocaram um olhar, mas nenhum deles interrompeu.
— O que exatamente ele dizia?
Sofia apertou os dedos em torno do tecido.
— Que você não era meu pai de verdade. Que meu pai de verdade ainda estava vivo e que, quando tudo estivesse pronto, eu teria outro nome, outra escola e outra família.
Gustavo sentiu uma pressão dolorosa no peito.
— E sua mãe dizia a mesma coisa?
Sofia assentiu.
— Ela dizia que Sofia era um nome que dava problema.
A assistente social, que permanecia perto da porta, abaixou os olhos para fazer uma anotação.
Gustavo tentou manter a voz firme.
— Que tipo de problema?
— Ela dizia que enquanto eu fosse Sofia Almeida, algumas pessoas podiam encontrar o dinheiro.
O quarto ficou em silêncio.
Um dos investigadores, Marcelo Nogueira, aproximou-se.
— Sofia, você sabe que dinheiro era esse?
Ela balançou a cabeça.
— Só sei que a mamãe ficava brava quando eu perguntava.
Gustavo olhou para Marcelo.
A herança.
R$ 4,8 milhões.
Mais de R$ 1,6 milhão já retirados.
Não estavam apenas roubando dinheiro. Estavam apagando a criança que legalmente tinha direito a ele.
Marcelo fechou o bloco de anotações.
— Sr. Almeida, precisamos considerar que a identidade falsa não foi criada apenas para esconder movimentações financeiras. Pode ter sido preparada para retirar sua filha legalmente da sua vida.
Gustavo se levantou.
— Vanessa declarou que eu estava morto.
— Exatamente.
— E Daniel administrava o patrimônio dela.
Marcelo assentiu.
— O que significa que os dois tinham acesso a partes diferentes do mesmo sistema.
A porta se abriu e o advogado de Gustavo, Henrique Vasconcelos, entrou carregando o notebook debaixo do braço.
Seu rosto dizia que as notícias não eram boas.
— Gustavo, precisamos conversar.
Eles saíram para o corredor.
Henrique abriu o computador sobre uma pequena mesa junto às máquinas de café.
— Eu encontrei uma segunda sequência de documentos.
— Mais falsificações?
— Muito mais organizada do que isso.
Na tela havia uma petição protocolada oito meses antes.
Gustavo começou a ler.
Pedido de alteração de guarda.
Pedido de reconhecimento de nova filiação.
Pedido de mudança de nome.
Seu estômago se contraiu.
— Isso chegou a ser aprovado?
— Não. Foi preparado, mas nunca protocolado oficialmente.
Henrique rolou a página.
No campo destinado ao pai da criança havia um nome.
Eduardo Valente.
Gustavo ficou olhando para ele.
Valente.
O mesmo sobrenome da falsa certidão de nascimento de Sofia.
Emilly Valente.
— Quem é Eduardo Valente?
Henrique respirou fundo.
— Ainda estou tentando descobrir.
Marcelo, que havia se aproximado, leu o nome por cima do ombro.
— Podemos pesquisar nos bancos de dados.
Gustavo apontou para a tela.
— Daniel disse à minha filha que o pai verdadeiro dela estava vivo. Vanessa criou uma certidão usando esse sobrenome. Isso não é coincidência.
— Provavelmente não — respondeu Marcelo. — Mas não tire conclusões ainda.
Gustavo fechou os olhos por um instante.
Nove anos.
Ele estivera no hospital quando Sofia nasceu.
Trocara as primeiras fraldas.
Passara noites caminhando pelo corredor com a filha no colo quando ela tinha cólicas.
Ensinara Sofia a andar de bicicleta.
Estivera na primeira apresentação da escola, na primeira febre alta, no primeiro dente perdido.
Nenhum documento falsificado poderia apagar aquilo.
Mas alguém estava tentando.
Seu celular vibrou.
Era uma notificação do sistema de segurança de sua casa.
MOVIMENTO DETECTADO — ESCRITÓRIO.
Gustavo franziu a testa.
— A polícia não isolou minha casa?
Marcelo pegou o telefone.
— Isolou.
Gustavo abriu a câmera.
A imagem apareceu granulada.
O escritório estava quase escuro.
Uma pessoa de boné e jaqueta atravessou rapidamente o cômodo.
Depois desapareceu atrás da mesa.
Marcelo imediatamente ligou para a equipe que permanecia na residência.
— Temos alguém dentro da casa.
Segundos depois, ouviu-se sua voz endurecer.
— Como assim a porta dos fundos estava aberta?
Gustavo ampliou a imagem.
A pessoa reapareceu segurando uma pequena caixa preta.
Ele reconheceu na mesma hora.
— Meu cofre portátil.
Henrique olhou para ele.
— O que tem aí?
— Documentos antigos. Passaportes. Certidões. Algumas coisas da Sofia.
Na câmera, a pessoa correu em direção ao corredor.
Então o sinal desapareceu.
TELA OFFLINE.
— Droga.
Marcelo já estava caminhando para o elevador.
— Fique aqui.
— Nem pensar.
— Sua filha precisa de você.
Essas palavras fizeram Gustavo parar.
Marcelo se virou.
— Se isso estiver relacionado a Vanessa e Daniel, quem entrou naquela casa pode estar tentando destruir alguma coisa que eles esqueceram.
Gustavo olhou através do vidro do quarto.
Sofia dormia novamente.
Ele sabia que o investigador tinha razão.
Vinte minutos depois, Marcelo telefonou.
— O invasor fugiu antes de nossa equipe chegar ao escritório.
— Levou o cofre?
— Sim.
Gustavo apertou o celular.
— Então perdemos tudo.
— Não exatamente.
Houve uma pausa.
— Ele deixou alguma coisa para trás.
— O quê?
— Uma fotografia.
Marcelo enviou a imagem.
Gustavo abriu.
Era uma foto antiga, dobrada ao meio.
Vanessa parecia ter pouco mais de vinte anos.
Daniel estava ao lado dela.
E entre os dois havia um terceiro homem.
Alto.
Cabelo escuro.
Sorrindo para a câmera.
No verso, alguém havia escrito à mão:
“Vanessa, Daniel e Eduardo — 12 de agosto.”
Gustavo sentiu um frio percorrer sua nuca.
Eduardo.
Henrique olhou para a tela.
— Eduardo Valente?
Antes que Gustavo pudesse responder, Sofia gritou dentro do quarto.
Ele correu.
A menina estava sentada na cama, pálida, respirando depressa.
— Papai!
Gustavo segurou suas mãos.
— Estou aqui.
Ela olhou para o celular dele.
Para a fotografia ainda aberta na tela.
Seu rosto mudou imediatamente.
— É ele.
Gustavo sentiu o coração bater mais forte.
— Quem?
Sofia apontou para Eduardo.
— Esse homem foi à nossa casa.
— Quando?
— Na semana passada.
— O que ele queria?
Os olhos de Sofia se encheram de lágrimas.
— Ele discutiu com a mamãe e com o tio Daniel.
Gustavo se inclinou.
— Você ouviu o que eles disseram?
Sofia hesitou.
Então sussurrou:
— Ele disse que não deixaria eles me levarem embora.
Gustavo ficou imóvel.
— E depois?
A menina apertou sua mão.
— A mamãe disse que era tarde demais.
— Tarde demais para quê?
Sofia engoliu em seco.
— Porque, nos documentos, Sofia Almeida já não existia mais.
**Continua — toque na Parte 4 para continuar lendo.**







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