Entretenimento

Voltei mais cedo de uma viagem e encontrei minha filha de nove anos trancada numa despensa — então ela disse que sua mãe a obrigava a se chamar Emilly

Gustavo não esperou Marcelo terminar.

— Vamos.

O cemitério ficava a menos de vinte minutos dali. Quando chegaram, duas viaturas já bloqueavam a entrada lateral. Havia marcas recentes de pneus na terra úmida.

A lápide de Augusto Almeida estava deslocada.

A terra havia sido aberta às pressas.

Ao lado da cova, uma pá ainda estava caída no chão.

Gustavo parou. Por um segundo, toda a investigação desapareceu. Restou apenas o túmulo do pai violado.

— Daniel fez isso?

— Ainda não sabemos — respondeu Marcelo.

Um policial chamou atrás de um mausoléu.


— Encontramos alguém!

Camila Valente estava sentada no chão, com as mãos erguidas. O casaco que imitava o de Vanessa estava coberto de barro.

— Onde está Daniel? — perguntou Marcelo.

Camila começou a chorar.

— Ele me deixou aqui porque não encontrou o que queria.

Gustavo se aproximou.

— O que ele estava procurando?

— Uma caixa de metal.

Eduardo apareceu numa chamada de vídeo no celular de Marcelo. Quando viu a irmã, fechou os olhos.

— Camila, chega.


Ela respirou fundo.

— Augusto descobriu Daniel anos atrás. Antes de morrer, pediu que uma caixa fosse guardada junto ao jazigo.

— O que havia nela? — perguntou Gustavo.

— Um livro-caixa. Nomes, valores, empresas. Tudo o que Daniel movimentava antes de Sofia nascer.

Gustavo sentiu o estômago revirar.

— E você sabia?

Camila assentiu.

— Eu ajudei a montar algumas empresas.

Eduardo ficou pálido.

— Você me disse que eram estruturas legais.


— No começo eram. Depois Daniel começou a usar documentos de clientes, contas antigas e procurações. Quando Vanessa apareceu, ele percebeu que tinha alguém dentro da família capaz de fornecer assinaturas e acesso à rotina de Gustavo.

— E Sofia? — perguntou Gustavo.

Camila desviou o olhar.

— Virou o centro do plano quando o fundo patrimonial passou a valer muito mais do que Daniel esperava.

— Você sabia que estavam mudando a identidade dela? — perguntou Eduardo.

— Soube depois.

Gustavo não demonstrou compaixão.

— Minha filha era trancada no escuro para aprender a esquecer o próprio nome.

Camila baixou a cabeça.

Aquela frase fez Gustavo lembrar de algo que nunca parecera importante: nos últimos meses de vida, Augusto evitava ficar sozinho com Daniel. Em reuniões de família, mudava de assunto quando o filho entrava na sala. Na época, Gustavo atribuíra tudo à doença e ao cansaço. Agora, cada silêncio parecia ter outro significado.


— Meu pai acreditava que Daniel pudesse machucá-lo? — perguntou.

Camila demorou a responder.

— Ele acreditava que Daniel faria qualquer coisa para impedir que as contas fossem abertas.

— Inclusive contra a própria família?

Camila ergueu os olhos.

— Principalmente contra a própria família, porque era onde ele sabia exatamente quem confiaria nele.

Marcelo apontou para o túmulo.

— Daniel encontrou a caixa?

— Não. Augusto mudou de ideia no último momento.

— Como você sabe?


— O funcionário que deveria guardar a caixa ainda está vivo. Daniel o encontrou ontem.

— Nome.

— Osvaldo Ribeiro.

Marcelo começou a pedir uma busca, mas Gustavo percebeu algo.

— Se Daniel sabia que a caixa não estava aqui, por que abrir o túmulo?

Camila hesitou.

— Porque Osvaldo disse que Augusto deixou uma segunda prova no jazigo.

Um policial chamou.

Entre a terra removida havia uma pequena cápsula plástica quebrada.

Dentro dela estava uma chave antiga com uma etiqueta metálica.


“Casa — escritório.”

Gustavo reconheceu imediatamente.

— Era da casa do meu pai.

A propriedade havia sido vendida anos antes, mas uma lembrança voltou.

Quando Augusto vendeu a casa, mandou retirar o antigo armário de madeira do escritório e instalá-lo num depósito da família.

Um depósito administrado por Daniel.

— Eu sei onde essa chave ainda funciona.

Quarenta minutos depois, a polícia cercou o galpão.

A chave abriu o velho armário.

Atrás das prateleiras havia um compartimento estreito.


E nele, a caixa de metal.

Daniel procurara no lugar errado.

Marcelo abriu a caixa diante de testemunhas.

Dentro estavam o livro-caixa descrito por Camila, procurações, registros de empresas e vários envelopes.

Um tinha o nome de Vanessa.

Outro, o de Daniel.

Um terceiro trazia uma anotação de Augusto:

“Compare as assinaturas de Vanessa com os documentos de Sofia.”

Henrique recebeu fotografias dos papéis.

Poucos minutos depois, ligou.


— Gustavo, isso muda a dimensão do caso.

— O quê?

Henrique mostrou dois documentos.

Um autorizava retirada de recursos do fundo.

O outro era uma declaração supostamente assinada por Vanessa.

— As assinaturas são diferentes — disse Gustavo.

— Exato. Daniel falsificava Vanessa também em algumas operações.

Gustavo ficou em silêncio.

Vanessa continuava responsável pelo que fizera com Sofia: a identidade falsa, a violência, o dinheiro gasto.

Mas Daniel construíra uma fraude ainda maior ao redor de todos eles.


Marcelo recebeu uma mensagem.

— Temos um alerta.

Daniel tentara usar o passaporte falso de Eduardo numa rodovia próxima à fronteira.

— Ele está fugindo.

— E agora sabemos para onde.

Entre os papéis havia uma lista de propriedades ligadas à Horizonte Gestão Familiar. Uma ficava perto da fronteira.

Antes de entrar no carro, Gustavo recebeu uma ligação do hospital.

— Papai?

Era Sofia.

— Estou aqui.


— Você encontrou meu nome?

Gustavo olhou para a caixa nas mãos da perícia.

— Encontrei as provas para recuperar tudo que tiraram de você.

— E a mamãe?

— Ela vai ter que responder pelo que fez.

— E o tio Daniel?

Marcelo mostrou uma câmera rodoviária. Daniel dirigia em alta velocidade. No banco do passageiro havia uma mochila.

Henrique acabara de confirmar que parte dos R$ 740 mil desaparecidos fora convertida em ativos facilmente transportáveis.

Gustavo respondeu:

— Ele também.

Pouco depois, o ponto de localização do carro parou.

— Ele saiu da estrada — disse Marcelo.

Uma equipe local encontrou o veículo vazio.

A porta do motorista estava aberta.

A mochila havia desaparecido.

No banco havia apenas um envelope.

Na frente:

“Para Gustavo.”

Dentro havia uma única fotografia.

Sofia, ainda bebê, no colo de Augusto.

No verso, Daniel escrevera:

“Você ainda não sabe por que seu pai tinha tanto medo de mim.”

**Continua — toque na Parte 9 para continuar lendo.**

No comments yet