Gustavo encarou a filha por alguns segundos, tentando compreender o peso daquela frase.
Nos documentos, Sofia Almeida já não existia mais.
— Quem disse isso exatamente? — perguntou ele.
— A mamãe.
— E Eduardo ouviu?
Sofia assentiu.
— Ele ficou muito bravo. Disse que ela não podia apagar uma criança só porque era mais fácil mexer no dinheiro com outro nome.
Gustavo sentiu a mandíbula endurecer.
— E o tio Daniel?
— Ele mandou Eduardo ir embora.
— Eles brigaram?
Sofia baixou os olhos.
— O tio Daniel disse que, se Eduardo continuasse aparecendo, tudo o que aconteceu nove anos atrás ia voltar.
Gustavo ficou imóvel.
Nove anos atrás.
O ano em que Sofia nascera.
A porta se abriu, e Henrique entrou acompanhado de Marcelo.
— Encontramos Eduardo Valente — disse o investigador.
Gustavo se virou imediatamente.
— Onde?
Marcelo ergueu o celular.
— Não exatamente onde. Encontramos registros dele.
Eduardo Valente, quarenta e um anos.
Engenheiro civil.
Sem antecedentes criminais.
Nos últimos oito anos, vivera em Curitiba.
Seis semanas antes, porém, alugara um apartamento a menos de quatro quilômetros da casa de Gustavo.
— Ele voltou justamente agora? — perguntou Henrique.
— Parece que sim.
Marcelo deslizou o dedo pela tela.
— E há outra coisa. Eduardo procurou um escritório especializado em direito de família três meses atrás.
— Para quê?
— Ainda não sabemos. Mas conseguimos confirmar uma consulta.
Gustavo olhou novamente para Sofia.
— Ele falou com você quando foi à nossa casa?
— Só depois que a mamãe saiu da sala.
— O que ele disse?
A menina hesitou.
— Perguntou se eu lembrava dele.
— E você lembrava?
— Não.
Ela respirou fundo.
— Então ele disse: “Isso é bom. Significa que ainda dá tempo de consertar algumas coisas.”
Marcelo e Henrique se entreolharam.
Gustavo percebeu.
— Vocês acham que Eduardo estava tentando ajudar Sofia.
— É uma possibilidade — respondeu Marcelo. — Mas ainda não sabemos qual é a ligação dele com Vanessa, Daniel ou com a identidade falsa.
Henrique abriu o notebook.
— Talvez isto ajude.
Ele mostrou um conjunto de movimentações bancárias.
— Passei as últimas horas separando os saques da herança de Sofia.
Havia transferências para empresas de decoração, boutiques, restaurantes e prestadores de serviços.
Mas outras movimentações chamavam atenção.
Pagamentos mensais.
Valores relativamente pequenos.
Sempre para a mesma empresa.
Valente Consultoria Patrimonial.
Gustavo apontou para o nome.
— Eduardo?
— A empresa pertence a ele.
— Então ele recebeu dinheiro da herança?
— Durante quase dois anos.
Marcelo franziu a testa.
— Quanto?
— Aproximadamente cento e oitenta mil reais.
Gustavo sentiu a raiva subir novamente.
— Então ele fazia parte disso.
— Talvez — disse Henrique. — Mas há um detalhe.
Ele abriu outro documento.
— Três meses atrás, os pagamentos pararam.
Na mesma semana, Eduardo devolveu quarenta mil reais ao fundo de Sofia.
Depois enviou duas notificações extrajudiciais para Daniel exigindo acesso aos registros completos da administração patrimonial.
Gustavo leu aquilo duas vezes.
— Daniel respondeu?
— Não oficialmente.
Henrique fechou uma janela e abriu outra.
— Mas dois dias depois da segunda notificação, Vanessa iniciou o processo para transformar Sofia Almeida em Emilly Valente.
O corredor pareceu ficar mais frio.
Gustavo olhou para Marcelo.
— Eles usaram o sobrenome de Eduardo depois que ele começou a questioná-los.
— É o que parece.
— Para incriminá-lo?
— Ou para construir uma história em que ele aparecesse como pai — respondeu Marcelo.
Gustavo passou a mão pelo rosto.
Tudo parecia se encaixar e, ao mesmo tempo, abrir novas perguntas.
Se Eduardo estava envolvido, por que tentaria impedir Vanessa?
Se não estava, por que recebera dinheiro?
E por que Daniel dissera a Sofia que seu pai verdadeiro ainda estava vivo?
O telefone de Marcelo vibrou.
Ele leu a mensagem e seu semblante mudou.
— Encontraram o carro usado na fuga da sua casa.
— E o cofre?
— Não estava lá.
— Quem dirigia?
— O carro foi abandonado.
Marcelo fez uma pausa.
— Mas havia sangue no banco traseiro.
Sofia apertou imediatamente a mão do pai.
Gustavo percebeu o medo no rosto dela.
— Está tudo bem — disse, embora não tivesse certeza disso.
Marcelo se afastou alguns passos para atender outra ligação.
Henrique permaneceu em silêncio.
Minutos depois, o investigador voltou.
— Gustavo, precisamos falar sem Sofia ouvir.
A assistente social conduziu a menina até outra área do quarto para conversar com uma enfermeira.
Marcelo baixou a voz.
— Encontramos uma impressão digital parcial dentro do veículo.
— De quem?
— Eduardo Valente.
Gustavo sentiu o estômago afundar.
— Então ele invadiu minha casa.
— Não necessariamente.
— A digital dele estava no carro.
— No banco traseiro.
Gustavo compreendeu.
— Você acha que ele estava sendo levado.
Marcelo assentiu lentamente.
— Existe essa possibilidade.
Nesse momento, o celular de Gustavo tocou.
Número desconhecido.
Marcelo fez sinal para que ele atendesse e colocou o aparelho no viva-voz.
— Alô?
Durante alguns segundos, apenas uma respiração pesada veio do outro lado.
Então uma voz masculina falou:
— Gustavo Almeida?
— Quem é?
— Você não me conhece.
Gustavo sentiu Marcelo se aproximar.
— Meu nome é Eduardo Valente.
Silêncio.
— Onde você está?
— Não tenho muito tempo.
A voz parecia fraca.
— Daniel vai tentar sair do país com Vanessa. Mas isso não é o mais importante.
Gustavo apertou o telefone.
— Então me diga o que é.
Eduardo respirou com dificuldade.
— Eles não começaram a roubar a herança dois anos atrás.
Gustavo sentiu um arrepio.
— O que está dizendo?
— Começou antes de Sofia nascer.
Gustavo não conseguiu responder.
Eduardo continuou:
— E Daniel não é administrador daquele patrimônio por acaso.
Um ruído forte surgiu ao fundo.
Eduardo falou mais rápido.
— Procure o primeiro testamento do avô de Sofia. Não a versão registrada depois da morte dele. O primeiro.
— Por quê?
A linha começou a falhar.
— Porque Daniel nunca deveria ter controlado um centavo.
— Eduardo, espere.
— E Gustavo...
A voz ficou quase inaudível.
— Não acredite no teste de paternidade que Vanessa vai mandar para você.
A ligação caiu.
Gustavo ficou olhando para o celular.
Marcelo foi o primeiro a falar.
— Teste de paternidade?
Antes que alguém pudesse responder, uma nova mensagem apareceu na tela.
Vanessa.
Havia apenas uma fotografia anexada.
Um documento de laboratório.
No topo, o nome de Sofia.
Abaixo, uma frase destacada:
“Probabilidade de paternidade: 0,00%.”
E uma mensagem de Vanessa:
“Agora você entende por que ela nunca foi sua filha.”
**Continua — toque na Parte 5 para continuar lendo.**







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