Gustavo ficou olhando para a fotografia do exame até as letras começarem a perder o sentido.
“Probabilidade de paternidade: 0,00%.”
Por um instante, tudo o que ele conseguia ouvir era a voz de Eduardo, ainda ecoando em sua cabeça.
Não acredite no teste de paternidade que Vanessa vai mandar para você.
Henrique estendeu a mão.
— Me envie esse arquivo.
— Você acha que é falso?
— Acho que Eduardo sabia exatamente o que ela faria.
Marcelo já estava falando ao telefone com a central.
Gustavo aproximou a imagem.
Havia o nome completo de Sofia.
O nome dele.
Uma data de coleta de amostra feita onze meses antes.
Ele sentiu um choque.
— Eu nunca fiz esse exame.
Henrique ergueu os olhos.
— Tem certeza?
— Absoluta.
— Nunca coletaram sangue? Saliva? Nada que pudesse ser apresentado como teste de DNA?
— Não.
Henrique apontou para a tela.
— Então já temos um problema sério.
Marcelo voltou poucos minutos depois.
— O laboratório está verificando o número do laudo.
Sofia observava o pai da cama.
Ela tinha ouvido o suficiente para perceber que alguma coisa estava errada.
— Papai...
Gustavo se aproximou imediatamente.
— O que foi?
— Eu ainda sou sua filha?
A pergunta atravessou-o de uma maneira que nenhum documento conseguira.
Ele se ajoelhou ao lado da cama.
— Olhe para mim.
Sofia ergueu os olhos marejados.
— Você é minha filha. Nenhuma folha de papel muda isso.
— Mesmo se a mamãe estiver falando a verdade?
Gustavo segurou delicadamente o rosto dela.
— Mesmo que o mundo inteiro escrevesse outra coisa.
Sofia começou a chorar.
Gustavo a abraçou com cuidado, sentindo novamente o quanto ela estava magra.
Quando se afastou, Marcelo estava parado perto da porta.
— Recebi a resposta.
Gustavo se levantou.
— E então?
— O laudo é falso.
O ar pareceu voltar ao quarto.
Marcelo mostrou a mensagem recebida.
— O número de registro existe, mas pertence a outro exame, feito por outro paciente. O laboratório confirmou que nunca recebeu amostra sua nem de Sofia.
Henrique pegou o celular.
— E a assinatura do biomédico?
— Também foi copiada de outro documento.
Gustavo sentiu a raiva substituir o alívio.
Vanessa não estava apenas mentindo.
Estava tentando destruir o vínculo entre ele e a filha no momento em que mais precisavam permanecer juntos.
— Quero fazer um exame verdadeiro — disse Gustavo.
Marcelo assentiu.
— Com cadeia de custódia.
Duas horas depois, um profissional credenciado recolheu material genético de Gustavo e Sofia diante de testemunhas.
Tudo foi fotografado, lacrado e registrado.
O resultado não sairia imediatamente.
Mas, desta vez, ninguém poderia trocar nomes ou amostras.
Enquanto Sofia descansava, Henrique recebeu uma ligação.
Ele saiu para atender e voltou cerca de quinze minutos depois segurando o notebook.
— Encontrei o primeiro documento patrimonial.
Gustavo se aproximou.
Na tela aparecia uma cópia digitalizada, arquivada anos antes da morte do avô de Sofia.
— Eduardo estava certo — disse Henrique.
O documento original estabelecia regras claras.
A herança de Sofia deveria permanecer protegida até a idade adulta.
Despesas médicas, escolares ou extraordinárias precisariam ser comprovadas.
E a administração principal deveria permanecer sob responsabilidade de uma instituição financeira independente.
Gustavo franziu a testa.
— Então onde Daniel entra nisso?
Henrique rolou algumas páginas.
— Não entra.
Gustavo ficou em silêncio.
— Em nenhum lugar?
— Em nenhum.
Havia, inclusive, uma cláusula específica.
Caso Gustavo morresse antes de Sofia atingir a maioridade, a instituição continuaria administrando os recursos.
Nenhum parente poderia assumir o controle direto.
Nem mesmo Daniel.
Gustavo sentiu um arrepio.
— Então a minha morte falsa não deveria ter dado acesso a ele.
— Não com este documento.
Henrique abriu outro arquivo.
— Mas seis meses depois da morte do seu pai apareceu uma versão diferente.
Nessa versão, a instituição financeira desaparecia.
Daniel Almeida era nomeado administrador extraordinário do patrimônio.
E, em caso de morte de Gustavo ou ausência da beneficiária, ele recebia poder para reorganizar os ativos.
— Seis meses depois? — perguntou Gustavo.
— A versão afirma ter sido assinada três dias antes da morte do seu pai.
— Eu nunca soube disso.
— Porque ninguém te mostrou.
Henrique aproximou uma página.
A assinatura parecia perfeita.
Mas havia pequenas diferenças.
A inclinação.
A pressão.
O formato da última letra.
— Vamos precisar de perícia — disse Henrique. — Mas há indícios de falsificação.
Gustavo olhou para o nome do irmão no documento.
Daniel.
O homem com quem passara a infância.
O homem que segurara Sofia no colo quando ela era bebê.
O homem que, durante anos, lhe dizia que cuidar do patrimônio da sobrinha era “uma responsabilidade da família”.
Tudo começava a adquirir uma forma terrível.
— Por que mudar o nome de Sofia? — perguntou Gustavo. — Daniel já estava roubando o dinheiro. Por que correr o risco de criar Emilly Valente?
Henrique não respondeu imediatamente.
Em vez disso, abriu uma terceira pasta.
— Porque roubar R$ 1,6 milhão não era o objetivo final.
Gustavo sentiu o estômago se contrair.
Na tela havia um processo protocolado quatro dias antes.
O nome no topo era:
Sofia Almeida.
Pedido de reconhecimento de ausência da beneficiária.
— Ausência? — Gustavo quase riu de incredulidade. — Ela estava morando na minha casa.
— Legalmente, eles estavam construindo outra realidade.
Henrique mostrou os anexos.
Registros escolares afirmando que Sofia Almeida não frequentava aulas havia meses.
Prontuários médicos encerrados.
Uma declaração dizendo que a criança havia deixado o endereço conhecido.
Tudo porque, nesses mesmos sistemas, outra menina começara a existir.
Emilly Valente.
— Eles estavam dividindo uma pessoa em duas identidades — disse Henrique. — Apagando Sofia de um lado enquanto construíam Emilly do outro.
Gustavo finalmente compreendeu.
— E quando Sofia Almeida desaparecesse oficialmente...
Henrique assentiu.
— Daniel poderia pedir a reorganização definitiva do patrimônio.
— Quanto ainda resta?
— Pouco mais de R$ 3,1 milhões.
Gustavo sentiu náusea.
Não tinham colocado sua filha numa despensa apenas por crueldade.
Durante dois anos, estavam ensinando uma criança de nove anos a responder por outro nome porque precisavam que Sofia Almeida desaparecesse.
Sofia se mexeu na cama.
— Papai...
Ele fechou imediatamente o computador.
— Estou aqui.
A menina parecia preocupada.
— Eu lembrei de uma coisa.
Gustavo se sentou.
— Pode falar.
— Quando a mamãe me ensinava a dizer que meu nome era Emilly... ela fazia perguntas.
— Que perguntas?
— Ela dizia: “Onde está Sofia?”
Gustavo sentiu o sangue gelar.
— E o que você tinha que responder?
Sofia olhou para as próprias mãos.
— “Sofia foi embora.”
Henrique parou de respirar por um instante.
— Mais alguma coisa?
Sofia assentiu lentamente.
— Depois ela perguntava quem era meu pai.
Gustavo tentou manter a voz calma.
— E o que você devia dizer?
— Eduardo Valente.
Silêncio.
— E se você errasse?
Os olhos da menina se encheram de medo.
— Eu ficava na despensa até acertar.
Gustavo fechou os olhos.
Agora entendia por que Eduardo aparecera.
Por que Vanessa usara seu sobrenome.
E talvez até por que Daniel estivesse tentando fazê-lo desaparecer.
Nesse momento, o celular de Marcelo tocou.
Ele ouviu por poucos segundos.
Então olhou diretamente para Gustavo.
— Localizamos Eduardo.
— Onde?
— Numa estrada a vinte quilômetros do aeroporto.
Gustavo se levantou.
— Ele está vivo?
Marcelo hesitou.
— Está.
— Então podemos falar com ele.
— Talvez.
— O que isso significa?
Marcelo guardou o telefone.
— Significa que ele não estava sozinho quando foi encontrado.
Gustavo sentiu o peito apertar.
— Quem estava com ele?
O investigador respondeu:
— Vanessa.
**Continua — toque na Parte 6 para continuar lendo.**







No comments yet