Gustavo ficou olhando para a imagem de Daniel entrando no prédio com a pasta azul debaixo do braço.
— Meu pai escreveu uma carta para mim?
Eduardo assentiu.
— Ele disse que guardaria uma cópia junto dos documentos originais do patrimônio.
— E você nunca me contou isso?
— Porque eu não sabia onde estava.
Gustavo virou-se para Marcelo.
— Eu vou até lá.
— Gustavo...
— Minha filha está segura aqui, cercada por médicos, uma assistente social e policiais. Meu irmão está com a única coisa que meu pai deixou para explicar tudo isso.
Marcelo hesitou.
Sofia ouviu a discussão.
— Papai.
Gustavo se aproximou.
— Eu volto rápido.
Ela segurou sua mão.
— Vai pegar meu nome de volta?
A pergunta quase o desmontou.
Ele se abaixou.
— Vou.
Sofia assentiu.
— Então vai.
Quarenta minutos depois, Gustavo, Marcelo e dois policiais chegaram à antiga sede financeira.
O prédio estava quase vazio.
A instituição havia transferido suas operações principais anos antes, mas parte do arquivo físico permanecia ali.
Um segurança esperava na entrada.
— O homem da fotografia entrou usando uma autorização antiga.
Marcelo mostrou a imagem de Daniel.
— Ele ainda está dentro?
— Não sabemos. As câmeras do subsolo foram desligadas.
Gustavo sentiu o estômago apertar.
De novo.
Câmeras desligadas.
Registros apagados.
Identidades alteradas.
Daniel sempre parecia chegar antes.
Eles desceram pelas escadas.
No segundo subsolo havia uma área de arquivos protegida por portas metálicas.
Uma delas estava aberta.
Lá dentro, papéis estavam espalhados pelo chão.
Gavetas haviam sido arrancadas.
Um triturador industrial ainda funcionava.
Marcelo correu até ele e desligou a máquina.
Gustavo viu pedaços de documentos cortados.
— Ele está destruindo tudo.
Um ruído ecoou no corredor.
Os policiais avançaram.
— Polícia! Pare!
Passos correram atrás de uma porta lateral.
Marcelo fez sinal para Gustavo ficar.
Mas, poucos segundos depois, ouviram uma porta bater no andar superior.
Daniel havia escapado por uma saída de serviço.
No arquivo, porém, deixara alguma coisa.
A pasta azul.
Vazia.
Gustavo a abriu mesmo assim.
Nada.
Nem a carta.
Nem os documentos.
— Chegamos tarde.
— Talvez não — disse uma voz atrás deles.
Uma senhora de cabelos grisalhos estava parada na porta acompanhada pelo segurança.
— Meu nome é Helena Prado. Trabalhei aqui durante trinta e dois anos.
Ela olhou para Gustavo.
— Eu conheci seu pai.
Gustavo ficou imóvel.
Helena apontou para uma parede de armários.
— Daniel veio procurar um envelope registrado em nome de Augusto Almeida.
— Meu pai.
— Sim.
Ela abriu uma gaveta.
— Mas ele procurou no lugar errado.
Helena retirou uma pequena chave numerada.
317.
Eduardo havia mencionado que Augusto guardava cópias fora do escritório.
Gustavo sentiu o coração acelerar.
— O que essa chave abre?
Helena respondeu:
— Um cofre particular que seu pai pediu para nunca ser entregue a Daniel.
Minutos depois, estavam numa pequena sala protegida.
Helena colocou a chave numa fechadura antiga.
O compartimento 317 se abriu.
Dentro havia três coisas.
Um envelope com o nome de Gustavo.
Uma fita de vídeo antiga.
E uma pasta com documentos autenticados.
Gustavo pegou primeiro a carta.
Reconheceu a letra imediatamente.
“Filho,
se você estiver lendo isto, significa que Daniel encontrou uma maneira de contornar as proteções que deixei para você e para sua filha.”
Gustavo teve que parar.
Sua garganta fechou.
Continuou.
“Eu descobri que Daniel vinha usando empresas de fachada para desviar pequenas quantias. Quando o confrontei, ele jurou que era apenas uma tentativa de recuperar dinheiro perdido em investimentos pessoais. Não acreditei.
Por isso, alterei toda a estrutura patrimonial destinada a Sofia.
Daniel jamais deve administrar aquele fundo.”
Gustavo apertou o papel.
Marcelo lia em silêncio ao lado dele.
A carta continuava.
“Se aparecer qualquer documento dizendo o contrário, trate-o como fraude até prova independente.
Também pedi que uma gravação fosse guardada aqui.
Nela, explico minhas decisões com duas testemunhas presentes.”
Gustavo olhou para a fita.
Daniel não havia apenas falsificado uma assinatura.
Seu pai havia previsto exatamente o que ele poderia tentar fazer.
No último parágrafo, porém, havia algo mais.
“Existe ainda uma conta que Daniel acredita que eu não encontrei.
Horizonte Gestão Familiar.
Se ele continuar, siga o dinheiro.
Ele nunca trabalha sozinho.”
Gustavo releu a última frase.
Ele nunca trabalha sozinho.
Marcelo pegou a pasta autenticada.
Dentro estavam o testamento original, a estrutura verdadeira do fundo de Sofia e registros de transferências feitas por Daniel anos antes.
Tudo datado.
Tudo assinado.
Tudo autenticado.
— Isso é suficiente para derrubar a versão falsa — disse Marcelo.
— E bloquear a transferência de amanhã?
— Com isso e com o que já temos, sim.
Henrique, conectado por chamada de vídeo, recebeu cópias imediatamente.
Menos de vinte minutos depois, entrou com um pedido emergencial para congelar todos os ativos relacionados à herança.
Mas quando Gustavo pensou que finalmente tinham recuperado o controle, Marcelo recebeu uma ligação.
Seu rosto mudou.
— O que aconteceu?
Marcelo desligou lentamente.
— A transferência de R$ 2,9 milhões foi antecipada.
Gustavo sentiu o chão desaparecer.
— Como?
— Foi iniciada há sete minutos.
Henrique apareceu novamente na tela.
— Isso não deveria ser possível sem autorização dupla.
Eduardo, ainda no hospital, participava da ligação.
— Daniel tem uma segunda credencial.
Todos olharam para ele.
— Qual?
Eduardo hesitou.
— Vanessa.
Gustavo sentiu a raiva voltar.
— Ela está sob custódia.
— A credencial pode ter sido emitida antes.
Henrique começou a digitar.
— Esperem.
Alguns segundos depois, ele ergueu os olhos.
— A autorização não veio de Vanessa Almeida.
— Então de quem?
Henrique virou a tela.
O nome usado era:
Emilly Valente.
Gustavo ficou em silêncio.
Daniel estava usando a identidade falsa de uma criança para roubar o restante da herança.
— Bloqueiem tudo — disse Gustavo.
— Já estamos tentando.
Marcelo recebeu outra mensagem.
— Temos uma localização provável de Daniel.
— Onde?
— Rodoviária interestadual.
Gustavo franziu a testa.
— Ele vai fugir de ônibus?
Marcelo balançou a cabeça.
— Acho que não.
Mostrou uma imagem capturada minutos antes.
Daniel estava diante de um guarda-volumes.
Ao lado dele havia uma mulher.
Vanessa.
Gustavo ficou imóvel.
— Como ela saiu da custódia?
Marcelo aproximou a imagem.
— Essa não é Vanessa.
Gustavo olhou novamente.
Mesma altura.
Mesmo cabelo.
Mesmo casaco usado naquela noite.
Mas o rosto era outro.
Eduardo empalideceu na tela.
— Eu conheço essa mulher.
— Quem é? — perguntou Gustavo.
Eduardo demorou alguns segundos para responder.
— Camila Valente.
Gustavo sentiu um arrepio.
— Valente?
— Minha irmã.
Silêncio.
— Por que sua irmã está com Daniel?
Eduardo desviou o olhar.
— Porque foi ela quem apresentou Vanessa a ele.
Gustavo não conseguiu responder.
Marcelo abriu outra imagem capturada pela câmera da rodoviária.
Camila entregava a Daniel um envelope.
Ele abria.
Lá dentro havia um passaporte.
Marcelo ampliou o documento.
O nome impresso não era Daniel Almeida.
Era Eduardo Valente.
Gustavo olhou para Eduardo na tela.
— Ele vai fugir usando sua identidade.
Eduardo assentiu devagar.
— E quando encontrarem o dinheiro no exterior...
Gustavo completou:
— Tudo vai parecer ter sido feito por você.
Henrique interrompeu:
— Não é só isso.
Ele acabara de receber a resposta do bloqueio bancário.
R$ 2,9 milhões.
Status:
transferência suspensa.
Gustavo soltou o ar.
Mas Henrique não parecia aliviado.
— Conseguimos impedir essa.
— Então acabou.
— Não.
Henrique abriu outra movimentação.
Uma transferência anterior.
Realizada seis meses antes.
R$ 740 mil.
Destino final desconhecido.
Autorização feita pela mesma identidade.
Emilly Valente.
Gustavo sentiu o sangue gelar.
Seis meses.
Muito antes de Sofia ser trancada na despensa.
Muito antes de ele voltar daquela viagem.
Aquilo não era uma fuga improvisada.
Era um plano que estava sendo executado havia muito tempo.
Marcelo recebeu uma última ligação.
Desta vez, não disse nada durante quase meio minuto.
Quando desligou, olhou para Gustavo.
— Encontramos Daniel.
— Prenderam ele?
— Ainda não.
— Então onde ele está?
Marcelo mostrou o mapa no celular.
Um endereço apareceu na tela.
Gustavo reconheceu imediatamente.
Era o cemitério onde seu pai estava enterrado.
— Por que ele iria para lá?
Marcelo respondeu:
— Porque alguém acabou de abrir o túmulo de Augusto Almeida.
**Continua — toque na Parte 8 para continuar lendo.**







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