Entretenimento

Voltei mais cedo de uma viagem e encontrei minha filha de nove anos trancada numa despensa — então ela disse que sua mãe a obrigava a se chamar Emilly

Gustavo levou alguns segundos para responder.

— Vanessa estava com Eduardo?

Marcelo assentiu.

— Os dois foram encontrados perto de um carro abandonado. Eduardo estava ferido e com marcas nos pulsos. Vanessa não tentou fugir quando a equipe chegou.

— Então ela o sequestrou?

— Ainda estamos apurando.

— E Daniel?

O investigador respirou fundo.

— Desapareceu.

A palavra atingiu Gustavo com mais força do que esperava.


— Vocês tinham uma fotografia dele no aeroporto.

— Temos imagens dele entrando no terminal com Vanessa. Mas ele nunca passou pelo portão de embarque.

— Então aquilo foi encenação.

— Provavelmente.

Marcelo guardou o telefone.

— Eduardo será trazido para este hospital. Vanessa está sendo levada para prestar depoimento.

Gustavo olhou através do vidro para Sofia.

— Eu quero falar com ela.

— Não agora.

— Ela trancou minha filha numa despensa.


— E justamente por isso precisamos fazer isso direito.

Duas horas depois, Eduardo chegou escoltado.

Tinha um corte na testa, hematomas no rosto e os pulsos marcados.

Quando viu Gustavo no corredor, parou.

Nenhum dos dois falou por alguns segundos.

Foi Eduardo quem quebrou o silêncio.

— O exame que Vanessa mandou era falso?

— Era.

Eduardo fechou os olhos, aliviado.

— Eu imaginei.


Gustavo deu um passo à frente.

— Comece do começo.

Marcelo permitiu que conversassem na presença dele.

Eduardo sentou-se lentamente.

— Conheci Daniel antes de conhecer Vanessa. Trabalhei como consultor quando o pai de vocês começou a organizar o patrimônio da família.

Gustavo franziu a testa.

— Você conhecia meu pai?

— Sim.

— Então por que nunca ouvi falar de você?

— Porque eu saí antes da morte dele.


Eduardo olhou para as próprias mãos.

— Seu pai descobriu que Daniel havia tentado movimentar dinheiro sem autorização. Não era uma fortuna naquela época, mas foi suficiente para destruir a confiança entre eles.

Gustavo sentiu o peito apertar.

— Meu pai nunca me contou isso.

— Ele tentou proteger você da briga.

Eduardo continuou:

— Foi por isso que o primeiro documento deixou o patrimônio de Sofia nas mãos de uma instituição independente. Daniel não deveria administrar nada.

— E mesmo assim acabou administrando.

— Porque alguém substituiu o documento depois da morte do seu pai.

Gustavo já sabia daquela parte.


— Você recebeu dinheiro do fundo durante quase dois anos.

Eduardo não tentou negar.

— Recebi.

— Por quê?

— Daniel me contratou para revisar investimentos. No começo, eu achei que a mudança do administrador havia sido legítima.

— E depois?

— Comecei a encontrar despesas que não tinham relação nenhuma com Sofia.

Gustavo apertou a mandíbula.

— E levou quase dois anos para perceber?

Eduardo sustentou seu olhar.


— Levei tempo demais.

Não havia defesa em sua voz.

— Quando confrontei Daniel, ele disse que tudo era autorizado por Vanessa. Foi quando comecei a exigir documentos.

— Então ele parou de pagar você.

— Sim.

— E você devolveu dinheiro ao fundo.

— O que ainda estava comigo.

Gustavo se inclinou.

— Agora me explique por que minha filha foi ensinada a dizer que você era o pai dela.

Eduardo empalideceu.


— Porque Daniel precisava de alguém para carregar a culpa.

Marcelo permaneceu em silêncio.

Eduardo continuou:

— Meu sobrenome aparecia nos registros de consultoria. Eu conhecia o primeiro testamento. Tinha recebido dinheiro do fundo. Se alguma coisa viesse à tona, seria fácil dizer que eu havia criado uma identidade falsa para Sofia.

— E Vanessa aceitou isso?

Eduardo olhou para o chão.

— Vanessa aceitou muita coisa.

Gustavo sentiu a raiva subir.

— Inclusive deixar minha filha sem comida?

Eduardo ergueu os olhos.


— Isso eu não sabia.

— Nem os hematomas?

— Não.

— Nem a despensa?

— Não.

A porta do corredor se abriu.

Marcelo recebeu uma mensagem, leu e encarou Gustavo.

— Vanessa começou a falar.

Pouco depois, o investigador voltou com algumas páginas impressas.

— Ela confirmou grande parte do que Eduardo disse.


Gustavo soltou uma risada amarga.

— Que conveniente.

— Ela também admitiu ter usado a identidade Emilly Valente.

— Admitiu machucar Sofia?

Marcelo hesitou.

— Admitiu “medidas disciplinares”.

Os olhos de Gustavo ficaram frios.

— Minha filha estava desnutrida.

— Eu sei.

Marcelo virou uma página.


— Vanessa afirma que Daniel criou o plano financeiro. Mas ela reconhece que participou e usou o dinheiro.

— Quanto?

— Ela ainda não sabe dizer.

— Claro que não sabe.

— Gustavo...

— Ela sabia o suficiente para comprar vestidos com o dinheiro de uma criança.

Ninguém respondeu.

Então Marcelo colocou uma fotografia sobre a mesa.

Era a caixa preta retirada do escritório de Gustavo.

— Encontraram o cofre.

— Onde?

— No porta-malas do carro em que Eduardo estava sendo transportado.

Eduardo levantou a cabeça.

— Daniel colocou aquilo lá.

Marcelo assentiu.

— As digitais dele estavam na parte externa.

O cofre havia sido arrombado.

Dentro restavam apenas alguns documentos antigos.

O restante desaparecera.

Gustavo examinou a lista do que havia sido recuperado.

Passaportes vencidos.

Uma cópia da certidão de nascimento de Sofia.

Documentos médicos.

Então parou.

— Está faltando uma pasta azul.

Marcelo olhou para ele.

— O que havia nela?

Gustavo tentou lembrar.

— Papéis do meu pai. Coisas que peguei depois que ele morreu.

— Que tipo de papéis?

— Eu nunca organizei tudo.

Eduardo ficou tenso.

— Daniel sabia dessa pasta?

Gustavo virou-se.

— Por quê?

— Porque seu pai guardava cópias de documentos fora do escritório.

— E?

Eduardo respirou fundo.

— Pouco antes de morrer, ele me disse que tinha descoberto uma segunda conta ligada a Daniel.

Henrique, que acabara de chegar, ouviu a última frase.

— Segunda conta?

Eduardo assentiu.

— Uma conta aberta anos antes de Sofia nascer.

— Em nome de quem? — perguntou Gustavo.

Eduardo demorou alguns segundos.

— De uma empresa de fachada controlada por Daniel.

Henrique abriu o notebook.

— Qual era o nome?

Eduardo respondeu.

— Horizonte Gestão Familiar.

Henrique começou a digitar.

Menos de um minuto depois, sua expressão mudou.

— Essa empresa ainda existe.

Gustavo se aproximou.

— E?

Henrique girou a tela.

Havia movimentações recentes.

Muito recentes.

Quase R$ 900 mil haviam sido transferidos para aquela empresa nos últimos quatro dias.

— Do fundo de Sofia? — perguntou Gustavo.

— Não.

Henrique ampliou a origem.

— De uma conta conjunta aberta em nome de Emilly Valente e Vanessa Almeida.

Gustavo sentiu o sangue gelar.

— Como Emilly pode ter uma conta?

— Com documentos falsos.

Marcelo pegou o telefone imediatamente.

Henrique continuou analisando.

— Esperem.

Havia uma transferência programada.

R$ 2,9 milhões.

Data: manhã seguinte.

Destino: conta internacional.

Beneficiário final protegido por uma empresa estrangeira.

O valor correspondia quase exatamente ao que ainda restava da herança.

Daniel não estava fugindo apenas com o que já havia roubado.

Ele pretendia esvaziar tudo.

Nesse momento, uma enfermeira apareceu no corredor.

— Sr. Almeida?

Gustavo se virou.

Ela carregava um envelope.

— O resultado urgente do exame de DNA chegou.

Por alguns segundos, ele não conseguiu se mover.

Abriu o envelope.

Leu a primeira linha.

Depois a segunda.

Probabilidade de paternidade:

99,9999%.

Gustavo fechou os olhos.

Sofia era sua filha.

Sempre fora.

Quando entrou no quarto, encontrou-a acordada.

Ele se sentou ao lado dela.

— Sofia?

— Sim?

Ele sorriu pela primeira vez naquela noite.

— Eu sou seu pai.

Ela começou a chorar antes mesmo de ele terminar.

Gustavo a abraçou.

Mas, sobre o ombro da filha, viu Marcelo aparecer novamente na porta.

Desta vez, o investigador parecia alarmado.

— Gustavo.

— O que foi agora?

— Encontramos Daniel.

Gustavo se levantou.

— Onde?

Marcelo mostrou uma imagem de câmera de segurança.

Daniel entrava num prédio segurando a pasta azul desaparecida do cofre.

Gustavo reconheceu o lugar imediatamente.

Era a antiga sede da instituição financeira que originalmente deveria administrar o patrimônio de Sofia.

— Quando foi isso?

— Há vinte e três minutos.

— Por que ele iria até lá?

Marcelo ampliou a imagem.

Na mão de Daniel havia também um envelope com o nome de Gustavo.

Eduardo ficou pálido.

— Porque aquela pasta não contém apenas provas contra Daniel.

Gustavo virou-se.

— Então o que contém?

Eduardo respondeu quase num sussurro:

— A última carta que seu pai escreveu antes de morrer.

**Continua — toque na Parte 7 para continuar lendo.**

No comments yet