Gustavo levou alguns segundos para responder.
— Vanessa estava com Eduardo?
Marcelo assentiu.
— Os dois foram encontrados perto de um carro abandonado. Eduardo estava ferido e com marcas nos pulsos. Vanessa não tentou fugir quando a equipe chegou.
— Então ela o sequestrou?
— Ainda estamos apurando.
— E Daniel?
O investigador respirou fundo.
— Desapareceu.
A palavra atingiu Gustavo com mais força do que esperava.
— Vocês tinham uma fotografia dele no aeroporto.
— Temos imagens dele entrando no terminal com Vanessa. Mas ele nunca passou pelo portão de embarque.
— Então aquilo foi encenação.
— Provavelmente.
Marcelo guardou o telefone.
— Eduardo será trazido para este hospital. Vanessa está sendo levada para prestar depoimento.
Gustavo olhou através do vidro para Sofia.
— Eu quero falar com ela.
— Não agora.
— Ela trancou minha filha numa despensa.
— E justamente por isso precisamos fazer isso direito.
Duas horas depois, Eduardo chegou escoltado.
Tinha um corte na testa, hematomas no rosto e os pulsos marcados.
Quando viu Gustavo no corredor, parou.
Nenhum dos dois falou por alguns segundos.
Foi Eduardo quem quebrou o silêncio.
— O exame que Vanessa mandou era falso?
— Era.
Eduardo fechou os olhos, aliviado.
— Eu imaginei.
Gustavo deu um passo à frente.
— Comece do começo.
Marcelo permitiu que conversassem na presença dele.
Eduardo sentou-se lentamente.
— Conheci Daniel antes de conhecer Vanessa. Trabalhei como consultor quando o pai de vocês começou a organizar o patrimônio da família.
Gustavo franziu a testa.
— Você conhecia meu pai?
— Sim.
— Então por que nunca ouvi falar de você?
— Porque eu saí antes da morte dele.
Eduardo olhou para as próprias mãos.
— Seu pai descobriu que Daniel havia tentado movimentar dinheiro sem autorização. Não era uma fortuna naquela época, mas foi suficiente para destruir a confiança entre eles.
Gustavo sentiu o peito apertar.
— Meu pai nunca me contou isso.
— Ele tentou proteger você da briga.
Eduardo continuou:
— Foi por isso que o primeiro documento deixou o patrimônio de Sofia nas mãos de uma instituição independente. Daniel não deveria administrar nada.
— E mesmo assim acabou administrando.
— Porque alguém substituiu o documento depois da morte do seu pai.
Gustavo já sabia daquela parte.
— Você recebeu dinheiro do fundo durante quase dois anos.
Eduardo não tentou negar.
— Recebi.
— Por quê?
— Daniel me contratou para revisar investimentos. No começo, eu achei que a mudança do administrador havia sido legítima.
— E depois?
— Comecei a encontrar despesas que não tinham relação nenhuma com Sofia.
Gustavo apertou a mandíbula.
— E levou quase dois anos para perceber?
Eduardo sustentou seu olhar.
— Levei tempo demais.
Não havia defesa em sua voz.
— Quando confrontei Daniel, ele disse que tudo era autorizado por Vanessa. Foi quando comecei a exigir documentos.
— Então ele parou de pagar você.
— Sim.
— E você devolveu dinheiro ao fundo.
— O que ainda estava comigo.
Gustavo se inclinou.
— Agora me explique por que minha filha foi ensinada a dizer que você era o pai dela.
Eduardo empalideceu.
— Porque Daniel precisava de alguém para carregar a culpa.
Marcelo permaneceu em silêncio.
Eduardo continuou:
— Meu sobrenome aparecia nos registros de consultoria. Eu conhecia o primeiro testamento. Tinha recebido dinheiro do fundo. Se alguma coisa viesse à tona, seria fácil dizer que eu havia criado uma identidade falsa para Sofia.
— E Vanessa aceitou isso?
Eduardo olhou para o chão.
— Vanessa aceitou muita coisa.
Gustavo sentiu a raiva subir.
— Inclusive deixar minha filha sem comida?
Eduardo ergueu os olhos.
— Isso eu não sabia.
— Nem os hematomas?
— Não.
— Nem a despensa?
— Não.
A porta do corredor se abriu.
Marcelo recebeu uma mensagem, leu e encarou Gustavo.
— Vanessa começou a falar.
Pouco depois, o investigador voltou com algumas páginas impressas.
— Ela confirmou grande parte do que Eduardo disse.
Gustavo soltou uma risada amarga.
— Que conveniente.
— Ela também admitiu ter usado a identidade Emilly Valente.
— Admitiu machucar Sofia?
Marcelo hesitou.
— Admitiu “medidas disciplinares”.
Os olhos de Gustavo ficaram frios.
— Minha filha estava desnutrida.
— Eu sei.
Marcelo virou uma página.
— Vanessa afirma que Daniel criou o plano financeiro. Mas ela reconhece que participou e usou o dinheiro.
— Quanto?
— Ela ainda não sabe dizer.
— Claro que não sabe.
— Gustavo...
— Ela sabia o suficiente para comprar vestidos com o dinheiro de uma criança.
Ninguém respondeu.
Então Marcelo colocou uma fotografia sobre a mesa.
Era a caixa preta retirada do escritório de Gustavo.
— Encontraram o cofre.
— Onde?
— No porta-malas do carro em que Eduardo estava sendo transportado.
Eduardo levantou a cabeça.
— Daniel colocou aquilo lá.
Marcelo assentiu.
— As digitais dele estavam na parte externa.
O cofre havia sido arrombado.
Dentro restavam apenas alguns documentos antigos.
O restante desaparecera.
Gustavo examinou a lista do que havia sido recuperado.
Passaportes vencidos.
Uma cópia da certidão de nascimento de Sofia.
Documentos médicos.
Então parou.
— Está faltando uma pasta azul.
Marcelo olhou para ele.
— O que havia nela?
Gustavo tentou lembrar.
— Papéis do meu pai. Coisas que peguei depois que ele morreu.
— Que tipo de papéis?
— Eu nunca organizei tudo.
Eduardo ficou tenso.
— Daniel sabia dessa pasta?
Gustavo virou-se.
— Por quê?
— Porque seu pai guardava cópias de documentos fora do escritório.
— E?
Eduardo respirou fundo.
— Pouco antes de morrer, ele me disse que tinha descoberto uma segunda conta ligada a Daniel.
Henrique, que acabara de chegar, ouviu a última frase.
— Segunda conta?
Eduardo assentiu.
— Uma conta aberta anos antes de Sofia nascer.
— Em nome de quem? — perguntou Gustavo.
Eduardo demorou alguns segundos.
— De uma empresa de fachada controlada por Daniel.
Henrique abriu o notebook.
— Qual era o nome?
Eduardo respondeu.
— Horizonte Gestão Familiar.
Henrique começou a digitar.
Menos de um minuto depois, sua expressão mudou.
— Essa empresa ainda existe.
Gustavo se aproximou.
— E?
Henrique girou a tela.
Havia movimentações recentes.
Muito recentes.
Quase R$ 900 mil haviam sido transferidos para aquela empresa nos últimos quatro dias.
— Do fundo de Sofia? — perguntou Gustavo.
— Não.
Henrique ampliou a origem.
— De uma conta conjunta aberta em nome de Emilly Valente e Vanessa Almeida.
Gustavo sentiu o sangue gelar.
— Como Emilly pode ter uma conta?
— Com documentos falsos.
Marcelo pegou o telefone imediatamente.
Henrique continuou analisando.
— Esperem.
Havia uma transferência programada.
R$ 2,9 milhões.
Data: manhã seguinte.
Destino: conta internacional.
Beneficiário final protegido por uma empresa estrangeira.
O valor correspondia quase exatamente ao que ainda restava da herança.
Daniel não estava fugindo apenas com o que já havia roubado.
Ele pretendia esvaziar tudo.
Nesse momento, uma enfermeira apareceu no corredor.
— Sr. Almeida?
Gustavo se virou.
Ela carregava um envelope.
— O resultado urgente do exame de DNA chegou.
Por alguns segundos, ele não conseguiu se mover.
Abriu o envelope.
Leu a primeira linha.
Depois a segunda.
Probabilidade de paternidade:
99,9999%.
Gustavo fechou os olhos.
Sofia era sua filha.
Sempre fora.
Quando entrou no quarto, encontrou-a acordada.
Ele se sentou ao lado dela.
— Sofia?
— Sim?
Ele sorriu pela primeira vez naquela noite.
— Eu sou seu pai.
Ela começou a chorar antes mesmo de ele terminar.
Gustavo a abraçou.
Mas, sobre o ombro da filha, viu Marcelo aparecer novamente na porta.
Desta vez, o investigador parecia alarmado.
— Gustavo.
— O que foi agora?
— Encontramos Daniel.
Gustavo se levantou.
— Onde?
Marcelo mostrou uma imagem de câmera de segurança.
Daniel entrava num prédio segurando a pasta azul desaparecida do cofre.
Gustavo reconheceu o lugar imediatamente.
Era a antiga sede da instituição financeira que originalmente deveria administrar o patrimônio de Sofia.
— Quando foi isso?
— Há vinte e três minutos.
— Por que ele iria até lá?
Marcelo ampliou a imagem.
Na mão de Daniel havia também um envelope com o nome de Gustavo.
Eduardo ficou pálido.
— Porque aquela pasta não contém apenas provas contra Daniel.
Gustavo virou-se.
— Então o que contém?
Eduardo respondeu quase num sussurro:
— A última carta que seu pai escreveu antes de morrer.
**Continua — toque na Parte 7 para continuar lendo.**







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