Mariana não conseguiu desviar os olhos. Rafael permanecia ajoelhado no corredor, as flores espalhadas pelo chão branco do hospital, enquanto a enfermeira que lhe entregara o documento mantinha uma expressão profissional, quase fria. Por alguns segundos, ele apenas encarou o nome impresso na certidão. Depois levou a mão à boca, como se finalmente tivesse compreendido que certas escolhas não podiam ser desfeitas.
— Não... — a voz dele atravessou abafada pelo vidro. — Isso está errado. Eu falei com o médico. Ela estava viva quando chegou aqui.
Mariana tentou se mexer, mas uma dor aguda atravessou seu peito. Uma mão pousou imediatamente em seu ombro.
— Não faça esforço.
Ela virou o rosto e encontrou o doutor Henrique Vasconcelos ao lado da cama. Devia ter pouco mais de cinquenta anos, cabelos grisalhos nas têmporas e um olhar cansado demais para alguém que parecia estar no início do plantão.
— Por que ele recebeu uma certidão de óbito com o meu nome?
Henrique olhou para o corredor antes de fechar parcialmente a persiana da divisória.
— Porque, oficialmente, Mariana Ferreira morreu às vinte e duas horas e dezessete minutos da noite do incêndio.
O medo que Mariana sentiu não veio das palavras, mas da tranquilidade com que ele as pronunciou.
— Oficialmente?
Henrique puxou uma cadeira.
— Você sofreu uma parada cardiorrespiratória na ambulância. Foi reanimada, mas chegou aqui sem identificação.
Mariana franziu a testa. Seu vestido, sua bolsa, seus documentos. Tudo deveria tornar sua identidade óbvia.
— Eu estava usando um vestido de noiva.
— Quando chegou, grande parte dele havia sido cortada pelos paramédicos. Seus pertences não vieram com você.
— Então como sabem quem eu sou agora?
Henrique hesitou.
— Lucas.
O nome provocou nela a primeira lembrança clara depois da fumaça: um capacete surgindo entre as chamas, braços agarrando-a quando ela já não tinha forças.
— O bombeiro?
Henrique assentiu.
— Lucas Martins voltou ao local depois que percebeu que você não estava registrada entre os sobreviventes identificados. Ele encontrou algo estranho. Uma mulher havia sido declarada como Mariana Ferreira antes mesmo de você chegar ao hospital.
Mariana sentiu o coração acelerar no monitor.
— Quem?
— Ainda não sabemos.
Henrique abriu uma pasta e retirou uma folha. Era uma ficha de entrada do pronto-socorro. No alto estava escrito seu nome completo. Mariana Ferreira. Trinta e dois anos. Noiva de Rafael Almeida.
Mas o horário registrado era 21h41.
Henrique apontou para outra linha.
— Você chegou às 21h58.
Dezessete minutos depois.
Mariana ficou imóvel.
Alguém havia usado seu nome enquanto ela ainda estava dentro da ambulância.
— Essa mulher morreu?
— Sim. Queimaduras extensas, sem documentos, rosto impossível de reconhecer naquele momento. Alguém informou aos paramédicos que ela era você. Quando seu quadro estabilizou e Lucas insistiu que a verdadeira Mariana estava viva, o erro já tinha entrado no sistema.
— Então corrijam.
Henrique não respondeu imediatamente.
Foi nesse silêncio que Mariana percebeu que não se tratava apenas de um erro burocrático.
— Doutor?
— Lucas pediu que esperássemos.
— Um bombeiro novato manda no hospital agora?
— Não. Mas ele encontrou isto.
Henrique colocou sobre o lençol um pequeno saco plástico transparente. Dentro havia uma peça metálica escurecida pelo fogo.
Mariana reconheceu imediatamente.
A chave do seu camarim.
Seu estômago se contraiu.
— Estava onde?
— No bolso do casaco de Camila.
O monitor acelerou.
Mariana lembrou da porta. Da maçaneta imóvel. Da coisa pesada que supostamente havia caído do lado de fora.
Talvez nada tivesse caído.
Talvez alguém simplesmente a tivesse trancado.
— Ela está aqui?
— Recebeu alta ontem. Intoxicação leve por fumaça.
Intoxicação leve.
Rafael a carregara para fora enquanto Mariana queimava atrás de uma porta trancada.
Mariana fechou os olhos, mas imediatamente viu outra coisa: pérolas balançando no pulso coberto de fuligem.
— Minha pulseira.
— O quê?
— Camila estava usando uma pulseira minha. Ela desapareceu antes da cerimônia.
Henrique se inclinou.
— Tem certeza?
— Absoluta.
Uma batida discreta interrompeu os dois.
A porta interna se abriu e Lucas entrou.
Sem uniforme, parecia mais jovem do que Mariana lembrava. Trazia uma mochila e uma expressão tensa. Havia uma pequena queimadura perto da linha do cabelo.
— Desculpa aparecer assim.
Mariana encarou o homem que havia entrado no fogo quando seu próprio noivo escolhera outra pessoa.
— Você salvou minha vida.
Lucas abaixou os olhos.
— Fiz meu trabalho.
— Rafael também deveria ter feito.
Nenhum dos dois respondeu.
Lucas colocou a mochila sobre uma cadeira.
— Preciso mostrar uma coisa.
Retirou um celular parcialmente queimado, protegido dentro de um saco de evidências.
— Encontraram perto do camarim.
Mariana reconheceu a capa imediatamente.
— É meu.
— A perícia conseguiu recuperar parte dos arquivos. Tem uma gravação automática feita poucos minutos antes do incêndio.
Mariana tentou lembrar. Costumava deixar o celular gravando pequenos vídeos enquanto se arrumava, pretendendo montar depois uma lembrança do casamento.
Lucas conectou o aparelho a um tablet.
A imagem surgiu tremida. Mariana apareceu diante do espelho, de costas, ajustando o véu. Depois saiu do enquadramento por alguns segundos.
Uma figura entrou.
Camila.
Mariana sentiu os dedos ficarem frios.
Na gravação, Camila olhou para a porta antes de caminhar diretamente até o estojo de joias. Abriu-o, pegou a pulseira de pérolas e colocou no pulso.
Mas não parou ali.
Ela abriu a gaveta inferior da penteadeira e retirou um envelope pardo.
Mariana perdeu o ar.
— Não...
Lucas pausou.
— Você sabe o que havia nesse envelope?
Mariana sabia.
Documentos que recebera dois dias antes do casamento e que ainda não tivera coragem de mostrar a Rafael.
Uma escritura antiga, uma carta de seu falecido pai e documentos referentes a uma propriedade avaliada em milhões de reais, cuja existência Mariana descobrira apenas naquela semana.
— Era uma herança.
Lucas e Henrique trocaram um olhar.
— Continue — Mariana pediu.
O vídeo voltou.
Camila guardou o envelope dentro da bolsa. Depois caminhou até a porta.
Antes de sair, porém, alguém apareceu no corredor.
A câmera não mostrava o rosto, apenas parte de um uniforme do Corpo de Bombeiros.
Camila falou baixinho:
— Depois que começar, ela não pode sair daqui.
Mariana parou de respirar.
Uma voz masculina respondeu:
— Eu sei.
Lucas congelou o vídeo.
O silêncio dentro do quarto tornou-se quase insuportável.
Mariana olhou para ele.
— É Rafael?
— Não dá para afirmar. A gravação não mostra o rosto.
Então ouviram vozes no corredor.
Rafael já não estava chorando.
Estava discutindo com a enfermeira.
— Quero ver o corpo da minha noiva.
Mariana sentiu o sangue gelar.
Henrique levantou-se imediatamente.
— Ele não pode descobrir que você está viva ainda.
— Por quê?
Lucas fechou o tablet.
— Porque encontramos acelerante perto da porta do seu camarim. O incêndio provavelmente não começou por causa das velas.
Antes que Mariana pudesse responder, o celular de Lucas vibrou.
Ele leu a mensagem e perdeu a cor.
— O que foi?
Lucas virou a tela para ela.
Era uma fotografia enviada de um número desconhecido.
Camila estava diante de um cofre aberto. Nas mãos, segurava o envelope roubado do camarim.
Abaixo da fotografia havia apenas uma frase:
“Ela pegou a coisa errada.”
Mariana ampliou a imagem com os dedos trêmulos. Atrás de Camila, quase escondida pelo reflexo metálico do cofre, havia outra pessoa.
Um homem.
E Mariana reconheceu no pulso dele o relógio que dera a Rafael na noite em que ficaram noivos.







No comments yet