O olhar do Dr. Carvalho era de desconfiança.
Ele se aproximou da maca de Clara e abaixou a voz, como se soubesse que qualquer palavra mais alta poderia fazer Eduardo reagir.
— Você consegue falar comigo sem que alguém responda por você?
Clara piscou lentamente. Seus olhos foram até minha direção e depois voltaram para o médico.
— Consigo.
Eduardo deu um passo à frente.
— Ela está confusa. Acabou de sofrer um trauma.
— Eu perguntei a ela — respondeu o médico, sem sequer olhar para ele.
Aquela frase simples pareceu atingir Eduardo mais do que qualquer acusação. Durante anos, ele havia falado por nós. Decidia o que dizíamos aos professores, aos vizinhos, aos médicos. Quando Clara chorava, ele dizia que era por causa dos hormônios. Quando eu ficava em silêncio, dizia que eu tinha problemas de comportamento. Até naquela sala de emergência ele acreditava que ainda controlava a história.
Mas, pela primeira vez, alguém não estava escutando Eduardo.
O segurança apareceu do outro lado da porta poucos minutos depois. Eu o reconheci vagamente. Era um homem alto, de cabelos grisalhos, que havia passado por nós quando fomos trazidas para dentro. Agora ele permanecia ao lado do médico, mantendo os olhos fixos em Eduardo.
— A polícia está a caminho — disse ele.
Eduardo soltou um suspiro impaciente.
— Isso é ridículo. Minha esposa já explicou o acidente.
— Sua esposa explicou — corrigiu o Dr. Carvalho. — As meninas ainda não.
Beatriz abaixou a cabeça.
Eu senti alguma coisa se romper dentro de mim. Não era coragem. Coragem parecia uma palavra grande demais para alguém que passara meses tentando sobreviver a cada noite. Era apenas cansaço. Um cansaço tão profundo que, pela primeira vez, eu não me importava mais com o que Eduardo poderia fazer.
— Não caímos da escada — falei.
Minha voz saiu fraca, mas clara.
Minha mãe fechou os olhos.
Eduardo me encarou.
— Fernanda, você está machucada. Não sabe o que está dizendo.
— Sei.
Ele caminhou até minha maca.
O segurança imediatamente se colocou entre nós.
— Fique onde está.
Eduardo sorriu.
Foi o mesmo sorriso que eu tinha visto tantas vezes dentro de casa. Um sorriso tranquilo, quase educado, usado quando ele queria convencer alguém de que o monstro só existia dentro da nossa imaginação.
— Doutor, essas meninas têm problemas psicológicos desde a morte do pai. Minha esposa pode confirmar.
Eu olhei para Beatriz.
Ela não respondeu.
Foi a primeira vez que vi minha mãe parecer realmente pequena diante dele.
— Mãe — chamei.
Ela levantou os olhos.
— Você sabe que não caímos.
Os lábios dela tremeram.
Eduardo virou o rosto lentamente para ela.
— Beatriz.
Apenas o nome.
Foi suficiente.
Minha mãe ficou em silêncio.
Clara tentou se sentar e fez uma careta de dor. O Dr. Carvalho imediatamente a ajudou.
— Não precisa falar tudo agora — disse ele. — Só preciso saber uma coisa. Isso acontece há quanto tempo?
Clara respirou fundo.
— Desde que ele veio morar conosco.
Eduardo soltou uma risada incrédula.
— Isso é absurdo.
— Três anos — continuou Clara.
Meu coração apertou.
Três anos.
Ela tinha dito em voz alta aquilo que nós duas evitávamos contar até para nós mesmas.
O segurança tocou discretamente o rádio preso ao ombro.
— A polícia chegou.
Eduardo ficou imóvel.
Pela primeira vez, seu rosto perdeu completamente o sorriso.
Dois policiais entraram na sala. Uma mulher de cabelos presos veio na frente, acompanhada de um policial mais jovem. Ela se apresentou como inspetora Helena Duarte e pediu que todos permanecessem onde estavam.
Eduardo começou a explicar.
Falou sobre a escada. Sobre nossa suposta instabilidade. Sobre o fato de sermos gêmeas e “alimentarmos as fantasias uma da outra”. Falou tanto que, por alguns segundos, quase pareceu convincente.
Então o Dr. Carvalho o interrompeu.
— Inspetora, gostaria que examinasse os hematomas.
Helena se aproximou.
Ela observou meus braços, minhas costas e depois Clara. Não precisou perguntar muito.
— Os ferimentos são semelhantes demais — murmurou.
Eduardo tentou sorrir.
— Elas caíram juntas.
— E caíram exatamente sobre as mesmas partes do corpo?
Ele não respondeu.
A inspetora então olhou para nós.
— Quero conversar com cada uma separadamente.
Eduardo imediatamente protestou.
— Não sem a mãe delas.
— Principalmente sem a presença do senhor.
O silêncio que veio depois foi diferente de todos os outros.
Eduardo olhou para minha mãe.
Beatriz estava chorando em silêncio.
Ele se aproximou dela.
— Você sabe o que acontece se falar.
Minha mãe levantou o rosto.
E então, pela primeira vez em anos, respondeu:
— Eu sei.
Eduardo pareceu surpreso.
Eu também.
A inspetora percebeu.
— Senhora Beatriz, venha comigo.
Minha mãe hesitou antes de se levantar. Quando passou pela minha maca, segurou minha mão por um segundo.
— Me perdoa — sussurrou.
Eu queria perguntar por quê.
Queria perguntar por que ela tinha permitido aquilo. Por que tinha aumentado o volume da televisão. Por que tinha fingido não ouvir nossos gritos. Por que nunca procurou ajuda.
Mas ela já estava saindo.
Clara apertou minha mão.
— Ela vai contar?
— Não sei.
Alguns minutos depois, enquanto os policiais interrogavam Eduardo no corredor, meu celular antigo pareceu pesar dentro da minha memória como uma pedra.
Aquele aparelho escondido sob a tábua do piso.
As gravações.
Durante meses eu havia acreditado que elas eram nossa única saída.
Mas havia uma coisa que eu nunca tinha contado a Clara.
Na noite anterior, antes de Eduardo nos atacar, eu havia verificado a conta privada do nosso pai.
Havia uma nova notificação.
Um arquivo tinha sido acessado.
Não por mim.
O nome da conta que aparecia no registro era impossível de confundir.
**André Martins.**
Nosso tio.
O homem que todos acreditávamos estar fora do país havia anos.
Meu coração começou a bater mais rápido.
Clara percebeu minha expressão.
— Fernanda… o que foi?
Olhei para a porta.
Eduardo ainda estava sendo interrogado.
Minha mãe ainda não havia voltado.
Então peguei a mão da minha irmã e sussurrei:
— Acho que o tio André nunca deixou de nos procurar.
Antes que Clara pudesse responder, o celular de uma das policiais tocou.
Ela ouviu por alguns segundos, ficou pálida e olhou diretamente para mim.
— Fernanda Martins?
— Sim?
Ela desligou.
— Encontraram alguém no endereço da sua casa.
Meu estômago se apertou.
— Quem?
A policial respirou fundo.
— Um homem que afirma ter vindo buscar vocês.
Ela fez uma pausa.
— E ele trouxe documentos assinados pelo seu pai.







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