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Minha Ex Riu Do Meu Carro Velho No Reencontro Da Escola — Até Meu Sócio Chegar E Revelar Quem Eu Realmente Era

Maurício ficou alguns segundos em silêncio, como se ainda esperasse que eu corrigisse o que tinha acabado de dizer. Ao redor de nós, o reencontro continuava com música baixa, vozes animadas e abraços entre pessoas que não se viam havia anos, mas alguma coisa na expressão dele fez todo aquele barulho parecer distante.

— Você está falando sério? — perguntou.

— Estou.

Ele soltou minha mão devagar.

— Daniel, a proposta é boa.

— Eu sei quanto ofereceram.

— Então sabe que talvez nunca apareça outra igual.

Priscila ainda estava ao nosso lado. Fábio também. Pela primeira vez desde que eu chegara, ela não parecia interessada em fazer piadas. Olhava de mim para Maurício tentando entender uma conversa que claramente tinha começado muito antes daquela noite.

Maurício percebeu a presença deles e forçou um sorriso.

— A gente conversa depois.

— Foi você que trouxe o assunto aqui — respondi.

O sorriso dele desapareceu de novo.

Durante os últimos doze anos, eu tinha aprendido a reconhecer as pequenas mudanças no rosto de Maurício. Ele era excelente em reuniões, especialmente diante de investidores. Quando estava nervoso, porém, pressionava a língua contra a parte interna da bochecha direita. Quase ninguém percebia.

Naquele momento, ele estava fazendo exatamente isso.

— Só quero que você pense melhor — disse.

— Já pensei.

Ele me encarou.

— A empresa não é só sua.

Aquilo me atingiu de uma maneira estranha, não porque estivesse errado, mas porque nunca precisara me lembrar disso antes.

— Também não é só sua.

Por um instante, seus olhos endureceram.

Então ele olhou para Priscila e Fábio.

— Vamos entrar. Não é lugar para discutir negócios.

Passou por nós e entrou no salão sem esperar resposta.

Fábio assobiou baixo.

— Parece que eu escolhi a pior hora para aparecer.

Eu tentei sorrir.

— Ou a melhor.

Priscila cruzou os braços.

— Então era verdade.

— O quê?

— A empresa.

Olhei para ela.

— Eu disse que tinha aberto.

— Você sempre foi péssimo em se vender.

— Talvez porque eu nunca estivesse à venda.

Ela ficou imóvel por meio segundo. Antes que pudesse responder, uma mulher na entrada chamou meu nome e veio me abraçar. Era Renata, antiga colega de turma e uma das organizadoras do reencontro. Logo outras pessoas se aproximaram, e a conversa com Priscila terminou ali.

Mas minha cabeça não estava mais naquele reencontro.

Durante quase uma hora, tentei agir normalmente. Conversei com antigos colegas, ouvi histórias sobre casamentos, divórcios, filhos e carreiras. Algumas pessoas me reconheceram imediatamente, outras precisaram ouvir meu nome duas vezes.

Maurício estava no outro lado do salão.

Ele não parecia mais interessado em comemorar.

Passava boa parte do tempo olhando o celular.

Duas vezes saiu para atender ligações.

Na terceira, decidi segui-lo.

Não porque estivesse desconfiando dele ainda. Pelo menos era isso que eu dizia a mim mesmo.

Maurício era meu amigo antes de ser meu sócio.

Quando fundamos a empresa, trabalhávamos numa sala de vinte metros quadrados sobre uma oficina mecânica. Eu cuidava do produto e dos clientes. Ele cuidava de vendas, fornecedores e finanças. Durante os primeiros dois anos, dividimos até refeições porque nenhum dos dois tinha dinheiro suficiente para desperdiçar.

Eu confiava nele.

Talvez por isso sua reação tivesse me incomodado tanto.

Encontrei-o perto da saída lateral do salão, falando baixo ao telefone.

Quando me aproximei, ouvi apenas o final da conversa.

— Eu sei. Só preciso de mais alguns dias.

Ele desligou ao me ver.

— Quem era?

Maurício guardou o celular.

— Ninguém importante.

— Você acabou de pedir alguns dias para ninguém importante?

Ele respirou fundo.

— Daniel, não começa.

— Eu não comecei nada.

— Então deixa para amanhã.

— Você ficou praticamente em choque quando eu disse que não venderia.

— Porque é uma decisão enorme!

— Para nós dois.

— Exatamente.

Ele passou a mão pelo cabelo.

— Escuta. Eu só acho que você está deixando emoção entrar numa decisão empresarial.

— Que emoção?

— Apego. Orgulho. A ideia de que precisamos manter a empresa para sempre só porque começamos do zero.

Aquilo não fazia sentido.

Eu nunca tinha dito que pretendia mantê-la para sempre.

Na verdade, dois anos antes, nós mesmos tínhamos discutido uma possível venda. Na época, Maurício havia sido o primeiro a rejeitar.

— Você lembra o que me disse quando a Nortec fez aquela oferta?

Ele desviou os olhos.

— Eram outras condições.

— Você disse que vender seria abandonar tudo o que construímos.

— As pessoas mudam.

— O que mudou?

Maurício ficou quieto.

Foi Fábio quem surgiu atrás de mim antes que ele respondesse.

— Daniel, desculpa interromper, mas estão fazendo a foto da turma.

Eu continuei olhando para Maurício.

— Depois a gente termina isso.

— Claro — respondeu ele.

Voltei para o salão.

A foto levou menos de cinco minutos. Colocaram os antigos professores na frente, depois organizaram o restante de nós em duas fileiras. Priscila ficou quase do outro lado do grupo, mas percebi que me observava algumas vezes.

Quando terminou, Fábio tocou meu braço.

— Posso te perguntar uma coisa?

— Depende.

Ele baixou a voz.

— Você e o Maurício estão com algum problema na empresa?

— Não que eu saiba.

Fábio pareceu hesitar.

— Então talvez seja melhor você saber de uma coisa.

Meu estômago apertou.

— O quê?

Ele olhou ao redor antes de continuar.

— Meu cunhado trabalha no Banco Mercantil.

Eu não entendi.

— E?

— Semana passada ouvi seu nome numa conversa.

— Meu nome?

— Não exatamente o seu. O nome da empresa.

Senti meu corpo ficar imóvel.

Fábio percebeu.

— Eu não deveria estar falando disso.

— Agora precisa terminar.

Ele passou a mão pela nuca.

— Ouvi que alguém ligado à empresa estava tentando conseguir um empréstimo grande usando participação societária como garantia.

Demorei alguns segundos para processar aquilo.

— Isso não é possível sem minha autorização.

— Eu sei. Por isso achei estranho.

Meu primeiro impulso foi dizer que devia haver algum engano.

Então me lembrei do telefone de Maurício.

“Só preciso de mais alguns dias.”

— Você sabe quem pediu o empréstimo?

— Não.

— Quanto?

— Também não.

Fábio respirou fundo.

— Mas ouvi um número.

— Qual?

Ele falou quase sussurrando.

— Seis milhões.

Senti o sangue esfriar.

Nossa empresa valia muitas vezes aquilo, mas ninguém movimentava seis milhões usando participação societária como garantia sem uma razão muito séria.

Peguei meu celular imediatamente.

Abri o aplicativo interno que usávamos para acompanhar documentos corporativos. Algumas autorizações exigiam minha assinatura digital, outras podiam ser realizadas por Maurício dentro de limites específicos.

Rolei os registros dos últimos meses.

Nada.

Então entrei na área de notificações arquivadas.

Havia um documento que eu nunca tinha visto.

“Alteração temporária de poderes administrativos.”

Data: vinte e três dias antes.

Autorização vinculada ao meu certificado digital.

Abri o arquivo.

Meu nome estava lá.

Minha assinatura também.

Só havia um problema.

Naquela data, eu estava internado acompanhando minha mãe durante uma cirurgia e não tinha assinado documento algum.

Levantei os olhos.

Do outro lado do salão, Maurício já estava olhando diretamente para mim.

Ele sabia exatamente o que eu tinha encontrado.

Meu celular vibrou.

Uma mensagem havia acabado de chegar de um número desconhecido.

“Sr. Daniel, não assine nenhum acordo de venda antes de verificar a conta 4471. Seu sócio não está tentando vender a empresa para ficar rico. Ele está tentando impedir que algo muito pior apareça.”

Abaixo da mensagem havia uma fotografia de um extrato bancário.

No topo estava o nome da nossa empresa.

E, entre dezenas de transferências que eu nunca tinha autorizado, havia um destinatário que reconheci imediatamente.

Priscila Almeida.

Levantei os olhos novamente.

Ela estava perto do bar, conversando com Renata, aparentemente tranquila.

Maurício continuava me observando do outro lado do salão.

E naquele instante eu já não sabia qual dos dois precisava me explicar primeiro por que o nome da minha ex estava escondido dentro das contas da empresa que eu construí com meu melhor amigo.

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