“Você conhece alguém que queira uma menininha?”
A pergunta fez o bilionário Adriano Valente parar a três passos de seu elevador privativo.
A criança estava sozinha no saguão de mármore de seu hotel, vestindo um casaquinho fino e dois sapatos diferentes. Um coelho de pelúcia pendia debaixo de um de seus braços. Ao lado dela havia uma sacola plástica com tudo o que possuía.
“Minha tia disse que não podia mais ficar comigo”, explicou.
Quando o concierge hesitou, a menina se apressou em tentar mostrar que não daria trabalho.
“Eu não faço muito barulho. Posso dormir no sofá. E agora já sei colocar cereal na tigela sem derramar.”
Algo gelado se moveu sob as costelas de Adriano.
Ele se agachou a alguns passos de distância.
“Como você se chama?”
“Lívia Martins.”
“Quem trouxe você até aqui?”
“Tia Rebeca.”
A equipe de segurança verificou as câmeras. Uma mulher havia deixado Lívia do lado de fora quase três horas antes e depois ido embora em um sedã cinza com placa provisória.
Quando uma representante do Conselho Tutelar chegou, Adriano a reconheceu imediatamente.
**Marina Almeida.**
Onze anos antes, a família dele havia destruído publicamente a reputação do pai dela. Adriano não tinha provocado aquilo — mas estivera presente e não fizera nada.
Agora Marina o encarava com a mesma fúria silenciosa.
“Você não vai se envolver”, ela o advertiu.
“Ela foi abandonada no meu hotel.”
“Isso não lhe dá nenhuma autoridade sobre ela.”
Antes de ir embora, Lívia, envolvida pelo enorme sobretudo preto de Adriano, ergueu os olhos para os andares iluminados da cobertura.
“Você mora lá em cima, bem no último andar?”
“Sim.”
Ela o observou por alguns segundos.
“Não fica solitário?”
Adriano ficou olhando enquanto ela desaparecia sob a chuva.
Na manhã seguinte, seu diretor de segurança entrou na cobertura carregando uma pasta fina.
Dentro dela estava a certidão de nascimento de Lívia.
Adriano leu o nome da mãe da menina — e ficou completamente imóvel.
Atravessou a sala, destrancou um armário no qual ninguém mais tinha permissão para tocar e retirou uma fotografia antiga que pertencera a seu falecido pai.
A mulher naquela fotografia usava o mesmo estranho pingente de prata que a mãe de Lívia.
No verso, o pai de Adriano havia escrito quatro palavras.
Quatro palavras que, de repente, tornavam impossível ignorar a menina abandonada no saguão de seu hotel.
**Continua — clique na Parte 2 para continuar lendo.**







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