Entretenimento

Meu Pai Dizia Que Eu Era “Só Uma Enfermeira” — Até Uma General De Duas Estrelas Me Chamá-Lo Pelo Meu Verdadeiro Título

Por alguns segundos, ninguém conseguiu reagir.

Olhei pela janela.

O homem que havia descido do carro caminhava em direção à entrada da casa com a mesma postura de Geraldo Monteiro. O mesmo terno cinza. O mesmo jeito de ajeitar o relógio no pulso.

Mas havia algo errado.

Muito errado.

— Como você sabe que não é ele? — perguntei a Natanael.

Meu irmão engoliu em seco.

— Porque eu vi meu pai sair daqui há menos de dez minutos.

— E aquele homem?

— Não sei.


Beatriz pegou a pasta preta das minhas mãos.

— Precisamos esconder isso.

— Não.

Segurei a pasta novamente.

— Passei seis anos sem saber a verdade. Não vou esconder mais nada.

Natanael olhou para mim.

— Clara, você não entende. Se essa pasta cair nas mãos deles...

— Então não vai cair.

Passos começaram a ecoar no corredor.

Beatriz apontou para uma porta lateral.


— Existe uma passagem para a biblioteca.

Corremos.

Fechei a porta atrás de nós no instante em que ouvimos a maçaneta do escritório girar.

A biblioteca estava escura. Livros antigos cobriam as paredes e o cheiro de papel envelhecido dominava o ambiente.

Natanael abriu uma pequena porta escondida atrás de uma estante.

— Aqui.

Entramos em um corredor estreito.

— Como você conhece isso? — perguntei.

— Nosso pai me mostrou quando eu era criança.

Olhei para ele.


— Então você sabia que existia?

— Não sabia que ainda estava aberto.

Chegamos a uma pequena sala subterrânea.

Beatriz fechou a porta.

— Precisamos descobrir quem está lá em cima.

Meu telefone vibrou.

Era Helena.

A comunicação havia sido restabelecida.

— Clara, responda.

Peguei o aparelho.


— Estou aqui.

— Onde você está?

— Na casa do meu pai.

Houve um silêncio.

— Você não deveria ter ido para lá.

— Eu encontrei o arquivo.

Helena respirou profundamente.

— O que você descobriu?

— Meu nome está marcado como sujeito principal.

Do outro lado, silêncio novamente.


— Helena?

— Clara, escute com atenção. Você precisa sair daí imediatamente.

— Por quê?

— Porque acabei de receber os registros completos da Operação Ícaro.

Minha mão apertou o telefone.

— E?

— Seu pai não financiou a operação.

Olhei para Natanael.

— Então quem financiou?

— Uma empresa privada.


— Qual?

Helena hesitou.

— Monteiro Aeronáutica.

Meu coração parou.

Era a empresa da minha família.

— Isso não faz sentido.

— Faz, se Geraldo não fosse o proprietário real.

— Quem era?

Helena respondeu:

— Você.


Fiquei imóvel.

Natanael me encarou.

— O quê?

Helena continuou:

— Há seis anos, antes de a Operação Ícaro começar, uma participação majoritária da empresa foi transferida para uma fundação registrada em seu nome.

Senti as pernas enfraquecerem.

— Eu nunca assinei nada.

— Exatamente.

Beatriz fechou os olhos.

— Eles usaram sua identidade.


— Quem?

Antes que Helena pudesse responder, ouvimos um barulho acima de nós.

Alguém havia encontrado a passagem.

Natanael colocou o dedo nos lábios.

Passos.

Lentos.

Depois uma voz.

A voz do meu pai.

— Clara?

Meu coração disparou.


— Pai?

Beatriz segurou meu braço.

— Não responda.

A voz voltou.

— Filha, sei que você está aí.

Era exatamente a voz dele.

Mas então ouvi uma segunda voz.

Vinda do outro lado da porta.

— Não abra.

Reconheci imediatamente.


Era Geraldo.

Meu verdadeiro pai.

Ele estava escondido no corredor secreto.

Abri a porta.

Geraldo entrou rapidamente e fechou-a atrás de si.

Estava com a camisa amassada e uma pequena ferida na testa.

— Pai!

Ele levantou a mão.

— Não temos tempo.

Natanael correu até ele.

— Quem é aquele homem?

Geraldo olhou para o filho.

— Alguém que usa minha identidade há seis anos.

— Por quê?

— Porque eu precisava desaparecer.

Olhei para ele.

— Então a mensagem dizia que você tinha cometido o mesmo erro de seis anos atrás porque...

— Porque eu confiei na pessoa errada.

Ele olhou para a pasta.

— Você encontrou o arquivo.

— Encontrei.

— Então já sabe que seu nome está no centro de tudo.

— Quero a verdade.

Geraldo ficou em silêncio.

— Clara, quando você nasceu, sua mãe descobriu que seu sangue possuía uma característica rara que poderia ser usada para desenvolver tratamentos médicos em ambientes extremos.

Franzi a testa.

— Isso não explica uma operação militar.

— Não era apenas uma pesquisa médica. Seus dados foram utilizados durante anos sem sua autorização. Quando descobri, tentei interromper o projeto.

Beatriz completou:

— E foi aí que Ícaro começou.

Meu pai assentiu.

— Rafael descobriu a mesma coisa. Beatriz também. Nós três tentamos expor o programa.

— E minha mãe?

Geraldo abaixou os olhos.

— Sua mãe entrou na operação para destruir os registros.

— Então por que ela autorizou a missão?

— Porque era a única maneira de chegar ao arquivo central.

O silêncio tomou conta da sala.

— E você? — perguntei. — Por que fingiu que não sabia de nada?

Ele olhou para mim com os olhos marejados.

— Porque alguém me ameaçou com você.

— Quem?

Antes que ele respondesse, um forte estrondo veio do andar superior.

A porta secreta tremeu.

A voz do impostor ecoou novamente.

— Geraldo! Acabou.

Meu pai ficou pálido.

— Ele encontrou a entrada.

— Quem é ele? — perguntei.

Geraldo me encarou.

— O homem que todos acreditam ser Augusto Ferraz.

Beatriz balançou a cabeça.

— O verdadeiro Augusto morreu há seis anos.

Geraldo assentiu.

— E o homem lá em cima assumiu a identidade dele.

— Quem é, então?

Meu pai respirou fundo.

— O diretor original da Operação Ícaro.

A porta começou a se abrir.

Helena gritou pelo telefone:

— Clara, saia daí agora!

Mas antes que pudéssemos nos mover, uma voz veio do corredor secreto.

Uma voz feminina.

Calma.

Conhecida.

— Não há necessidade de fugir.

Minha mãe surgiu na entrada.

Ela olhou para mim, para Rafael e para Geraldo.

Depois colocou uma pequena arma? No entanto, para manter a segurança, ela não portava arma; em vez disso, segurava um documento.

— Eu sei quem ele é.

Olhei para ela.

— Então diga.

Minha mãe apertou o documento contra o peito.

— O homem lá em cima não é Augusto Ferraz.

Ela olhou diretamente para Geraldo.

— É o homem que comandava o projeto desde o início.

Fez uma pausa.

— E ele não veio atrás do arquivo.

Minha mãe entregou o documento para mim.

— Ele veio atrás de você.

Olhei para a primeira página.

Havia uma fotografia minha.

Tirada quando eu tinha apenas seis meses de idade.

Abaixo dela estava escrito:

**“PROJETO ÍCARO — PRIMEIRA AMOSTRA HUMANA.”**

E, no canto inferior da página, havia uma assinatura que fez meu sangue gelar.

A assinatura pertencia à pessoa que eu mais amava e em quem mais havia confiado durante toda a minha vida.

Minha mãe.

No comments yet