Por alguns segundos, ninguém se moveu. O nome de Rafael parecia ter congelado o ar ao nosso redor.
— Isso é impossível — murmurei.
Helena não desviou os olhos de mim.
— É exatamente o que eu disse quando recebi a confirmação.
Meu pai olhou de mim para a general, completamente perdido.
— Quem é Rafael Duarte?
Ninguém respondeu imediatamente.
Foi Natanael quem falou.
— Um homem que desapareceu.
Helena confirmou com um movimento quase imperceptível da cabeça.
— Capitão Rafael Duarte. Oficial de operações aeroespaciais. Declarado desaparecido há seis anos, depois de uma missão classificada relacionada à Operação Ícaro.
Meu pai passou a mão pelo rosto.
— E minha filha conhecia esse homem?
— Conhecia — respondi.
Mas havia algo que eu ainda não tinha contado.
Rafael não era apenas um colega.
Ele tinha sido meu instrutor durante os primeiros meses da minha especialização. Era o homem que me ensinara a reconhecer alterações mínimas nos sinais vitais de pilotos submetidos a condições extremas. O homem que costumava dizer que um bom médico precisava ouvir aquilo que o paciente não conseguia dizer.
E, na última noite em que o vi, ele havia segurado meu ombro e dito:
— Se um dia eu desaparecer, Clara, não acredite na primeira versão que lhe contarem.
Na época, pensei que fosse apenas uma precaução.
Agora aquelas palavras voltavam com uma força assustadora.
— General — falei — onde essa aeronave está?
Helena consultou o telefone.
— Aproximadamente quarenta quilômetros da área militar. Está se aproximando rapidamente.
— E vocês não conseguem identificar o piloto?
— O código responde ao protocolo de Rafael, mas a aeronave não transmite matrícula.
— Então pode ser uma armadilha.
— Pode.
Ela olhou para o portão principal.
— E é justamente por isso que não vamos até ela sem saber quem está esperando.
Um ruído distante começou a crescer no céu.
Todos na varanda levantaram os olhos.
Um helicóptero militar surgiu por trás das árvores.
Meu pai ficou imóvel.
Eu já conhecia aquele tipo de aproximação.
Não era transporte civil.
Era uma aeronave enviada com prioridade.
Helena tocou meu ombro.
— Precisamos ir.
Comecei a caminhar com ela em direção à saída de serviço, mas parei ao ouvir a voz da minha mãe.
— Clara!
Virei-me.
Ela permanecia junto à mesa.
Meu pai estava ao lado dela.
Minha mãe tirou uma pequena chave do bolso.
— Seu pai não sabe disso.
Geraldo virou o rosto para ela.
— O que é essa chave?
Ela ignorou a pergunta.
— Rafael me entregou isso duas semanas antes de desaparecer.
Meu coração parou por um instante.
— Por que você nunca me deu?
Os olhos dela se encheram de lágrimas.
— Porque ele me pediu para esperar até que você estivesse pronta.
— Pronta para quê?
Ela olhou para Helena.
A general parecia igualmente surpresa.
Minha mãe colocou a chave na minha mão.
Era pequena, metálica, com um número gravado.
**17.**
— Ele disse que você saberia onde usar.
Olhei para a chave.
Eu sabia.
Havia apenas um lugar relacionado à Operação Ícaro que carregava aquele número.
O antigo arquivo médico subterrâneo da Base Aérea.
O arquivo que oficialmente havia sido lacrado seis anos atrás.
— Mãe, como Rafael sabia que eu teria acesso àquele lugar?
Ela respirou fundo.
— Porque ele sabia que você seria promovida.
Meu pai deu um passo para trás.
— Você está dizendo que tudo isso foi planejado?
Minha mãe não respondeu.
O som do helicóptero ficou mais alto.
Helena puxou discretamente meu braço.
— Clara, agora.
Entramos no corredor de serviço.
Enquanto caminhávamos, percebi algo estranho.
A porta que levava ao estacionamento dos funcionários estava aberta.
Helena parou imediatamente.
— Isso deveria estar trancado.
Olhei para ela.
— Alguém esteve aqui.
Ela fez um gesto para que permanecêssemos em silêncio.
Avançamos lentamente.
No estacionamento havia apenas carros estacionados sob o sol forte.
Nenhum movimento.
Nenhuma pessoa.
Então vi um detalhe no chão.
Um pequeno cartão preto.
Abaixei-me para pegá-lo.
Na frente havia apenas uma sequência de números.
**17-04-09.**
Virei o cartão.
No verso havia uma frase escrita à mão.
**“Você nunca encontrou o arquivo porque procurou onde mandaram você procurar.”**
Senti um arrepio.
Helena leu por cima do meu ombro.
— Isso não estava nos documentos oficiais.
— Eu sei.
Meu telefone vibrou.
Dessa vez, não era um número desconhecido.
Era uma chamada de vídeo.
O nome exibido na tela me fez perder o fôlego.
**Rafael Duarte.**
Não consegui atender.
Helena segurou meu pulso.
— Não atenda ainda.
A chamada continuou.
Uma vez.
Duas.
Três.
Então parou.
Imediatamente chegou uma mensagem.
**“Se Helena estiver com você, confie nela. Se seu pai estiver com você, não diga nada.”**
Levantei os olhos.
Meu pai estava a poucos metros de distância, olhando para nós.
Ele não conseguia ouvir a mensagem.
Mas parecia ter percebido alguma coisa.
— Clara — disse ele. — O que Rafael queria?
Não respondi.
Helena tomou a frente.
— Senhor Monteiro, sua filha precisa partir agora.
Meu pai encarou a general.
— E eu?
— O senhor deve permanecer aqui.
— Por quê?
Helena sustentou o olhar.
— Porque ainda não sabemos quem está envolvido.
Meu pai ficou ofendido.
— Você está insinuando que eu tenho alguma coisa a ver com isso?
Antes que Helena pudesse responder, o telefone dela tocou.
Ela atendeu.
Escutou em silêncio.
Depois perguntou:
— Tem certeza?
Seu rosto mudou.
— Quanto tempo?
Ela fechou os olhos por um instante.
— Entendido.
Desligou.
Olhou para mim.
— A aeronave acabou de pousar.
— Rafael está nela?
Helena hesitou.
— Não sabemos.
— Então o que aconteceu?
Ela me entregou o telefone.
Na tela havia uma fotografia tirada poucos segundos antes.
Era uma imagem da pista militar.
Uma aeronave escura estava parada sob as luzes.
E, diante dela, havia um homem de uniforme.
Mesmo distante, mesmo parcialmente escondido pela sombra, eu reconheci sua postura.
Reconheci o modo como segurava os ombros.
Reconheci a cicatriz pequena acima da sobrancelha.
Era Rafael.
Mas havia uma coisa que me deixou ainda mais assustada.
Ao lado dele estava um homem que eu conhecia desde a infância.
Meu pai.
Ou, mais precisamente, uma fotografia antiga do meu pai, tirada seis anos antes.
No verso da imagem aparecia uma única frase:
**“Pergunte ao seu pai por que ele estava na Base naquela noite.”**







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