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Meu Pai Dizia Que Eu Era “Só Uma Enfermeira” — Até Uma General De Duas Estrelas Me Chamá-Lo Pelo Meu Verdadeiro Título

O estacionamento mergulhou em um silêncio estranho depois daquela mensagem. Helena permaneceu agachada por alguns segundos, observando cada janela, cada porta e cada ponto de acesso antes de se levantar lentamente.

— Ninguém se move — ordenou.

Major Siqueira reapareceu no corredor, respirando com dificuldade.

— Não encontrei ninguém.

— E o som?

— Uma porta metálica batendo com o vento.

Helena não pareceu convencida.

Eu também não.

Minha mãe ainda segurava o telefone.

— O que significa essa mensagem? — perguntei.


Ela olhou para meu pai.

Geraldo estava parado junto ao carro, imóvel.

— Pai?

Ele não respondeu.

— O que você fez há seis anos?

Ele respirou profundamente.

— Eu tentei tirar Rafael da base.

— Isso eu já sei.

— Não. Você sabe apenas a versão mais simples.

Ele caminhou até nós.


— Naquela noite, Rafael me entregou um envelope. Disse que havia descoberto quem estava por trás da operação. Eu deveria levar o envelope para uma pessoa específica em Brasília.

— Quem?

— Um funcionário do Ministério da Defesa.

Helena estreitou os olhos.

— Nome.

Geraldo hesitou.

— Augusto Ferraz.

A expressão de Helena mudou imediatamente.

— Isso não é possível.

— Você o conhece?


— Conheço o nome. Ele era responsável pela supervisão administrativa de uma das divisões envolvidas na Operação Ícaro.

Meu pai assentiu.

— Rafael acreditava que ele era o único homem em quem podia confiar.

— E você entregou o envelope?

— Não.

A resposta me atingiu.

— Por quê?

Geraldo olhou para minha mãe.

— Porque, quando cheguei ao endereço, Augusto já estava morto.

Minha mãe fechou os olhos.


Eu senti um arrepio.

— Morto?

— Sim. E havia duas pessoas esperando por mim.

— Quem?

— Não consegui identificar. Usei a saída dos fundos e fui embora.

— E o envelope?

Meu pai demorou.

— Ainda estava comigo.

— Onde?

Ele levou a mão ao bolso interno do paletó.


Meu coração acelerou.

Geraldo retirou um pequeno envelope amarelado.

Colocou-o sobre a palma da mão.

— Guardei durante seis anos.

Olhei para Helena.

— Por que você nunca entregou isso?

Meu pai baixou a voz.

— Porque Rafael me disse para só abrir quando você estivesse em perigo.

— E eu estou em perigo agora.

— Sim.


Ele estendeu o envelope.

Peguei.

Meu nome estava escrito na frente.

**CLARA MONTEIRO.**

A letra era de Rafael.

Meus dedos começaram a tremer.

— Abra — disse Helena.

Rasguei cuidadosamente o lacre.

Dentro havia apenas uma fotografia e uma folha dobrada.

Abri a fotografia primeiro.


Era uma imagem antiga da equipe envolvida na Operação Ícaro.

Reconheci Rafael.

Reconheci meu pai.

Reconheci Augusto Ferraz.

Mas havia uma quarta pessoa.

Uma mulher.

O rosto estava parcialmente escondido pela sombra.

Virei a fotografia.

No verso havia uma data.

**14 de agosto.**


E uma palavra:

**“Observadora.”**

Abri a folha.

Havia poucas linhas.

“Clara, se você estiver lendo isto, significa que não consegui voltar. Não confie apenas nos documentos oficiais. A pessoa que iniciou tudo não está fora da sua família. Ela está mais perto de você do que imagina.”

Meu coração apertou.

Continuei.

“Procure a mulher da fotografia. Ela sabe por que seu nome foi escolhido.”

A folha terminava ali.

Sem assinatura.


Sem explicação.

— Quem é essa mulher? — perguntei.

Meu pai ficou pálido.

— Eu não sei.

Helena pegou a fotografia.

Ficou olhando para ela por alguns segundos.

Então falou:

— Eu sei.

Levantei os olhos.

— Quem?


Ela virou a fotografia para mim.

— A doutora Beatriz Valença.

O nome não significava nada para mim.

Mas minha mãe reagiu.

Ela deixou escapar um pequeno suspiro.

— Beatriz...

Olhei para ela.

— Você conhece essa mulher?

Minha mãe ficou em silêncio.

— Mãe.

Ela finalmente assentiu.

— Sim.

Meu pai se virou para ela.

— Você disse que não sabia quem estava envolvido.

— Eu não sabia que ela estava ligada à operação — respondeu.

— Mas você a conhece.

Minha mãe apertou os braços contra o corpo.

— Beatriz era minha amiga.

O silêncio que veio depois foi quase insuportável.

— E onde ela está? — perguntei.

Minha mãe demorou a responder.

— Morta.

Helena levantou a cabeça.

— Quando?

— Há quatro anos.

— Causa?

— Acidente de carro.

Helena ficou pensativa.

— Estranho.

— Por quê?

— Porque Beatriz Valença não morreu em um acidente de carro.

Minha mãe empalideceu.

— Como assim?

Helena consultou rapidamente algumas informações no telefone.

— O relatório oficial diz acidente. Mas o registro militar de segurança aponta outra coisa.

Ela olhou para mim.

— O veículo foi encontrado abandonado. Beatriz nunca foi localizada.

Meu pai recuou.

— Então ela pode estar viva?

— Não sabemos.

Meu telefone vibrou.

Número desconhecido.

Uma mensagem apareceu.

**“Vocês estão procurando a mulher errada.”**

Logo depois veio outra.

**“Beatriz não é a observadora.”**

E então uma terceira.

**“A observadora estava sentada à mesa com você esta manhã.”**

Meu corpo ficou completamente imóvel.

Olhei lentamente para a varanda do clube.

Minha mãe.

Meu pai.

Natanael.

Dênis.

Francisco.

Todos estavam ali.

Mas havia apenas uma pessoa que conhecia detalhes da minha carreira, da Operação Ícaro e da noite em que Rafael desapareceu sem jamais aparecer em nenhum relatório.

Minha mãe.

Ela percebeu meu olhar.

— Clara, eu posso explicar.

Helena se colocou entre nós.

— Senhora Monteiro, agora a senhora vai explicar tudo.

Minha mãe abriu a boca.

Mas antes que pudesse falar, um veículo preto entrou no estacionamento em alta velocidade e parou diante de nós.

A porta traseira se abriu.

Um homem desceu.

Eu reconheci o rosto imediatamente.

Era Rafael.

Ele caminhou em nossa direção, mais velho, mais magro, com uma cicatriz atravessando discretamente a lateral do rosto.

Parou diante de mim.

Olhou para minha mãe.

E disse:

— Ela não está mentindo sobre tudo.

Minha mãe começou a chorar.

Rafael então voltou os olhos para mim.

— Mas há uma coisa que ela nunca contou.

Ele respirou fundo.

— Foi sua mãe quem me pediu para desaparecer.

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