— Coronel Monteiro, Brasília precisa que a senhora esteja a bordo e decolando em até noventa minutos.
Por um instante, ninguém respirou.
Olhei para o envelope diante de mim. O selo oficial do Ministério da Defesa parecia ainda mais pesado agora que eu sabia o prazo. Noventa minutos. Não era um pedido. Era uma ordem operacional.
— Entendido, general — respondi.
Helena assentiu, mas não se afastou.
— Seu transporte já foi acionado. O helicóptero estará esperando na área militar do aeroporto. A equipe de operações está sendo reunida neste momento.
Meu pai finalmente encontrou a própria voz.
— Desculpe, general, mas deve haver algum engano.
Helena virou lentamente o rosto para ele.
— Que tipo de engano?
Geraldo apontou para mim, quase irritado com a própria incapacidade de compreender a situação.
— Minha filha trabalha na área médica. Ela não é... coronel.
Natanael soltou uma pequena risada nervosa.
— Pai, talvez seja uma questão administrativa. Talvez ela tenha recebido alguma promoção, mas isso não significa que—
— Coronel Clara Monteiro — interrompeu Helena, olhando diretamente para ele — é médica da Força Aérea Brasileira, oficial superior e uma das profissionais mais qualificadas do país para determinadas operações de recuperação e atendimento em ambientes extremos.
Natanael ficou imóvel.
Minha mãe abaixou lentamente a taça.
Meu pai, porém, continuava tentando encontrar uma explicação que preservasse a imagem que tinha construído de mim durante tantos anos.
— Mas ela nunca falou disso.
Olhei para ele.
— Você nunca perguntou.
A frase foi simples, mas atingiu alguma coisa dentro dele. Pela primeira vez naquela manhã, Geraldo não teve uma resposta pronta.
Helena abriu a pasta novamente e retirou uma segunda folha.
— Há mais uma coisa.
Ela colocou o documento diante de mim.
— Esta designação não é para uma missão médica comum.
Li as primeiras linhas.
Depois parei.
O nome do projeto estava parcialmente oculto por uma tarja de classificação.
Mas abaixo havia uma referência que reconheci imediatamente.
**Operação Ícaro.**
Meu estômago se apertou.
Eu conhecia aquele nome.
Não porque tivesse participado dela.
Mas porque, dois anos antes, eu havia sido chamada para avaliar um dos relatórios médicos relacionados ao projeto.
Na época, recebera apenas algumas páginas. Informações fragmentadas. Um paciente recuperado em condições que não deveriam ter sido possíveis. Dados fisiológicos inconsistentes. Uma sequência de comunicações interrompidas.
E uma recomendação final: não divulgar.
— Eu pensei que esse projeto tivesse sido encerrado — murmurei.
Helena me observou atentamente.
— Foi o que disseram.
Levantei os olhos.
— Então por que estou sendo chamada agora?
A general demorou alguns segundos para responder.
— Porque ontem à noite recebemos uma transmissão.
Meu coração acelerou.
— De onde?
Helena olhou rapidamente para os homens sentados à mesa antes de responder.
— De uma aeronave que oficialmente não existe.
O silêncio voltou.
Meu pai empalideceu.
Francisco se inclinou para frente.
— Isso é algum tipo de exercício militar?
— Não — respondeu Helena.
Ela fechou a pasta.
— E é justamente por isso que precisamos de você.
Meu telefone vibrou sobre a mesa.
Olhei para a tela.
Número desconhecido.
Uma mensagem.
**CORONEL MONTEIRO, NÃO CONFIE EM NINGUÉM QUE ESTIVER NO CLUBE.**
Meu sangue gelou.
Levantei os olhos imediatamente.
Helena percebeu minha expressão.
— O que aconteceu?
Entreguei meu telefone a ela.
Ela leu a mensagem.
Seu rosto mudou.
Não demonstrou medo. Helena Vasconcelos não parecia uma mulher que se permitia esse luxo.
Mas ficou séria de uma maneira que eu nunca tinha visto.
— Há quanto tempo recebeu isso?
— Agora.
Ela olhou para o relógio.
— Então temos menos tempo do que imaginávamos.
Meu pai se levantou abruptamente.
— Clara, você não vai simplesmente sair daqui por causa de uma mensagem anônima.
Virei-me para ele.
Durante anos, eu tinha tentado explicar quem era. Meu trabalho. Minhas responsabilidades. As coisas que eu fazia quando ele não estava olhando.
Ele nunca quis saber.
Agora, pela primeira vez, parecia desesperado para entender.
— Pai, você passou a manhã inteira dizendo que eu era insignificante.
Ele ficou em silêncio.
— Agora que alguém precisa de mim, não posso fingir que não ouvi.
Peguei o envelope e me levantei.
Minha mãe finalmente falou.
— Clara...
Parei.
Ela segurava a taça com as duas mãos.
Havia algo diferente no olhar dela.
Não era apenas preocupação.
Era medo.
— Você conhece essa operação? — perguntei.
Ela desviou os olhos.
Foi apenas por um segundo.
Mas eu vi.
— Não — respondeu.
Helena também viu.
A general fechou a pasta lentamente.
— Senhora Monteiro...
Minha mãe levantou o rosto.
Helena não terminou a frase.
Porque, naquele instante, o celular da minha mãe vibrou.
Ela olhou para a tela.
E ficou completamente imóvel.
Eu dei um passo em sua direção.
— Quem mandou?
Ela não respondeu.
Estendi a mão.
— Mãe.
Depois de alguns segundos, ela entregou o aparelho.
Havia apenas uma mensagem.
**“Ela finalmente descobriu. Faça com que Clara não chegue ao aeroporto.”**
Levantei os olhos para minha mãe.
E, pela primeira vez na minha vida, percebi que talvez meu pai não fosse a única pessoa daquela família que tinha escondido alguma coisa de mim.







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