Fiquei olhando para a assinatura no documento como se meu cérebro se recusasse a reconhecê-la. O traço era inconfundível. Meu pai assinava daquele jeito desde que eu era criança, inclinando ligeiramente o sobrenome para a direita, como se até as letras precisassem obedecer à pressa dele.
— Isso não é possível — murmurei.
O homem diante de mim não se moveu.
— É a assinatura dele.
Beatriz permaneceu atrás de mim, em silêncio.
— Quem é você? — perguntei.
— Major Henrique Salgado.
— Nunca ouvi falar de você.
— Esse era o objetivo.
Ele apontou para o documento.
— Seu pai assinou a autorização de transferência de Rafael Duarte seis anos atrás.
Senti meu peito apertar.
— Transferência para onde?
Henrique não respondeu.
Beatriz tomou a palavra.
— Para uma instalação que não constava nos mapas militares.
Olhei novamente para o documento.
Havia uma série de códigos, números e carimbos.
— Meu pai não tinha autoridade para autorizar uma operação desse nível.
— Oficialmente, não — disse Henrique. — Mas ele tinha acesso a uma divisão civil que financiava parte do projeto.
Aquilo me fez lembrar das empresas de meu pai, das reuniões que eu nunca entendia, dos contratos internacionais que ele sempre tratava como assuntos particulares.
— Você está dizendo que meu pai financiava a Operação Ícaro?
— Estou dizendo que ele ajudou a criar a estrutura que permitiu que ela existisse.
Meu coração acelerou.
— Então por que Rafael confiava nele?
Henrique olhou para Beatriz.
— Essa é a pergunta certa.
Beatriz finalmente se aproximou.
— Porque Geraldo não começou como parte do esquema.
— O que aconteceu?
Ela me encarou.
— Ele descobriu tarde demais o que estavam fazendo.
— E mesmo assim assinou.
— Porque sua vida estava em risco.
Senti raiva.
— Todo mundo usa essa desculpa.
Minha voz aumentou.
— Minha mãe me protegeu. Rafael desapareceu para me proteger. Meu pai assinou documentos para me proteger. Todo mundo diz que fez tudo por mim, mas ninguém perguntou o que eu queria!
Beatriz não respondeu.
Henrique apenas me observou.
Então ele disse:
— Você quer saber o que realmente aconteceu naquela noite?
— Quero.
— Então pare de procurar o homem que assinou o documento.
Ele apontou para a assinatura.
— Procure quem obrigou seu pai a assinar.
Um ruído metálico ecoou no corredor.
Henrique olhou para a porta.
— Eles chegaram.
— Quem?
— Pessoas que não podem permitir que você leia o restante.
Ele puxou uma pequena chave de seu bolso.
— O arquivo 17 não está mais na base.
Olhei para ele.
— Onde está?
— Em sua casa.
Meu coração parou.
— O quê?
— Seu pai retirou o conteúdo original há seis anos e escondeu tudo em um lugar onde ninguém procuraria.
— Onde?
Henrique entregou a chave para mim.
— No escritório dele.
Beatriz segurou meu braço.
— Clara, escute. Se seu pai ainda tiver o arquivo, ele provavelmente está sendo vigiado.
— Então precisamos voltar.
— Não.
Ela balançou a cabeça.
— Precisamos chegar antes deles.
Um forte barulho veio do lado de fora.
A maçaneta começou a se mover.
Henrique apagou a luz.
— Há uma saída pelos fundos.
— E você?
— Vou atrasá-los.
— Você vai morrer?
Ele soltou um pequeno sorriso.
— Não pretendo.
Beatriz me puxou para uma porta lateral.
Corremos por um corredor estreito até uma área de manutenção.
O transmissor ainda estava silencioso.
— Helena não consegue nos ouvir — falei.
— Então precisamos presumir que estamos por conta própria.
Saímos do hangar por uma porta de serviço.
Um veículo estava estacionado do outro lado.
Beatriz abriu a porta.
— Entre.
— De quem é?
— De alguém que ainda confia em mim.
Assim que o carro arrancou, meu telefone começou a tocar.
Era meu pai.
Atendi.
— Pai?
Nenhuma resposta.
— Pai, fale comigo.
Ouvi uma respiração pesada.
Depois sua voz.
— Clara... não volte para casa.
Fiquei imóvel.
— Por quê?
— Eles já estão lá.
— Quem?
Silêncio.
— Pai, quem está na nossa casa?
Sua voz ficou quase inaudível.
— Seu irmão.
Meu coração afundou.
— Natanael?
— Ele não é quem você pensa.
A ligação caiu.
Olhei para Beatriz.
— Meu pai disse que Natanael está na casa.
Ela apertou o volante.
— Então precisamos chegar lá antes que ele encontre o arquivo.
Quando entramos na propriedade dos Monteiro, percebi imediatamente que alguma coisa estava errada.
O portão estava aberto.
Nenhum segurança estava no posto.
A porta principal também estava destrancada.
Beatriz desligou o motor.
— Fique atrás de mim.
Entramos.
A casa estava silenciosa.
Na sala, uma xícara de café ainda estava sobre a mesa.
O café estava quente.
Alguém tinha acabado de sair dali.
Subimos até o escritório de Geraldo.
A porta estava aberta.
As gavetas haviam sido arrancadas.
Papéis cobriam o chão.
E, no centro da sala, Natanael estava parado diante do cofre.
Ele se virou quando nos viu.
Seu rosto estava pálido.
— Clara...
Olhei para ele.
— Onde está meu pai?
Natanael não respondeu.
— Onde ele está?
— Eu não sei.
Beatriz apontou para o cofre.
— Você abriu?
Natanael balançou a cabeça.
— Não consegui.
Aproximei-me.
— Dê um passo para trás.
Ele obedeceu.
Usei a pequena chave que Henrique havia me entregado.
A fechadura girou.
O cofre abriu.
Dentro havia apenas uma pasta preta.
Peguei-a.
Na capa havia uma única palavra:
**ÍCARO.**
Abri.
A primeira página continha uma lista de nomes.
Rafael Duarte.
Beatriz Valença.
Helena Vasconcelos.
Geraldo Monteiro.
Natanael Monteiro.
Meu sangue gelou.
E então encontrei meu próprio nome.
Mas ao lado dele não havia cargo, função ou código.
Havia apenas uma anotação escrita à mão:
**“SUJEITO PRINCIPAL — NÃO INFORMAR À CORONEL MONTEIRO.”**
Olhei para Beatriz.
— O que isso significa?
Ela ficou completamente imóvel.
— Significa que você não era apenas parte da investigação, Clara.
— Então o que eu era?
Beatriz fechou os olhos.
— Você era a razão pela qual a Operação Ícaro começou.
Antes que eu pudesse perguntar qualquer coisa, ouvimos o som de um carro parando do lado de fora.
Natanael foi até a janela.
Olhou para a rua.
Depois se virou para nós, aterrorizado.
— É meu pai.
Meu coração acelerou.
— Então ele está vivo.
Natanael balançou a cabeça.
— Não.
Ele apontou para o carro.
— O homem que acabou de sair dele está usando o rosto do meu pai.







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