Rafael não desviou os olhos de mim. Durante seis anos, eu havia imaginado aquele momento de centenas de maneiras diferentes. Em nenhuma delas minha mãe estava ao meu lado, chorando, enquanto o homem que todos acreditavam morto dizia que ela havia sido responsável pelo seu desaparecimento.
— Por quê? — perguntei.
Minha voz saiu baixa.
Rafael olhou para Helena antes de responder.
— Porque, naquela noite, nós descobrimos que a Operação Ícaro não tinha como objetivo apenas testar uma nova tecnologia de recuperação.
— Então qual era o objetivo?
— Descobrir quem estava vazando informações dentro da Força Aérea.
Helena franziu a testa.
— Rafael, eu fui informada de que o vazamento havia sido identificado.
— Essa foi a versão que deram à senhora.
Ele tirou um pequeno dispositivo do bolso e o colocou sobre o capô do carro.
— O vazamento nunca foi identificado porque não havia apenas uma pessoa envolvida.
Meu pai aproximou-se.
— Quantas?
Rafael olhou para ele.
— Quatro.
Meu pai ficou imóvel.
— Quatro pessoas dentro da operação?
— Quatro pessoas que tinham acesso a informações suficientes para manipular missões, alterar registros e decidir quem receberia determinadas designações.
Meu coração apertou.
— E eu?
Rafael voltou a olhar para mim.
— Você era uma das pessoas escolhidas para entrar no grupo sem saber que estava sendo observada.
— Então minha carreira inteira...
— Foi usada como parte da investigação.
Aquelas palavras doeram mais do que eu esperava.
Não porque minha carreira fosse falsa.
Tudo o que eu havia conquistado era real.
Mas porque, de repente, comecei a questionar cada promoção, cada transferência, cada ordem que havia recebido.
— E minha mãe sabia?
Rafael assentiu.
— Sua mãe descobriu parte da verdade antes de mim.
Minha mãe chorava em silêncio.
— Clara...
— Não — interrompi. — Quero ouvir dele.
Rafael respirou fundo.
— Sua mãe descobriu que havia pessoas tentando acessar seus registros médicos e profissionais. Quando percebeu que você estava sendo preparada para uma missão que poderia colocá-la diretamente no caminho deles, procurou-me.
— E pediu para você desaparecer?
— Pediu para que eu fingisse desaparecer.
— Qual é a diferença?
— A diferença é que eu continuaria investigando enquanto todos acreditariam que eu estava morto.
Helena cruzou os braços.
— Por que não me contou?
Rafael a encarou.
— Porque havia suspeitas até dentro do seu próprio comando.
Helena não respondeu.
Aquilo parecia ter atingido uma ferida antiga.
Meu pai se aproximou.
— E eu? Por que fui envolvido?
Rafael olhou para ele.
— Porque você recebeu o envelope.
— O que havia dentro dele?
— Provas.
— Então por que você deixou que eu guardasse durante seis anos?
Rafael respondeu sem hesitar.
— Porque ninguém imaginaria que você esconderia algo tão importante dentro de sua própria casa.
Meu pai passou a mão pelo rosto.
— Eu quase destruí aquilo.
— Eu sei.
— Como sabe?
Rafael apontou para o dispositivo sobre o carro.
— Porque alguém monitorou sua casa durante meses.
Meu pai ficou pálido.
Eu olhei para minha mãe.
— E você sabia disso?
Ela assentiu.
— Eu sabia que estávamos sendo observados.
— Então por que continuou agindo como se nada estivesse acontecendo?
Minha mãe apertou os olhos.
— Porque qualquer reação poderia colocar você em risco.
Eu queria ficar furiosa.
Queria gritar.
Mas, naquele momento, percebi que havia algo ainda pior escondido em seu silêncio.
— Você disse que Beatriz morreu.
Minha mãe não respondeu.
Rafael olhou para ela.
— Conte a ela.
Ela respirou fundo.
— Beatriz não morreu.
Meu coração parou.
— Eu sabia.
A voz de Rafael foi firme.
— E ela é a razão pela qual você recebeu a ordem de hoje.
Helena imediatamente perguntou:
— Onde ela está?
Minha mãe olhou para Rafael.
— Não sei.
— Você acabou de dizer que ela está viva — falei.
— Eu disse que ela não morreu.
— Isso não é a mesma coisa.
Minha mãe fechou os olhos.
— Quatro anos atrás, Beatriz desapareceu porque descobriu quem estava coordenando o grupo.
— Quem?
Ela abriu os olhos.
— Augusto Ferraz.
Helena balançou a cabeça.
— Augusto está morto.
— O homem que morreu era Augusto Ferraz — disse Rafael. — Mas não era o homem que comandava a operação.
Helena ficou em silêncio.
— Então quem era? — perguntei.
Rafael pegou a fotografia novamente e apontou para a mulher parcialmente escondida.
— Beatriz descobriu que Augusto tinha usado a identidade de outra pessoa para autorizar vários documentos.
Meu pai franziu a testa.
— De quem?
Rafael olhou para mim.
— De um oficial que tinha acesso a todos os níveis da operação.
Senti um aperto no peito.
— Quem?
Rafael não respondeu imediatamente.
Em vez disso, abriu o dispositivo que havia colocado sobre o carro.
Uma gravação apareceu na tela.
A imagem estava escura e tremida.
Reconheci imediatamente a sala.
Era uma sala de reuniões militar.
Seis anos antes.
Rafael estava sentado de um lado da mesa.
Meu pai estava do outro.
E, no centro, havia uma mulher.
Minha mãe.
Minha respiração falhou.
— Isso é impossível.
Minha mãe começou a chorar.
Na gravação, ela dizia:
— Se Clara descobrir o que realmente está acontecendo, eles vão usá-la para chegar até nós.
Rafael respondeu:
— Então precisamos tirá-la da operação.
Minha mãe olhou diretamente para ele.
— Não podemos tirá-la.
— Por quê?
Ela demorou alguns segundos.
Então disse:
— Porque Clara é a única pessoa que eles não conseguem controlar.
A gravação terminou.
Olhei para minha mãe.
— O que isso significa?
Ela não respondeu.
Helena parecia tão chocada quanto eu.
Meu pai também.
Então o telefone de Rafael tocou.
Ele atendeu.
Ouviu em silêncio.
Seu rosto mudou.
— Onde?
Ele desligou.
— O que aconteceu? — perguntei.
— Beatriz acabou de aparecer.
— Onde?
Ele olhou para mim.
— No aeroporto.
Meu coração acelerou.
— Ela está segura?
Rafael hesitou.
— Não.
Helena imediatamente entrou em ação.
— Vamos.
Começamos a caminhar em direção ao helicóptero.
Mas Rafael segurou meu braço.
— Clara, antes de você embarcar, preciso lhe dizer uma coisa.
— O quê?
Ele olhou para minha mãe.
— Beatriz não foi ao aeroporto para fugir.
Fez uma pausa.
— Ela foi até lá para encontrar você.
Meu telefone vibrou naquele instante.
Uma mensagem apareceu na tela.
**“Clara, não embarque com Helena.”**
Logo abaixo havia uma segunda mensagem.
**“Se você quiser saber quem realmente autorizou a Operação Ícaro, venha sozinha até o hangar 4.”**
E, no final, uma última frase:
**“Seu pai já esteve aqui hoje.”**







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