A fotografia tremia entre meus dedos.
Não porque eu tivesse medo de Rafael estar vivo.
Mas porque, pela primeira vez, havia uma ligação concreta entre meu pai e a noite em que Rafael desaparecera.
Levantei os olhos.
Geraldo estava parado a poucos metros de nós.
— Pai — falei.
Ele percebeu imediatamente que alguma coisa havia mudado.
— O que foi?
Mostrei a fotografia.
O rosto dele perdeu a cor.
Foi uma reação pequena, quase imperceptível.
Mas eu vi.
Helena também.
— Você estava lá — disse.
Meu pai respirou fundo.
— Clara, isso não é o que você está pensando.
— Então me diga o que é.
Ele olhou para minha mãe.
Ela não conseguiu encará-lo.
Aquilo foi suficiente para destruir o pouco de confiança que ainda me restava.
— Vocês dois sabiam — murmurei.
— Eu não sabia de tudo — minha mãe respondeu.
— Mas sabia alguma coisa.
Ela abaixou a cabeça.
Meu pai se aproximou.
— Eu fui à base naquela noite, sim.
O mundo pareceu ficar silencioso.
— Por quê?
Ele hesitou.
— Rafael me chamou.
Helena imediatamente ficou alerta.
— Rafael chamou o senhor?
— Sim.
— Para quê?
Geraldo olhou para mim.
— Para falar sobre você.
Meu coração acelerou.
— Sobre mim?
— Ele acreditava que sua transferência para aquela unidade não tinha sido uma coincidência.
— Eu já sabia disso.
— Não, Clara. Você não sabe tudo.
Ele passou a mão pela testa.
— Rafael descobriu que alguém dentro da estrutura militar estava usando informações médicas confidenciais para selecionar determinados oficiais para uma operação que não aparecia nos registros oficiais. Seu nome estava entre eles.
— E você fez o quê?
— Tentei tirá-la de lá.
Helena franziu a testa.
— E por que nunca comunicou isso às autoridades?
Meu pai olhou para ela.
— Porque naquela época eu não sabia em quem confiar.
— Então decidiu esconder tudo da sua própria filha?
— Eu estava tentando mantê-la viva!
A voz dele ecoou pelo estacionamento.
Fiquei imóvel.
Meu pai nunca gritava comigo por medo.
Ele gritava porque acreditava que autoridade era uma forma de amor.
Mas daquela vez havia algo diferente.
Desespero.
— O que aconteceu naquela noite? — perguntei.
Geraldo fechou os olhos.
— Rafael me mostrou documentos. Falou sobre uma operação que envolveria recuperação de material e pessoas em uma região onde, oficialmente, não havia nenhuma atividade militar. Ele acreditava que alguém estava encobrindo um acidente.
— Que acidente?
Ele não respondeu.
Helena se aproximou.
— Senhor Monteiro.
Meu pai olhou para ela.
— O que havia naquela aeronave?
Ele permaneceu em silêncio por tanto tempo que achei que não responderia.
Então disse:
— Uma caixa-preta.
Meu estômago se contraiu.
— De qual aeronave?
— Da aeronave que desapareceu durante o primeiro teste da Operação Ícaro.
Helena ficou rígida.
— Aquele acidente nunca teve uma caixa-preta recuperada.
— Exatamente.
O vento atravessou o estacionamento.
Por alguns segundos, ninguém disse nada.
Então perguntei:
— E onde ela está?
Meu pai me encarou.
— Eu não sei.
— Você está mentindo.
— Não estou.
— Então por que Rafael chamou você?
Ele abriu a boca.
Antes que pudesse responder, ouvimos passos.
Helena imediatamente levou a mão ao rádio.
Um homem surgiu no corredor lateral.
Usava uniforme militar, mas não carregava identificação visível.
— Coronel Monteiro?
— Quem é você? — perguntou Helena.
O homem parou.
— Major André Siqueira. Fui enviado para escoltar a coronel até a aeronave.
Helena não baixou a guarda.
— Identificação.
Ele apresentou o documento.
Ela examinou.
Depois fez uma pergunta curta:
— Qual é o código da missão?
O homem respondeu sem hesitar.
Helena olhou para mim.
— É legítimo.
Comecei a caminhar.
Mas meu pai segurou meu braço.
— Clara, não vá.
Olhei para ele.
— Você acabou de passar anos escondendo a verdade de mim. Agora não pode me pedir que confie em você sem explicar o resto.
Ele apertou os lábios.
— Rafael me pediu uma coisa antes de desaparecer.
— O quê?
— Se algum dia você descobrisse a verdade, eu deveria impedir que você abrisse o arquivo dezessete.
Meu corpo ficou gelado.
Olhei para a pequena chave em minha mão.
Número 17.
— Por quê?
Meu pai baixou a voz.
— Porque o arquivo não contém apenas informações sobre Rafael.
— O que contém?
Ele se aproximou e sussurrou:
— Contém o nome da pessoa que autorizou a Operação Ícaro.
Olhei para Helena.
Ela estava me observando.
— Você sabia disso? — perguntei.
Ela demorou um segundo a mais do que deveria.
— Eu sabia que o arquivo existia.
— Mas não sabia quem estava nele?
— Não.
Meu pai balançou a cabeça.
— Sabe por que Rafael nunca voltou oficialmente?
— Por quê?
— Porque alguém falsificou os registros de sua morte.
O ar pareceu desaparecer dos meus pulmões.
— Então ele estava vivo esse tempo todo?
— Não sei.
— Você disse que ele desapareceu.
— Porque era isso que eu acreditava.
Meu telefone vibrou.
Uma nova mensagem.
Dessa vez, não havia texto.
Apenas uma fotografia.
Era Rafael.
Estava dentro de uma sala escura.
Atrás dele havia uma parede metálica com uma inscrição que reconheci imediatamente.
**ARQUIVO 17.**
Meu coração disparou.
Então chegou outra mensagem.
**“Clara, se você está vendo isso, significa que finalmente encontrou a chave. Não venha sozinha.”**
Olhei para Helena.
— Acho que sei para onde precisamos ir.
Ela assentiu.
— Arquivo dezessete.
Mas antes que déssemos um passo, meu pai falou:
— Não.
Todos nos viramos.
Ele estava olhando para a fotografia no meu telefone.
— Se Rafael está dentro daquele arquivo, então alguém o colocou lá.
— Quem? — perguntei.
Meu pai me encarou com os olhos cheios de medo.
— A mesma pessoa que está tentando impedir você de chegar ao aeroporto.
Nesse instante, um estampido seco ecoou do outro lado do estacionamento.
Todos se abaixaram por instinto.
Helena puxou o rádio.
— Segurança, fechem todas as saídas imediatamente!
Major Siqueira correu em direção ao corredor.
E, no mesmo instante, o celular de minha mãe vibrou outra vez.
Ela olhou para a tela.
Depois começou a chorar.
— Clara...
— O que foi?
Ela virou o telefone para mim.
Havia apenas uma frase.
**“Seu pai acabou de cometer o mesmo erro de seis anos atrás.”**







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